Cultura: Nova obra do historiador José Eduardo Franco evoca alertas do padre António Vieira sobre a inveja e «imobilismo» em Portugal

Especialista sublinha proposta de «utopia inclusivista» do jesuíta do século XVII

Lisboa, 07 set 2026 (Ecclesia) – O historiador José Eduardo Franco afirmou que a inveja se mantém como um bloqueio ao progresso nacional, recuperando o diagnóstico do padre António Vieira (1608-1697).

“O padre António Vieira faz um conjunto de diagnósticos sobre as sombras portuguesas, sobre os vícios atávicos de Portugal, os maus dos portugueses que impediam e que se tornavam um obstáculo ao progresso do país e, de algum modo, ele experimentou muitos desses vícios na sua pele”, referiu o autor do livro ‘A inveja é o vício de Portugal’, em entrevista ao Programa Ecclesia, transmitida hoje na RTP2.

O investigador explicou que o padre António Vieira considerava que “quem tenta luzir na terra da luz é logo abafado pelas sombras da inveja”, alertando para uma atitude derrotista sempre que “alguém tenta fazer obra grande”.

“Quando escrevi este livro, a partir de Vieira, foi também para tentarmos, com as palavras dele, ganhar lucidez para cumprir o nosso presente e discernir os nossos grandes problemas, que ainda se mantêm como uma espécie de tiques de mentalidade”, prosseguiu.

O entrevistado clarificou a necessidade de distinguir a “inveja má”, que visa “abater essa pessoa e impedir que ela progrida”, da “inveja boa”, em que o indivíduo toma “o outro como modelo” para fazer igual “ou até melhor do que ele, mas sem “combatê-lo”.

“Se nós conseguíssemos dar esse volte-face e tornar a inveja má numa inveja boa, a inveja poderia ser um grande motor de progresso”, sustentou José Eduardo Franco.

A reflexão do padre António Vieira, aprofundada durante a sua estadia em Roma entre 1669 e 1675, resultou da oposição aos seus “projetos para reformar o país”, que incluíam “a reforma da Inquisição”, o “fim da distinção entre cristãos velhos e cristãos-novos” e “a liberdade dos índios no Brasil”.

Estas ideias depararam-se com o “imobilismo” dos “setores inquisitoriais e de outros setores que criam um Portugal à maneira tradicional”.

José Eduardo Franco sustentou que a leitura dos textos do padre António Vieira ajuda a “iluminar a compreensão do presente”, encontrando paralelismos atuais nas críticas à burocracia governamental, descrita pelo pregador como “o flagelo dos papéis”, e na defesa de que “os cargos devem ser os que fazem função do mérito e não a função do interesse”.

O historiador abordou igualmente a utopia do Quinto Império, descrita como uma proposta de “cidadania global, onde possamos considerar todos os povos como irmãos dignos de ser amados, respeitados e integrados”.

José Eduardo Franco classificou o padre António Vieira como “um dos primeiros utopistas que constrói uma utopia inclusivista”, distanciando-se dos laboratórios “exclusivistas” de Tomás Moro ou de Tomás Campanella.

A atualidade do pensamento do jesuíta foi atestada na homenagem promovida pela Assembleia da República em 1997, nos 300 anos da morte do religioso, onde “todos os partidos, desde o PCP ao CDS” proferiram discursos a exaltar a sua figura, que são agora recuperados na obra.

O livro tem prefácio do historiador Rui Tavares, que o apresenta como “um caminho interior sobre a melhor maneira de ser português”.

PR/OC

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