Três espaços abriram ao público hoje, com o tema “Exercícios em Empatia: Regressar a Casa”, integrando iniciativa promovida pelo Vaticano em oito cidades e três continentes

Lisboa, 13 out 2026 (Ecclesia) – O Museu Nacional de Arte Contemporânea (MNAC), no Chiado, a Brotéria e a Universidade Católica Portuguesa são os três espaços que acolhem a exposição em Lisboa da ART CUT, a primeira Trienal de Arte das Universidades Católicas, que se abre hoje ao público, com o tema “Exercícios em Empatia: Regressar a Casa”.
A capital portuguesa é a sexta etapa da iniciativa internacional promovida pelo Dicastério para a Cultura e a Educação da Santa Sé, que vai passar por oito cidades, de sete países, de três continentes, reunindo 105 artistas e 14 curadores.
Em declarações à Agência ECCLESIA, esta segunda-feira, Filipa Oliveira, diretora do MNAC, afirmou que o museu centrou-se na ideia da casa “enquanto espaço psicológico”, “de memória”, ao qual às vezes se pode voltar, ou por outro lado não, ou ainda que se demora muito tempo até regressar.
“Temos uma peça sobre casas destruídas na Palestina, ou também aqui atrás, numa lixeira no Rio de Janeiro, nestes despojos da casa”, explicou, referindo-se à obra de Rafa Bqueer.

As imagens, que apresentam a figura de Alice a atravessar terrenos baldios, lixeiras e espaços de precariedade, questionam o significado de regressar quando não existe um lugar seguro para onde voltar.
“A casa é este lugar da intimidade, o lugar onde nós achamos que somos mais nós, mas também é um lugar onde nos relacionamos com o outro, quer o outro seja a nossa família, os nossos amigos, portanto este lugar da grande intimidade e que é quase uma continuidade da nossa pele”, destacou Filipa Oliveira.
A responsável conta que a exposição no MNAC reúne “muitas obras”, de um conjunto 40 artistas nacionais e internacionais, revelando que foi “difícil” fazer a seleção das peças a incluir a mostra.
“Porque é um tema muito próximo de um trabalho contemporâneo sobre a identidade, quando pensamos em identidade pensamos também neste lugar da casa”, justificou.
À entrada do museu, os visitantes são recebidos por “uma grande instalação” do autor Cristián Salineros, um artista do Chile.

“É uma casa parada no tempo, ela está toda embrulhada em fita de pintor e nós podemos deambular por esta casa quase como se fôssemos fantasmas numa casa que não conhecemos, mas que estamos a ver”, indica Filipa Oliveira.
A obra é composta por vários objetos, desde uma mesa posta, uma cama feita com um boneco em cima, roupa estendida, uma bicicleta, um escadote, uma cómoda e até um frigorífico aberto.
“É uma casa que parou no tempo, que não sabemos de quem é e dos quais, nós, enquanto voyeurs, enquanto pessoas estranhas, de repente entramos nessa intimidade, mas que ao mesmo tempo é super familiar, porque aquilo poderia ser também a nossa casa”, complementou.
No segundo espaço da exposição, que se situa no piso superior do MNAC, está, entre várias criações, a obra “Just in Case #2”, que foi desenvolvida em resposta à devastação ocorrida em Gaza nos últimos anos.
“Essa é uma peça do Taysir Batniji, que é um artista palestiniano, e é um conjunto de chaves de palestinianos que já não têm casa para voltar. Eles guardam a chave como possibilidade de um dia voltar a uma casa que não existe já e a chave é este símbolo que ainda é um bocadinho a casa deles, apesar de ela não existir”, refere Filipa Oliveira.
Para o MNAC, “é um orgulho fazer parte” da Trienal ART CUT em Lisboa, porque, por um lado, o coloca em diálogo com a Universidade Católica Portuguesa (UCP) e a Brotéria, e, por outro, trabalha a temática da empatia.
“É um tema que me é muito querido, que tenho refletido muito sobre ele, enquanto diretora do museu, o que é que é isto de ser um museu empático, como é que nós podemos ser mais empáticos uns com os outros. Portanto, o museu é, para mim, um exercício de empatia e fazer parte deste pensamento coletivo é algo que me orgulha muito e que nos deixa muito honrados”, expressou a diretora.
A responsável defende que a arte ajuda a olhar o outro e que a obra de Taysir Batniji é um exemplo disso, confrontando os visitantes com a possibilidade de sentir empatia por pessoas que estão em situações “muito diferentes”, “menos privilegiadas”.
A exposição está disponível no Museu Nacional de Arte Contemporânea até 24 de janeiro de 2027, de terça-feira a domingo, das 10h às 18h, com entrada paga, com descontos aplicáveis, informa a UCP.
Na Brotéria, casa de cultura fundada pelos jesuítas portugueses no Bairro Alto, apresenta-se “A casa como comunidade: o espaço comum”, deslocando a atenção para as formas de convivência, partilha e pertença, que transformam o espaço habitado num lugar coletivo.
Aqui estão expostas, a partir de hoje, duas obras de bronze de Vandarlei Lopes, sendo a “Arena” uma delas.
“É um trabalho instalado diretamente no chão que foi construído para criar essa ideia de que a calçada adentrou o espaço da Brotéria”, refere o autor, sobre a escultura que parte do molde de uma árvore, cujo topo é transformado numa arena vazia.
De acordo com a descrição da obra, o cume evoca a polis enquanto espaço de encontro, disputa e vida coletiva, ao mesmo tempo que o tronco, que irrompe do solo calcetado, coloca em tensão “dois elementos aparentemente opostos: a força irrefreável da natureza e a ordem construída pelo ser humano”.

A outra peça tem o nome “Coração” e é composta por duas botijas de gás que alimentam o fogo que, quando sai de um coração e toca no outro, torna este último “incandescente”, elucida Valdinei.
“Juntos eles criam um campo de calor”, dá conta, acrescentando que os dois corações “estão mais ou menos entre a altura do coração e da boca do público, de quem se aproxima”.
“É um trabalho que acho que surge mais ou menos como um lampejo, como uma ideia, 2007 mais ou menos. Mas é um trabalho que demorou muito para se aprontar, para ser produzido. E acho que em 2013 eu executei”, lembra.
O artista vê como um privilégio a apresentação das suas obras apresentadas na primeira Trienal de Arte das Universidades Católicas.
A Brotéria acolhe a exposição até 14 de novembro, de segunda-feira a sábado, das 10h00 às 18h00, com acesso gratuito.
| Além do MNAC e da casa dos jesuítas no Bairro Alto, também a Galeria Fundação Amélia de Mello da Universidade Católica Portuguesa acolhe a Trienal Art Cut.
Aqui, o projeto aborda “A casa como forma”, enquanto construção material, imaginária e simbólica. A exposição estará patente no piso 1 do edifício da Biblioteca Universitária João Paulo II, de segunda a sexta-feira, das 14h00 às 18h00, até 12 de dezembro, com acesso gratuito. Depois de já ter arrancado no Rio de Janeiro, no Brasil, a 27 de agosto, em Santiago do Chile (Chile, 3 de setembro), Bogotá (Colômbia, 9 de setembro), Boston (EUA, 23 de setembro) e Milão (Itália, 6 de outubro), em Lisboa, a 13 de outubro, a Trienal vai passar ainda por Luanda (Angola, 29 de outubro), e termina em Veneza (Itália). |
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