Igreja/Portugal: Especialistas sublinham marca do pensamento social cristão na Constituição

«Direitos fundamentais servem a pessoa e a dignidade da pessoa humana» – Inês Quadros

Lisboa, 30 mar 2026 (Ecclesia) – A Constituição da República Portuguesa reflete princípios da Doutrina Social da Igreja na defesa da dignidade humana, referem especialistas em Direito, a respeito dos 50 anos do documento.

“Há uma marca evidente, na nossa Constituição que tem a ver com esta marca do personalismo, ou seja, com a assunção de que, apesar de tudo e antes de tudo, os direitos fundamentais servem a pessoa e a dignidade da pessoa humana, que é mesmo a trave-mestra de toda a Constituição”, refere à Agência ECCLESIA a presidente da Associação de Juristas Católicos, Inês Quadros.

A professora da Faculdade de Direito da Universidade Católica Portuguesa destacou a centralidade do bem comum no texto de 1976.

Foto Miguel A. Lopes/Lusa, exemplar original da Constituição da República Portuguesa de 1976, exposto no dia da sessão solene comemorativa do 50º aniversário da Constituição da República Portuguesa, na Assembleia da República, em Lisboa, 02 de abril de 2026.

“A procura do bem comum e a subordinação do poder político e económico ao serviço do desenvolvimento integral do ser humano são marcas que atravessam o diploma e que possuem uma raiz cristã inegável”, acrescentou.

Em entrevista ao Programa ECCLESIA, emitido hoje na RTP2, a investigadora Sílvia Mangerona, do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa, corroborou esta perspetiva ao identificar a inviolabilidade da vida na lei suprema nacional.

“A Constituição tem vários momentos em que reflete a Doutrina Social da Igreja, desde logo ao colocar a dignidade da pessoa humana como elemento fundante da própria República e depois no elenco dos direitos fundamentais, começando logo pelo direito à vida, afirmando que a vida humana é inviolável”, assinalou a docente universitária.

Sílvia Mangerona realçou igualmente a forte consagração dos direitos sociais no ordenamento jurídico português.

A nossa Constituição exige uma solidariedade estrutural, obrigando a que o Estado promova ativamente a igualdade de oportunidades e a proteção da família, uma abordagem que espelha claramente o pensamento social católico.”

José Maria Cortes, docente da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, perspetivou caminhos de futuro, sugerindo uma maior centralidade legal para a proteção das populações vulneráveis.

“Poderia estar feita uma referência mais explícita no fundo, não apenas à necessidade de prestação do Estado, mas à necessidade de pôr a pessoa na sua vulnerabilidade e àqueles mais frágeis no centro da reflexão e da atividade também”, recomendou.

O especialista defendeu a aplicação prática do princípio da subsidiariedade para garantir um maior envolvimento da sociedade civil na resolução dos problemas comunitários.

“A valorização da Doutrina Social da Igreja impõe a missão de repensar a intervenção do Estado, prestigiando as instituições intermédias e assegurando que o poder central respeita as competências das comunidades locais”, indica, no âmbito da celebração do meio século da aprovação da Constituição da República Portuguesa.

O livro ‘Pensar a Constituição à Luz da Doutrina Social da Igreja’ foi apresentado a 18 de março, na livraria da Universidade Católica Editora, em Lisboa, numa sessão promovida pela Associação de Juristas Católicos,

PR/OC

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