Cardeal prossegue ciclo de conversas dedicado às figuras femininas destacadas pelo Sínodo dos Bispos
Lisboa, 28 jul 2026 (Ecclesia) – O cardeal D. Manuel Clemente destacou a vida e obra da norte-americana Dorothy Day como uma figura “muito marcante, quase explosiva”, num percurso profundamente enraizado na ação social católica do século XX.
“Não é que ela alguma vez lançasse uma bomba, estou a dizer no sentido de expressão pública”, clarificou o especialista em história da Igreja, recordando que a ativista cresceu num meio de classe média com “nenhuma” prática religiosa, dedicando a sua inteligência e talento jornalístico a causas como o sufrágio feminino e os direitos dos trabalhadores.
No ciclo de conversas ‘Mulheres na Igreja’, que o programa ECCLESIA (RTP2) vem dedicando às figuras femininas destacadas pela mais recente assembleia do Sínodo dos Bispos (2021-2024), o patriarca emérito de Lisboa lembrou a juventude “bastante tumultuosa” e revolucionária de alguém que inicialmente militou nos meios comunistas e anarquistas.
Dorothy Day (1897-1980) tornou-se sufragista, escritora social e política e, mais tarde, uma conhecida ativista católica.
A aproximação ao catolicismo, relatou D. Manuel Clemente, deu-se por razões sociológicas: “Ela vai fazer isso porque o catolicismo era a religião dos pobres.”
“Os católicos na América, no princípio do século XX, são geralmente a imigração pobre que tinha chegado da Europa”, acrescenta o especialista.
Esta identificação com os mais marginalizados conduziu a um encontro que moldaria o resto da sua vida: a parceria com Peter Maurin.
“Pobres com pobres e para pobres”, sublinhou o cardeal português, ao descrever a filosofia adotada por ambos, que impulsionou o lançamento do jornal ‘Catholic Worker’ em 1933, em pleno auge do desemprego e da fome provocados pela Grande Depressão.
O jornal, vendido ao preço simbólico de um cêntimo, conheceu uma “expansão enorme” e tornou-se um veículo fundamental para a difusão do “pensamento social cristão”.
O compromisso de Dorothy Day com a doutrina católica traduziu-se ainda na criação de comunidades de acolhimento, ‘houses of hospitality’, desenhadas com o intuito de “criar um mundo onde as pessoas mais facilmente se tornassem santas”.
“Ela mesmo no fim, quando vai falecer, muito tempo depois, vai viver também numa casa com outras pessoas, sempre com muita pobreza, com muita simplicidade”, lembrou D. Manuel Clemente, frisando que a ativista conciliava uma “militância ativa, prática, combativa” com uma piedade profunda e diária, nutrida pela liturgia das horas e pela Eucaristia.
O patriarca emérito destacou também a militância de Dorothy Day a favor do pacifismo e da objeção de consciência perante a II Guerra Mundial e a ameaça nuclear.
Esta postura, recordou o convidado do Programa ECCLESIA, emitido hoje, trouxe-lhe “amargos de boca e algumas vezes a prisão”, mas isso não impediu a ativista de viajar até Roma na década de 1960.
Durante os trabalhos do Concílio Vaticano II, Dorothy Day organizou ações de oração e jejum em apoio ao documento pastoral ‘Gaudium et Spes’ e na defesa de que o financiamento bélico deveria ser aplicado no desenvolvimento humano.
“Dorothy Day é uma figura muito marcante”, concluiu D. Manuel Clemente.
Em novembro de 2025, Leão XIV presidiu hoje a uma audiência jubilar, na Praça de São Pedro, na qual lembrou que Dorothy Day denunciou os modelos de desenvolvimento no seu país que não criavam “as mesmas oportunidades para todos”.
Em 2023, Francisco escreveu o prefácio do livro autobiográfico de Dorothy Day ‘Encontrei Deus através de seus pobres. Do ateísmo à fé: o meu caminho interior’, da Livraria Editora do Vaticano.
PR/OC
História/Sínodo: D. Manuel Clemente apresenta o perfil de «mulheres determinantes na vida da Igreja»
