Igreja/Sociedade: Ser médica entre «muitas fragilidades sociais» é fazê-lo «ao jeito de Jesus» – Marina Teixeira

Nasceu na Alemanha, cresceu em Leiria, estudou em Coimbra onde conheceu a espiritualidade inaciana no Centro Universitário Manuel da Nóbrega, hoje Marina Teixeira é Médica de Família em Lisboa, na freguesia de Marvila, junto de uma população que «muitas vezes precisa apenas de ser escutada»

Foto: Agência ECCLESIA/MC

Lisboa, 25 fev 2026 (Ecclesia) – Marina Teixeira, especialista em Medicina geral e familiar na freguesia de Marvila, em Lisboa, diz que ser médico ao “jeito de Jesus” significa distinguir quando um paciente necessita de “acompanhamento técnico” ou de se sentir escutado.

“As pessoas notam quando nós lhes estamos a dar atenção. Quando se sentem acolhidas e quando estamos a ouvir. Muitas vezes, principalmente no ambiente em que eu estou, a única coisa que é preciso é ser ali lugar de desabafo e de acolhimento e de consolo. Santo Inácio diz, na quarta semana dos exercícios, que o ofício do ressuscitado é consolar. Eu penso que é este o ponto a apontar. O ofício tem que ser de consolar. E portanto tem que ser em primeiro lugar também de acolher”, conta a médica à Agência ECCLESIA.

Marina Teixeira trabalha, desde 2015, na Unidade Saúde Familiar dos Loios, na freguesia de Marvila, uma área que abrange a “Zona J, Zona I, Zona H”, maioritariamente com população que “cresceu em bairros sociais e habitações camarárias”.

“Há muitas fragilidades sociais. Temos das maiores taxas de rendimentos sociais em inserção do Conselho de Lisboa, uma grande taxa de analfabetismo também, de envelhecimento, de dependências, portanto, são realidades duras para pessoas que também não têm muitas possibilidades, que vivem e cresceram naquela zona”, indica.

A médica manifesta o desejo de que os seus pacientes “não finjam, não se defendam”: “Há vidas muito duras, e há circunstâncias duras, e há atitudes, e há pessoas condenadas, e tudo o que é possível. Mas em primeiro lugar é uma pessoa. O que eu vejo à frente deles em primeiro lugar é uma pessoa”.

“Às vezes, o centro de saúde é o único sítio em que a pessoa pode desabafar. A população tem uma relação muito próxima connosco, isso nota-se. Às vezes vão por nenhum motivo de, apenas por questões pessoais, sociais ou familiares. Cabe-me estar como Jesus estaria”, valoriza.

Foto: Agência ECCLESIA/MC

A opção profissional pela Medicina não foi imediata no percurso de Marina Teixeira, nascida na Alemanha, vinda para Portugal aos sete anos com a sua família, diz que o curso foi “penoso, com os três primeiros anos fora do ambiente hospitalar”.

Ter conhecido espiritualidade inaciana no Centro universitário Manuel da Nóbrega, em Coimbra, onde estudou, mostrou à médica a sua apetência pela relação com os pacientes.

“Eu não queria tratar só de rins, ou de pulmões. Na prática, não é isto que eu quero fazer. A medicina geral e familiar abre muitos horizontes. A organização e eficiência que gosto dão muito jeito, porque me permitem depois, tendo a técnica organizada, estar disponível e aberta para a relação”, traduz.

No final de um dia de trabalho, que pode chegar ao atendimento de mais de 20 pacientes, Marina Teixeira reconhece a necessidade de “fazer a síntese do dia”.

“Torna-se necessário rezar a vida e integrar o que vivi. Faz-me sentido fazê-lo de uma forma cristã, ao jeito de Jesus e segundo a espiritualidade inaciana, nas Comunidades de Vida Cristã”, explica.

Mais do que uma associação, explica Marina Teixeira, a CVX é um movimento, “entendido como uma vocação” na Igreja, que se traduz em pequenos grupos de oração e partilha.

“A partilha espiritual inaciana, incarnada no mundo, implica estar no mundo e, a partir daí, trabalhar para a construção do reino e para a salvação. E aquele espaço de partilha, em que ninguém te interrompe e apenas se acolhe, se escuta e se percebe a relação com Deus. Precisamos uns dos outros e o que o outro partilha, vai ajudar-me a crescer”, explica.

A conversa com Marina Teixeira pode ser escutada esta noite no programa ECCLESIA, emitido na Antena 1, pouco depois da meia-noite, e disponibilizado no podcast «Alarga a tua tenda».

LS

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