«Habitar o silêncio»: Mosteiro de Singeverga é um «lugar acolhedor» que transmite a mensagem de que «todos os cristãos devem viver em comunidade»

Abade Bernardino Costa apresenta espaço da comunidade beneditina em Roriz (Santo Tirso), na Diocese do Porto, nomeadamente a igreja que contém obra atribuída a Tintoretto

Foto: Agência ECCLESIA/HM

Porto, 18 ago 2026 (Ecclesia) – O abade do Mosteiro de São Bento de Singeverga, em Roriz (Santo Tirso), na Diocese do Porto, afirmou que a igreja e a hospedaria deste lugar recebem um público diverso, sublinhando que o propósito não é acolher o maior número de pessoas, mas testemunhar a forma de vida cristã assente na comunidade.

“Nós não ficamos alegres por ter a assembleia cheia, porque nós somos uma comunidade e o objetivo de uma comunidade cristã é, precisamente, mostrar que todos os cristãos devem viver em comunidade”, realçou o frei Bernardino Costa, em entrevista ao programa Ecclesia, transmitido hoje na RTP2.

O monge beneditino destaca que a “assembleia” nas celebrações “é um bocadinho heterogénea” e que a comunidade monástica sente que as pessoas ali gostam de ir, “porque se sentem num lugar acolhedor” e, “ao mesmo tempo, gostam da música”, que é marcada pela tonalidade do gregoriano.

“Aquela simplicidade, aquela calma, aquela harmonia. Claro, as pessoas gostam de beber, precisamente, deste contexto. E, por isso, é normal que venham”, indicou.

O Mosteiro de Singeverga é o único mosteiro masculino que, em Portugal, segue a Regra de São Bento de Núrsia (529), escrita originalmente para o mosteiro de Mo­nte Cas­sino, tendo como lema ‘Ora et La­bora’ (Reza e Trabalha).

Foi fundado a 25 de janeiro de 1892 na Freguesia de Roriz, Santo Tirso, por monges vindos de Cucujães, onde se iniciara a restauração da vida beneditina, após a extinção das ordens religiosas, em 1834.

O edifício é composto por uma hospedaria, que recebe não apenas cristãos e católicos, mas outras confissões religiosas, que ali passam uns dias com a comunidade monástica a rezar e usufruir do silêncio.

“Depois temos também alguns que são estudantes, ou que estão a preparar um exame, ou que estão a preparar uma tese, e aí pedem uma estadia um bocadinho mais longa. Que seja por um mês, dois meses, três meses”, conta o frei Bernardino Costa.

O monge beneditino fala também nos hóspedes que ali chegam pela primeira vez, que são aconselhados a fazer uma experiência breve, porque é a estreia com a comunidade, que tem uma dinâmica e rotinas próprias e é marcada por um ambiente de silêncio.

“Gostamos que o primeiro contacto seja breve. Isto é, dois, três dias, que é para ele [hóspede] não se aborrecer e não se sentir também obrigado a estar” referiu.

O frei Bernardino Costa explica que a hospedaria pode receber visitantes até 15 dias e que, caso haja a intenção de ficar mais do que esse período, é necessário perguntar ao abade, de forma a garantir que a permanência não interfere com o ritmo próprio da comunidade.

O Mosteiro de Singeverga tem como epicentro a igreja que, para os beneditinos, é uma espécie de “menina dos olhos”, descreve o entrevistado, que ressalta que, para esta ordem religiosa, este é um lugar de encontro, onde vão várias vezes ao dia.

Foto: Agência ECCLESIA/HM

É no altar-mor que se encontra uma pintura a óleo, denominada “A Adoração dos Reis Magos”, que aquela comunidade recebeu como herança e que está relacionada a um reconhecido pintor italiano.

“Quando veio um dos irmãos que tinha estudado em Florença, disse certamente é um Tintoretto, mas a comunidade não o acreditou. Isto realmente era demasiado, ou parecia demasiado, nós termos aqui um Tintoretto no Mosteiro de Singeverga. […] E, portanto, depois a conclusão é que se não é de Tintoretto do autor, é da escola de Tintoretto”, explicou.

O frei Bernardino Costa reforça que “para os beneditinos e para a Igreja, a liturgia e o lugar da celebração” são muito importantes e que, além do quadro, tudo tem que estar no “sítio certo para que não haja confusão”.

Foto: Agência ECCLESIA/HM

O templo incluiu um ambão em mármore e um altar que evidenciam uma estética contemporânea que habita com linhas mais clássicas.

“A verdade é que a história da arte mostra que cada época cultural teve os seus artistas, teve as suas características, e, hoje, nós temos, também, as nossas linguagens”, começou por dizer.

“Não podemos continuar a construir igrejas em estilo barroco, assim como, por exemplo, o neoclássico, ou clássico, também é de outro tempo, e hoje nós podemos dizer o mesmo mistério com uma linguagem mais atual”, defendeu.

São Bento escreve a Regra que assenta nos pilares da Oração e do Trabalho e que no Mosteiro de Singeverga encontra realização.

“Aqui vivemos também do trabalho das nossas mãos. E isto não tem sido de maneira artificial, mas tem sido uma forma natural em que nós, no fundo, nos vamos habituando a este novo modo de estar”, disse frei Bernardino Costa.

“Já temos uma quinta, que a comunidade sempre manteve. A agropecuária, e a produção de vinho, temos a vinha, produzimos vinho. Depois o próprio licor, o licor de Singeverga, que somos conhecidos desde quase a fundação de Singeverga que o produzimos, e a verdade é que, claro, vamos mantendo”, complementou.

Nas oficinas do mosteiro, produzem-se painéis, imagens, alfaias e mobiliário litúrgico, procurando entrelaçar a sabedoria monástica da leitura orante da Palavra de Deus com os pressupostos técnicos e criatividade inovadora.

O programa Ecclesia, em cada terça-feira de agosto e no dia 1 de setembro, vai ‘Habitar o silêncio’, através da visita a lugares de reflexão, com vários intervenientes, onde a proposta cristã e a natureza cruzam-se e convidam à interioridade.

HM/LJ

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