Professor da Universidade de Coimbra falou na abertura da Escola Diocesana de Formação da Diocese de Angra

Angra do Heroísmo, Açores, 19 set 2026 (Ecclesia) – Frederico Lourenço apresentou, hoje, na abertura da Escola Diocesana de Formação da Diocese de Angra, São Paulo como uma figura cuja mensagem ultrapassa a leitura literal, destacando o amor – ágape – como chave para compreender a sua teologia e a vocação cristã para a comunhão
O professor catedrático da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e tradutor da Bíblia, Frederico Lourenço construiu a sua lição de sapiência sobre “São Paulo, Apóstolo e poeta” e chamou a atenção para algumas das passagens das cartas paulinas que, interpretadas literalmente nos dias de hoje, levantam questões particularmente difíceis, nomeadamente no que respeita ao lugar das mulheres, à escravidão, à homossexualidade e até às posições políticas que podem ser construídas a partir de determinados textos.
A questão, sublinhou, não é simplesmente saber se Paulo pode ou não ser seguido literalmente, mas “perceber como interpretar uma palavra escrita num determinado contexto histórico sem a transformar numa norma absoluta para todos os tempos, como alguns sectores podem ter a tentação de fazer”.
A leitura de Paulo torna-se particularmente “complexa quando confrontada com questões contemporâneas”.
Frederico Lourenço referiu, entre outros exemplos, a utilização de determinadas passagens paulinas para sustentar a exclusão das mulheres de lugares de serviço e de ministérios na Igreja.
Também no que respeita à homossexualidade, recordou que determinadas interpretações de Paulo estiveram historicamente associadas a posições de condenação, incluindo a defesa da pena de morte para pessoas homossexuais.
O problema, porém, não se limita a estas questões.
Uma leitura literal de Paulo pode igualmente ser mobilizada em debates políticos contemporâneos.
Frederico Lourenço apontou para a realidade dos Estados Unidos como exemplo do risco de transportar diretamente para o presente formulações e categorias de um autor situado num contexto histórico radicalmente diferente.
Mas esta leitura, disse, não pode fazer esquecer o outro Paulo, aquele que, para o catedrático de Cultura clássica, introduziu uma ideia profundamente revolucionária no cristianismo nascente.
“Todos nós que professamos Jesus somos um em Cristo”, é a ideia que atravessa essa visão paulina. Os seres humanos, vistos por Deus, não se repartem por categorias: são todos filhos de Deus e, por isso, irmãos.
“A fé e a esperança não aparecem desligadas do amor. É o amor que permite compreender a relação entre os membros da comunidade e a própria finalidade da vida cristã”, disse Frederico Lourenço.
A Escola Diocesana de Formação, cujo arranque aconteceu hoje em Angra, na presença de alunos, professores e representantes dos movimentos de apostolado e sociedade civil, pretende ser um espaço de acolhimento para não crentes, de escuta ecuménica e de encontro com outras tradições religiosas, oferecida no âmbito do Seminário Episcopal de Angra.
A EDF parte com 130 alunos de diversas ilhas e permitira a frequência de 24 disciplinas da Filosofia, à Teologia, da Comunicação à Psicologia, da História aos documentos do Magistério, passando por disciplinas mais específicas sobre a Doutrina Social da Igreja, a Pastoral Catequética ou o Direito Canónico.
LFS
