Homilia do bispo de Setúbal na Vigília Pascal

Foto: Ricardo Perna/iocese de Setúbal

Queridos irmãos e irmãs,

Eis que chegamos à Grande Vigília, a “mãe de todas as vigílias”. Aquela que imprime em cada um dos nossos corações, uma nova identidade – somos de Cristo.

Nascido Jesus em Belém, feito homem entre os judeus, Messias em Jerusalém.

Precisamos de recordar a vida de Jesus, desde a sua conceção, para vislumbrarmos o que se terá passado naquela Páscoa que hoje celebramos. E que se celebra em todas as línguas, por todo o mundo, em diferentes fusos horários.

Maria, Jesus e José na noite fria de Belém. Os pastores e os reis. A fuga para o Egipto. A matança dos inocentes. A vida discreta em Nazaré. O anúncio de João Baptista. O baptismo de Jesus e o Espírito de Deus. O deserto. As primeiras pregações. Os primeiros discípulos. As multidões, os milagres, as parábolas. As amizades, a paciência, a caridade, a partilha dos dias e das noites, de terra em terra. As Bem-aventuranças. O choque com a Lei.

E chegada a hora… A entrada em Jerusalém, diríamos agora, a entrada triunfal em Jerusalém e a partir desse dia, tudo aconteceu como sabemos, como escutamos e celebramos ontem, anteontem, no domingo de Ramos…

Da alegria e da confiança, aqueles homens e aquelas mulheres, passaram à tristeza e à desolação. A luminosidade dos dias, transformou-se em trevas.

Entendemos agora, passando as páginas dos Evangelhos, como terá sido extraordinário perceber que o túmulo estava vazio.

E como não há Vigília que chegue para dizer ao mundo, como podemos e devemos ser gente feliz, por termos Jesus connosco.

Por isso iniciamos a nossa celebração às escuras, para depois enchermos de luz as nossas igrejas; por isso, lemos as leituras que nos trazem do Antigo para o Novo Testamento. Por isso cantamos a Ladainha dos Santos, trazendo à memória de todos, os Santos e Santas de Deus. Por isso acendemos o Círio Novo, baptizamos os catecúmenos e renovamos as nossas promessas do Batismo. Por isso consagramos o pão e o vinho, e dizemos Amén quando comungamos.

A Vigília Pascal celebra o passado, o presente e o futuro do povo de Deus. Traz consigo a história, coloca-nos nesta noite, neste dia e “escancara as portas a Cristo” como dizia o querido e saudoso Papa João Paulo II, quando pedia aos jovens que não tivessem medo do que Deus lhes viesse a pedir…

A finitude do homem cruza-se nesta noite com a certeza da eternidade, porque nos confirma na certeza de que Jesus já venceu a morte. E fê-lo para nos salvar.

Volto à mensagem do papa Leão XIV para o Dia Mundial da Paz: “Quem venceu a morte e derrubou as barreiras que separavam os seres humanos (cf. Ef 2, 14) foi o Bom Pastor que dá a vida pelo rebanho e tem muitas ovelhas que estão fora do seu redil (cf. Jo 10, 11.16): Cristo, nossa paz. A sua presença, o seu dom e a sua vitória reverberam na perseverança de muitas testemunhas, por meio das quais a obra de Deus continua no mundo, tornando-se ainda mais percetível e luminosa na escuridão dos tempos.”

Julgo que todos concordarão comigo, quando digo que as imagens da guerra que se vive na Ucrânia, na faixa de Gaza, no Médio Oriente, em África, nas nossas estradas (as autoridades GNR e PSP partilham que a operação Páscoa já ultrapassou a dezena de mortos), são o sinal visível da tristeza, da desolação, das trevas,

O que temos para dizer, enquanto cristãos, sobre este presente que testemunhamos? Rezamos pela paz? Diariamente, com fé e com esperança, certos de que Deus responde?

E as imagens que nos chegam bem mais perto, no conforto da paz em que vivemos, sobre as vidas dos migrantes, a violência nas escolas e em tantos lares? Diz-nos o Relatório Anual de Segurança Interna que tivemos em 2025, 578 violações, 11 por semana. Deve-nos chocar. Como reagimos? O que fazemos para trazer a paz à vida de quem vive ao nosso lado?

Quero dizer-vos esta noite, que a teologia não é apenas o que se ensina e aprende nos bancos das faculdades, nem a que se revela aos grandes doutores da lei; a teologia revela-nos a existência de Deus, no conhecimento que temos da humanidade que nos cerca. No concreto das suas vidas, na forma como lidam com a natureza, na capacidade de amar e ser amado, no desejo de cuidar do outro.

Digo-vos isto porque a Grande Vigília é toda ela um livro de teologia aberto, que nos leva desde a criação do mundo até ao mistério da Ressurreição do Filho de Deus. Um livro de teologia aberto, que nos anuncia a Luz de Cristo, que nos pede um compromisso, que nos revela a Verdade da Fé.

Mas se não formos capazes de passar da teoria à prática, se não formos capazes de nos deixarmos moldar pelo Espírito, se amanhã voltarmos à rotina das festas, sem qualquer inquietação ou sobressalto face ao sofrimento do mundo, algo nos escapou nesta Páscoa.

Por isso vos peço que, ao voltarem para vossas casas, permaneçam inquietos com tantas interrogações que escutaram. Porque só desta inquietação, virá a capacidade de conseguir ir mais longe. Na forma como enfrentamos a vida, na forma como estamos atentos ao próximo, no testemunho que damos em casa, no trabalho, na rua, com os vizinhos, com quem nos pede uma esmola, com quem sofre.

Escolhemos livremente seguir Jesus. Não, como os primeiros discípulos que partiam sem nada, não como os missionários que continuam a partir para o desconhecido. Seguimos Jesus sem perseguições, sem ter de cumprir um sem fim de regras. Seguimos livres. Que esta liberdade seja motivo de maior júbilo, de maior compromisso, de maior vontade de evangelizar. E são tantos, mas tantos com sede de Deus.

Ide e anunciai a todos os povos que o Filho de Deus venceu a morte, Ressuscitou, está Vivo!

Cardeal D. Américo Aguiar
Bispo de Setúbal

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