Lisboa: Patriarca convida família vicentina a responder «com criatividade, coragem e capacidade de inovação» à revolução digital e à IA

D. Rui Valério abriu Assembleia Geral internacional da Sociedade de São Vicente de Paulo, na capital

Foto: Agência ECCLESIA/HM; D. Rui Valério

Lisboa, 16 jun 2026 (Ecclesia) – O patriarca de Lisboa convidou hoje, na capital portuguesa, a Sociedade de São Vicente de Paulo (SSVP) a discernir sobre os desafios do século XIX trazidos pela industrialização, apontando à revolução digital e ao desenvolvimento acelerado da inteligência artificial.

“Mudam as formas de trabalho. Mudam os modos de comunicação. Mudam as relações humanas. Mudam os processos de decisão. Mudam até as formas de compreender a própria condição humana”, assinalou D. Rui Valério, na abertura da Assembleia Geral da SSVP, em Lisboa.

O patriarca de Lisboa salientou que “perante estas transformações, os católicos são novamente chamados a escutar o Espírito Santo e a discernir os caminhos pelos quais Deus continua a chamar a Igreja ao serviço da humanidade”.

Aludindo à encíclica ‘Magnifica Humanitas’, D. Rui Valério destaca que “numa sociedade frequentemente descrita como ‘líquida’, marcada pela instabilidade, pela fragmentação e pela dificuldade em encontrar referências duradouras”, o Papa recorda “a importância da verdade como fundamento indispensável da vida pessoal e social”.

“Sem verdade não existe confiança. Sem confiança não existe comunidade. Sem comunidade não existe futuro”, indicou.

O patriarca de Lisboa realça também a mensagem de redescoberta da dignidade do trabalho humano deixada por Leão XIV no documento: “Num contexto em que muitos receiam ser substituídos por sistemas automatizados, torna-se ainda mais urgente afirmar que o valor da pessoa nunca pode ser reduzido à sua utilidade económica”.

Na intervenção, D. Rui Valério enfatiza ainda a importância de “preservar a capacidade de discernir, escolher e agir responsavelmente”, num “mundo crescentemente condicionado por algoritmos, previsões automatizadas e sistemas de influência invisível”.

Estes desafios interpelam diretamente a missão vicentina. Exigem criatividade, coragem, capacidade de inovação e, sobretudo, fidelidade ao Evangelho.”

A Assembleia geral internacional da SSVP reúne representantes de mais de 110 países estão reunidos na capital portuguesa para refletir sobre os desafios da missão vicentina e definir orientações para os próximos anos.

“Esperamos que esta vocação de hospitalidade que caracteriza Lisboa possa também inspirar os vossos trabalhos. Que estes dias sejam ocasião de encontro fraterno, de partilha de experiências, de discernimento e de renovação da missão”, desejou o patriarca.

O responsável católico evidenciou “o bem imenso que a Sociedade de São Vicente de Paulo realiza em tantos países, junto de tantas pessoas e famílias que enfrentam situações de fragilidade, pobreza e exclusão”.

D. Rui Valério sublinhou a “oportunidade singular” deste momento para a SSVP, fazendo depois referência à encíclica ‘Rerum Novarum’ de Leão XIII, “documento que inaugurou uma nova etapa da reflexão social da Igreja diante dos desafios suscitados pela modernidade e pela revolução industrial”.

“Não foi apenas um ponto de partida. Foi também um ponto de chegada. Foi a síntese madura de numerosas experiências de caridade, reflexão e compromisso cristão que, durante décadas, procuraram responder às novas questões sociais que emergiam no mundo”, frisou.

Entre essas experiências, o patriarca de Lisboa recordou a figura do beato Federico Ozanam, fundador da Sociedade de São Vicente de Paulo, que, “diante das profundas feridas sociais provocadas pela industrialização, a primeira resposta dos cristãos foi o socorro aos pobres”.

“Era necessário alimentar quem tinha fome, visitar quem estava abandonado, apoiar quem tinha perdido o trabalho, acompanhar quem vivia sem esperança. Mas Ozanam compreendeu rapidamente que a caridade não podia limitar-se aos efeitos visíveis da pobreza. Era necessário interrogar também as suas causas mais profundas”, disse.

D. Rui Valério lembrou que, “ao mesmo tempo que servia os pobres, Ozanam ajudava a lançar os fundamentos daquela reflexão social que mais tarde encontraria expressão sistemática no magistério da Igreja”.

No final da intervenção, o patriarca referiu que o “mundo continua a precisar da Sociedade de São Vicente de Paulo”, do seu testemunho, da sua proximidade aos mais pobres, da sua “capacidade de transformar a caridade em encontro, a solidariedade em fraternidade e a assistência em promoção integral da pessoa humana”.

Concluo desejando os maiores êxitos aos trabalhos desta Assembleia Geral. Que estes dias permitam encontrar caminhos renovados para a defesa da dignidade humana e para a construção de uma sociedade mais justa, mais fraterna e mais humana.”

O responsável católico espera que “em todas as reflexões, decisões e projetos” nunca se perca “de vista aquela que é a fonte, a realização e o horizonte da Sociedade de São Vicente de Paulo: a caridade”.

“A caridade que nasce de Cristo. A caridade que vê em cada pobre um irmão. A caridade que transforma o coração daquele que recebe e também daquele que serve”, concluiu.

LJ/OC

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