D. Renzo Pegoraro sublinha necessidade de «reflexões antropológicas e éticas cada vez mais cuidadosas»

Fátima, 15 jun 2026 (Ecclesia) – O presidente da Academia Pontifícia para a Vida (APV) apelou hoje, em Fátima, para a “opacidade” generalizada dos sistemas de inteligência artificial (IA).
“Não se sabe bem como é que a máquina chega a determinada conclusões. Por motivos de segurança, porque protegem e escondem o sistema, e por problemas de patentes, porque são sistemas muito claros”, declarou D. Renzo Pegoraro, na abertura das Jornadas Pastorais promovidas pela Conferência Episcopal Portuguesa.
“Entre uma máquina e um ser humano, apenas este último é verdadeiramente um agente moral”, acrescentou.
O especialista defendeu que a aceleração no desenvolvimento dessas tecnologias exige “reflexões antropológicas e éticas cada vez mais cuidadosas, colocando o ser humano no centro de tudo, reconhecendo princípios morais fundamentais e estabelecendo normas jurídicas adequadas”.
“A ética deve acompanhar todo o ciclo de conceção e produção da tecnologia, desde que escolhemos os projetos em que investir”, acrescentou.
O responsável da Santa Sé defendeu que a IA “não é inteligente, mas é sofisticada a executar tarefas”, precisando que “o algoritmo não decide, mas faz correlações”.
O presidente da APV lamentou a falta de um “debate político” sobre uma das grandes transformações da humanidade, evocando o ensinamento de Leão XIV para destacar que a IA “não é moralmente neutra”.
“É importante saber qual é a inspiração ética para governar a IA”, assinalou D. Renzo Pegoraro.
A intervenção evocou os compromissos assumidos no Apelo de Roma para a Ética da IA, que uniu o Vaticano e grandes empresas do setor, reiterando a exigência urgente de criar programas digitais caracterizados pela transparência, inclusão, imparcialidade e segurança.

O colaborador do Papa mostrou-se defensor de um modelo à imagem do VAR, no futebol, “onde primeiro está o humano, depois a máquina e, no fim, de novo o humano”.
Questionado sobre o impacto da IA no mundo do trabalho, D. Renzo Pegoraro rejeitou um “pessimismo de resignação”, pedindo “criatividade” para superar os desafios.
“A Igreja tem algo a dizer sobre a dignidade da pessoa e do trabalho”, acrescentou, propondo que a IA “seja orientada para o bem comum”.
A reflexão alertou para um “reducionismo digital” promovido pelo rápido avanço da digitalização.
O conferencista falou ainda do recurso a ajudas tecnológicas para homilias ou catequeses, admitindo que a IA “pode ser útil”, desde que esteja ligada à realidade dos destinatários.
“Pode ajudar, mas não substituir, e isso é um problema crescente”, prosseguiu.
As Jornadas Pastorais do Episcopado, que decorrem até terça-feira no Centro Pastoral Paulo VI, sob o tema ‘Anúncio da Fé na Nova Revolução Tecnológica (IA) e na Nova Cultura’.
O programa de trabalhos, com mais de uma centena de participantes, prossegue com o debate sobre estratégias de comunicação e a análise dos desafios teológicos levantados pela encíclica ‘Magnifica Humanitas’, do Papa Leão XIV.
OC
