Fundação Maria de Droste: Acolhimento de raparigas é a «medida de último recurso» e o ponto de partida para um novo projeto de vida

Instituição acolhe 30 crianças e jovens que, através de um «modelo muito participativo», adquirem ferramentas para que possam «sair com uma vida adulta»

Foto: Agência ECCLESIA/HM

Lisboa, 03 jul 2026 (Ecclesia) – A Fundação Maria de Droste, da Congregação de Nossa Senhora da Caridade do Bom Pastor, em Lisboa, acolhe 30 crianças e jovens sinalizadas e com “muito amor, muita fé, muita resiliência” trabalham capacitações e projetos de vida.

“São crianças e jovens sinalizadas. E, por se entender que estão esgotadas todas as medidas possíveis, o acolhimento é a medida de último recurso. O tribunal ou a CPCJ [Comissões de Proteção de Crianças e Jovens] decide que o melhor é ser acolhida numa instituição e, depois, ser elaborado um projeto de vida”, indicou a presidente da direção da Fundação Maria de Droste, em entrevista à Agência ECCLESIA.

Marisa Ferreira trabalha na Fundação Maria de Droste há 20 anos, e explica que este projeto de vida pode passar pelo regresso a casa, “trabalhar competências parentais para que estas raparigas possam voltar”, e quando não há essa possibilidade fazer “um processo de autonomia”, e serem elas a “adquirirem ferramentas para que possam autonomizar-se, e sair com uma vida adulta adequada”.

“Estas miúdas vêm muito esperançadas. Não têm fé absolutamente nenhuma, não é possível fazer outro caminho: ‘Eu estou destinada a ir trabalhar para o McDonald’s, para as limpezas, ou seja o que for. Estou desmotivada, não quero estudar, chego à escola, as miúdas já são muito mais velhas do que eu, não consigo integrar-me’. E, portanto, é tudo mal na vida delas, a primeira tentativa é pôr os outros mal, é agir em espelho”, explicou a presidente da direção sobre algo que está “explicado cientificamente e é muito difícil de contornar”.

A Fundação Maria de Droste investiu “muito, nos últimos 10 anos, em recursos especializados”, em envolver também a ciência “neste trabalho de amor, de colo”, para terem uma “intervenção muito especializada do ponto de vista emocional”, porque são crianças com “traumas muito profundos”, marcadas pela violência, pelos abusos, pela negligência e pelo abandono.

“Se encontrar uma casa onde é possível sonhar, onde tudo é possível, é possível ter as mesmas oportunidades que outros jovens que estão nas suas famílias, eu acho que facilmente elas conseguem acreditar que nós somos pessoas capazes de ajudar. Isto, com poucos recursos, é intenso, tem que haver muito amor, muita fé, muita resiliência, e não desistir.”

Foto: Agência ECCLESIA/HM

Segundo a presidente da direção da fundação, “mais de 50% das raparigas” que estão na Maria Droste têm “processos de promoção e proteção há mais de 9 anos”, o sistema sabia que as raparigas “estavam a viver numa situação vulnerável”, mas só passados esses anos são acolhidas e “é um desafio muito acrescido”, porque chegam com “15, 16, 17 anos, com uma bagagem que é difícil desmontar, onde os adultos, são pessoas que não são de confiança”, não foram cuidadoras, nem lhes oferecem segurança.

Marisa Ferreira explica que “é preciso montar toda uma estrutura, dos recursos humanos às rotinas, à vida em comunidade”, que possa permitir que estas jovens “consigam entregar-se à relação”, e na Fundação Maria Droste acreditam que “é através da relação” que “elas se entregam, conseguem dar a volta e construir um caminho”.

“Nesta casa as decisões são tomadas pelas raparigas, em conjunto com a equipa de educadores, mas nós não fazemos nada sem as consultar, o que cria uma relação muito positiva. Depois, há dez anos estamos a construir um modelo muito participativo, ou seja, não temos nem empregado das limpezas, nem cozinheiro, porque se isto é a casa delas, vamos cozinhar com elas, vamos organizar com elas, pensar até na decoração, tudo é feito com elas e são chamadas a participar em tudo. Isto também é uma estratégia que vai facilitando nesse espírito de pertença e de relação”, indicou a entrevistada, salientando também que, todas as semanas, sentam-se “individualmente com cada uma delas” para falar sobre a sua vida.

O trabalho desenvolvido pela Fundação Maria de Droste vai ser apresentado no Programa 70×7 deste domingo, dia 5 de julho, na RTP2, com emissão prevista para as 07h30.

Foto: Agência ECCLESIA/HM

Aline, que vive num dos dois apartamentos de autonomia, afirma que a sua experiência “é muito diferente de todas as meninas” porque veio de um “centro educativo”, onde “é bem pior, mais regras, mais atividades, mais fechado”, e foi para a pela Fundação Maria de Droste por “querer um novo capítulo na vida”.

“Eu não me sentia ouvida no centro educativo, eles tinham tudo muito determinado, as atividades que tínhamos de fazer eles é que planeavam. Aqui não, eu pude saber onde poderia fazer voluntariado, que atividades é que eu podia fazer depois da escola. Lá não, eles é que escolhem isso tudo”, explicou à Agência ECCLESIA.

A jovem entrevistada destacou o “apoio mesmo valioso” das pessoas da fundação, o que “é bastante importante”, mesmo que tenham “opiniões diferentes”, elas nunca “deixam desistir” do que querem, ou sempre que fazem uma proposta “vão até ao fundo e ajudam”.

“Não estamos ao lado da nossa família, não estamos ao lado dos nossos entes queridos, mas é onde nós vamos crescer, e podemos formar grandes pessoas, podemos conhecer outras pessoas. Então fazer isto da nossa casa torna-o mais fácil.”

Aline, que descobriu, nos últimos anos, que todos têm “problemas e dificuldades”, na casa tem “companheiras” não são amigas, mas sente que “cada menina” tem algo que pode aprender com a outra, porque estão “todas no mesmo barco e na mesma aventura”, acompanham-se muito e “talvez” possam ser amigas quando saírem.

A Fundação Maria de Droste foi criada em 1928 pela Congregação de Nossa Senhora da Caridade do Bom Pastor, já teve escola não só para quem estava institucionalizado, e é gerida por leigos desde 2019; está localizada há 98 anos numa quinta em Carnide, freguesia de Lisboa, atualmente, acolhe “30 crianças e jovens, em três casas em regime residencial”, e têm “mais dois apartamentos, cada um com cinco vagas”, para 10 jovens maiores de 15 anos, “agora a maioria acima dos 18, num processo de transição à vida adulta”.

As irmãs de Nossa Senhora da Caridade do Bom Pastor são cerca de seis dezenas de religiosas em Portugal, e “mantêm uma atividade muito ligada ao percurso de mulheres vulneráveis”, vítimas de violência doméstica, e não só, em Ermesinde, na Diocese do Porto, em Pexiligais, Algueirão-Mem Martins (Sintra), no Patriarcado de Lisboa, e em Ponta da Delgada (Açores), na Diocese de Angra.

A Beata Maria do Divino Coração – Beata Maria Droste -, segundo o que Marisa Ferreira ouviu das religiosas, foi “uma jovem muito destemida” que tinha uma característica “altamente essencial” para este contexto “que é a bondade e a firmeza”, e “escreveu coisas que parecem muito atuais”, como as regras serem dadas com amor, com afeto, com cuidado, com personalização.

HM/CB/PR

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