«São sinal da fragilidade que experimentamos e da destruição que nos rodeia» – D. José Ornelas
Leiria, 19 fev 2026 (Ecclesia) – A Sé de Leiria reabriu as portas ao culto na noite de Quarta-feira de Cinzas, numa celebração presidida por D. José Ornelas, marcada pela memória das vítimas da tempestade Kristin e por um rito inédito que utilizou telhas destruídas pelo temporal.
“(As cinzas da Quaresma) são sinal da fragilidade que experimentamos e da destruição que nos rodeia, quer no vento que nos fustigou, quer nos incêndios que nos visitam no verão. Não são sinal de ameaça nem convite ao desânimo ou à revolta”, afirmou o bispo de Leiria-Fátima na sua homilia.
As cinzas impostas aos fiéis, no início da Quaresma, foram transportadas em fragmentos de telhas do próprio telhado da catedral, que cedeu à força do vento há três semanas.
O rito foi conduzido por jovens universitários do Serviço Pastoral do Ensino Superior (SPES), que seguraram os pedaços de barro nas mãos, unindo a liturgia à realidade de destruição e à urgência de reconstrução vivida na diocese.
Muito do que foi feito nestes dias aconteceu no silêncio: o silêncio de quem coordenou, o silêncio de quem serviu. Vimos rostos marcados pelo esforço, pelo suor que liberta. São essas as cinzas que hoje levamos: não como maldição, mas como sinal do trabalho necessário para construir um mundo melhor.”
Os fiéis acompanharam a imagem de Nossa Senhora da Encarnação, acolhida na Sé diocesana após o santuário que lhe é dedicado ter sofrido graves danos.
“Vem peregrina e sem teto, Ela, Maria, que sabe o que isso significa na realidade, pois também não encontrou lugar quando deu ao mundo o seu Filho”, explicou D. José Ornelas, sublinhando que a imagem entronizada simboliza “todos os que perderam ou viram indisponíveis as suas casas e o seu futuro”.





O presidente da Conferência Episcopal Portuguesa quis enaltecer o “sopro do espírito de solidariedade” que se seguiu à intempérie, agradecendo o esforço de todos, incluindo cidadãos estrangeiros e migrantes que se envolveram profundamente na limpeza da cidade e da região.
A celebração, que contou com a presença de autarcas da região, forças de segurança, proteção civil e voluntários, teve início no Largo do Papa com uma procissão de velas.
“O mundo novo e a reconstrução da nossa região e da nossa diocese, das nossas casas, das nossas instituições e das nossas igrejas não cairão feitos do céu. Serão obra de pessoas com o coração renovado”, sustentou D. José Ornelas, acrescentando que a Sé é hoje sinal de “uma Igreja de pessoas feridas, mas não vencidas, nem esquecidas”.
Segundo informação divulgada online pela página da Diocese de Leiria-Fátima, o pároco da Sé, padre José Augusto Rodrigues, sublinhou igualmente este apelo à renovação, lembrando que a luz do círio pascal convida a “levantar das cinzas, dos escombros e dos destroços” e a “caminhar para uma vida nova”.
A diocese sublinha que a Quaresma que agora tem início será vivida em Leiria-Fátima não apenas como um tempo de conversão interior, mas de reconstrução concreta, contando com o papel contínuo da Cáritas Diocesana e de uma “multidão de voluntários”.
OC
