Sacerdote do Patriarcado de Lisboa orienta XIV Jornadas Bíblicas dos Açores, que se realizam no Faial, Pico e Terceira

Angra do Heroísmo, Açores, 26 fev 2026 (Ecclesia) – O padre David Palatino, do Patriarcado de Lisboa, defendeu esta quarta-feira, no Faial (Açores), nas XIV Jornadas Bíblicas dos Açores, que é tempo de assumir uma vivência mais consciente, fraterna e comprometida da fé.
“Temos de passar de um cristianismo de tradição para um cristianismo de convicção”, afirmou o biblista, enfatizando que uma parte significativa dos portugueses que se dizem católicos “são apenas batizados”, sem que isso se traduza numa prática coerente do ponto de vista ético, moral e comunitário, informa o portal Igreja Açores.
Entre 23 e 27 de fevereiro, a Diocese de Angra realiza as XIV Jornadas Bíblicas dos Açores, sobre a vocação pessoal e eclesial dos batizados, sinodalidade, e discípulos missionários na vida cristã contemporânea, que decorrem no Faial, Pico e Terceira.
A participação do padre David Palatino na iniciativa surgiu do convite do padre Teodoro Medeiros, antigo colega de estudos em Roma e diretor do Serviço Diocesano da palavra e Apostolado Bíblico.
Para o sacerdote, orientador do encontro, experiência tem sido “muito bonita”, quer pelo aprofundamento exigido na preparação, quer pelo contacto com os participantes.
“Cada vez vemos mais gente com sede de aprender, sobretudo tudo aquilo que diz respeito à Sagrada Escritura”, salientou, indicando que as sessões foram marcadas por forte participação e questões “muito pertinentes”, deixando mais desafios do que respostas fechadas.
Sobre o tema das jornadas, o padre David Palatino, tendo a comunidade cristã primitiva como referência, propôs uma mudança de perspetiva: “Mais do que perguntar ‘cristão, que dizes de ti mesmo?’, talvez devêssemos perguntar: ‘o que é que Deus diz de nós?’”.
“O Batismo não é apenas um rito do passado. É a nossa dignidade principal e o que nos identifica. Mas isso tem de ser visível na forma como vivemos a fraternidade”, referiu.
De acordo com o sacerdote, a condição de discípulo não se mede pela quantidade de tarefas realizadas na Igreja, mas pela capacidade de estar com Cristo e de viver em comunhão com os outros.
“Para quem nunca fez uma experiência cristã forte, é a fraternidade vivida que mais interpela”, sublinhou.

O biblista considera que, durante décadas, a Igreja privilegiou excessivamente a dimensão sacramental e hierárquica, tornando-se quase uma “fábrica de sacramentos”.
“Hoje estamos a pagar um bocadinho essa fatura”, reconheceu, defendendo uma Igreja menos centrada na lógica de prestação de serviços religiosos e mais assumida como mistério de comunhão, participativa e corresponsável.
Sobre a crescente procura de outras espiritualidades, muitas vezes por parte de pessoas batizadas, o sacerdote entende que a Igreja precisa de oferecer propostas mais qualificadas.
“Hoje, com tanta diversidade de ofertas, não basta organizar eventos. É preciso qualidade, profundidade e competência”, vincou, apontando como exemplo as experiências de retiro marcadas pelo silêncio, pela oração e pelo contacto profundo com a Palavra de Deus.
“Muitas vezes o Evangelho perdeu sabor porque não apresentamos a sua verdadeira essência. Andamos à volta, mas não entramos no coração”, declarou.
Para o orientador das jornadas, o caminho passa também por um trabalho em equipa mais efetivo, envolvendo sacerdotes e leigos, valorizando dons e carismas e evitando fechamentos em pequenos grupos.
“Precisamos de ser mais arrojados, mais criativos, mais competentes. A sede espiritual não desapareceu do coração humano. Talvez seja tempo de mudar paradigmas”, realçou.
LJ
Bíblia: Jornadas dos Açores refletem sobre a vocação batismal
