
1. Estimados Padres, consagrados, queridos amigos e amigas, minhas irmãs e meus irmãos: estamos diante do grande mistério da Páscoa. Os discípulos ainda não tinham compreendido que Jesus haveria de ressuscitar ao terceiro dia, e também nós sentimos dificuldade em compreender este mistério. Não o entendemos facilmente.
Convido-vos a contemplar esta cena como quem observa à distância, num lugar discreto — talvez sobre um penedo, junto de uma árvore — sem ser notado, apenas a observar a cena.
Surge então Maria Madalena, uma mulher que ama verdadeiramente Jesus, no sentido pleno do amor de um crente em Deus. Não se trata apenas de amizade. O Papa Bento XVI, de saudosa memória, descreveu esta relação através de três expressões: philos, eros e ágape.
Philos é a amizade, o amor humano que se expressa na filantropia — ser amigo da pessoa, da sabedoria e da humanidade. Não temos apenas conhecidos; temos amigos com quem partilhamos a vida, conversamos, confiamos e construímos relações marcadas pelo compromisso e pela confidencialidade.
Eros é o amor entre homem e mulher, o amor dos esposos, onde se integra a dimensão conjugal, carnal e sexual. É um amor exclusivo, fiel e indissolúvel, aberto à vida, na união que dá origem a um novo ser humano.
Ágape é o amor que se doa total e gratuitamente. É por exemplo, o amor de uma mãe ou de um pai por um filho: um amor que se entrega, se sacrifica, trabalha, cuida e faz da própria vida um dom para o outro.
O amor de Jesus é amor ágape. Maria Madalena, por sua vez, participava desse amor ágape: não era simplesmente heroísmo nem filosofia, mas um amor pleno, verdadeiro, capaz de sacrificar-se pelo outro; amor— adoração.
2. Maria Madalena corre para o túmulo, cheia de esperança e saudade de seu Senhor, pois Ele deixava em seu coração uma profunda nostalgia. Corre ao amanhecer, quando o céu da aurora se tinge de tons crepusculares, e o orvalho ainda cobre a terra. Ao chegar, depara-se com algo surpreendente: a enorme pedra que selava o túmulo foi removida. Quem poderia tê-la movido? Ao entrar, encontra apenas um túmulo vazio — um sinal, um mistério que convida à interrogação. Ela corre, então, a chamar os dois grandes amigos de Jesus, Pedro e João. João, jovem e ágil, vinha à frente; Pedro, mais velho, seguia um pouco atrás. João prossegue, aguardando, porém, que Pedro chegasse, e Pedro entra primeiro no túmulo. Aqui se revelam três olhares distintos.
O olhar de Maria Madalena é impressionante: ela é uma crente verdadeira, no sentido pleno do amor a Deus. Não amava Jesus apenas como amigo; amava- O como seu Deus e Senhor, seu Salvador e Messias. No entanto, não tinha compreendido o que estava a acontecer. Ao lado de João e Pedro, disse: “Levaram o Senhor e não sabemos onde O puseram.” Ela ainda não vislumbrava a possibilidade da Ressurreição.
A situação foge à normalidade, pois a ressurreição de um morto surge, aos olhos humanos, ou um milagre ou uma loucura. Quem imaginaria que o morto poderia ressuscitar? Para Maria Madalena, tudo parecia acabado. A lança que perfurou o seu coração, cumpriu o seu papel: havia uma certidão de óbito.
Tinha ocorrido recentemente o milagre de Lázaro, mas ainda assim a realidade da ressurreição ultrapassava sua compreensão, porque ela acreditava que Jesus era Deus, mas agora, Ele já não estava presente entre os vivos; tinha morrido. Deus, que se fez Emmanuel — Deus connosco —, parecia ausente. E Maria Madalena ainda não conseguia perceber o mistério da presença de Deus no silêncio da vida.
Pedro, curioso e mais adulto, observa atentamente. Naquela época, um homem de 40 anos já era considerado velho, pois a expetativa média de vida não chegava aos 30 anos, e muitas crianças não chegavam à adolescência. Com atenção cuidadosa, Pedro examina o túmulo e interroga-se legitimamente: “Será que o roubaram? Ele dizia que ao terceiro dia ressuscitaria… ressuscitou?” Contudo, nenhuma resposta parece satisfazê-lo plenamente.
João, mais jovem e inexperiente, percebe algo diferente. Há uma premonição subtil, quase impercetível, uma luz que guia o seu coração, e o faz ver o modo como estavam dispostos os panos e as ligaduras, com o estilo próprio e cuidadoso de Jesus. Todos nós deixamos sinais do nosso modo de fazer as coisas. João reconheceu o estilo de Jesus nos detalhes e, isso, ajudou-o a acreditar.
O Papa Francisco, na Páscoa de 2023, destacou três verbos essenciais neste Evangelho: entrar, observar e acreditar. São gestos fundamentais para a vida de fé. Entrar significa penetrar no mistério; observar, enxergar com atenção e clareza; e acreditar, como João, confiar plenamente na luz interior da fé que nos ilumina e revela o verdadeiro sentido de todas as coisas.
Essa dinâmica não se restringe ao relato bíblico: é um convite para a nossa própria vida. Baseados na homilia do Papa Leão XIV, proferida, nesta noite durante a Vigília Pascal, Jesus age com discrição. Não é ruidoso nem impositivo. Respeita a nossa liberdade, permitindo-nos responder com um sim ou um não. Deixa sempre espaço não apenas para nossa liberdade, mas também para o nosso mérito, para que possamos decidir e escolher de forma consciente e responsável a nossa opção pela fé e pela confiança no mistério de Deus.
A Ressurreição de Jesus aconteceu quando Ele se encontrava na solidão do túmulo, no silêncio da madrugada. Numa cena impressionante, sem trombetas, sem gestos imperiais ou protagonismos exibicionistas, Ele levantou-se da morte, simplesmente como quem desperta de um sono profundo.
Na nossa vida quotidiana, e na simplicidade dos acontecimentos, repete-se algo semelhante? Nós vemos ou não vemos Jesus? Encontramos na simplicidade da sua presença ou não percebemos os sinais que Ele nos deixa? Muitas vezes, são coisas pequenas, quase insignificantes, e o nosso coração reage: “Foi, Senhor?” É neste movimento, que a luz da fé podemos perceber a Providência, o modo como Deus se manifesta na nossa vida.
3. Às vezes, parece que Deus nos pede algo de difícil: “Estás-me a preparar, Senhor, para a eternidade? Estás-me a purificar? Estás-me a conceder o tempo do purgatório na Terra? Estás-me a preparar para o Céu?” Ser aberto a esse processo envolve a possibilidade da fé. Deus continua a estar comigo quando permite a purificação dos meus pecados. Ele é Pai quando permanece comigo na minha cruz.
O que é a Ressurreição? Importa aprofundar a nossa fé também em termos racionais, porque ela envolve mente, coração e emoção. Lázaro, o filho da viúva de Naim, e a filha de Jairo, viveram uma ressuscitação. Mas o que é a ressuscitação? É o restabelecimento das funções vitais: o coração volta a bater, os pulmões a funcionar, a circulação, o cérebro e todo o organismo retomam a sua atividade. A pessoa volta a viver fisiologicamente, atravessa novamente o tempo, limita-se ao espaço próprio e acaba por morrer biologicamente, para o tempo e o espaço, num determinado momento. Trata-se, portanto, de um prolongamento da vida na história.
A Ressurreição, porém, é outra realidade. Lázaro, o filho da viúva de Naim, e a filha de Jairo não permanecem vivos indefinidamente: retomaram a vida, mas morreram novamente. A Ressurreição assume uma dimensão absolutamente diferente. Não pode ser explicada pela ciência, pela biologia, pela medicina ou por qualquer laboratório. No Credo, professamos a fé na vida visível e invisível, o que significa reconhecer a existência de uma dimensão que ultrapassa os limites da observação humana: o invisível, a vida em Deus, da dimensão meta-histórica da existência, na qual não existem os limites do espaço que delimita, nem a ilusão do tempo que desgasta, marca e envelhece.
Trata-se de uma vida diferente, como dissemos, não envelhece nem se desgasta, que não está limitada a um único lugar e que se manifesta de modo livre, ultrapassando as barreiras do espaço e do tempo. É essa a realidade imortal da Ressurreição, distinta da simples ressuscitação.
A vida eterna, consiste na participação desta Ressurreição. Todavia, há uma relação transformadora entre a vida consumada na história e a realidade meta-histórica: tal como os grãos de trigo que, transformados em farinha e depois em pão, permanecem trigo, embora numa nova forma; ou como as uvas que, transformadas em vinho, deixam de ser uvas no seu estado inicial, assim também a existência humana se transforma. Na Ressurreição, tudo o que foi vivido — dor, sacrifício, esforço e amor — permanece, mas transfigurado numa realidade nova e plena.
Na Ciência Teológica, a Escatologia pretende estudar, à luz da fé cristã, as realidades últimas do ser humano. Alguns teólogos defendem que a ressurreição ocorre imediatamente após a morte, outros situam-na no fim dos tempos, na parúsia, na última vinda de Cristo, no juízo final operado por Deus. Em ambos os casos, não se trata da ressuscitação dos corpos fisiológicos, mas da Ressurreição de corpos gloriosos.
Assim, a vida eterna é consequência desta vida. Existe uma consequência profunda entre a vida presente e a vida futura, sendo necessário que o pecado seja purificado e o amor cultivado. A outra vida não é um simples regresso ao estado atual, mas uma realidade nova, fruto do poder de Deus, que abrange todo o nosso ser: corpo, alma e espírito. A consciência — essa capacidade de sair de si, olhar para si e julgar-se — revela a profundidade da alma, que permanece sendo a própria identidade da pessoa.
Segundo a Doutrina da Igreja, após a morte, a alma dirige-se a Deus, é julgada, purificada e encaminhada para a comunhão plena com Ele ou para o afastamento da sua presença. No fim dos tempos, acontecerá a Ressurreição final e a glória plena de Deus.
Desta Igreja de Santa Helena do Monte Calvário, onde se vive na nossa cidade, a Adoração Perpétua do Santíssimo Sacramento da Eucaristia, devemos ressaltar a importância da oração e da disponibilidade da vida interior com Deus. A Eucaristia, para nós cristãos, é o pleno cumprimento da promessa de Cristo: “estarei sempre convosco até ao fim dos tempos.” Quando aqui rezamos, trazemos connosco o mundo inteiro. A nossa oração torna-se um dom de partilha com todos os sofrimentos humanos, e o louvor e agradecimento por todas as bênçãos e graças concebidas pelo Senhor aos que D’Ele necessitaram.
Que a nossa vida seja assumida na paz e em partilha com todos. Desta Igreja de Santa Helena do Monte Calvário, brota um convite e um apelo: a perseverança na oração e a persistência na caridade, a caridade solidária, fraterna e compassiva, para com todos sem exceção!
Que a fé se fortaleça e permita reconhecer a presença de Deus na simplicidade do nosso quotidiano! Na palavra obrigado a Deus e aos homens está a semente de Paz, de onde floresce a humanização e a fraternidade.
Santa, fecunda e Feliz Páscoa para todos.
Igreja de Santa Helena do Monte Calvário, 5 de abril
+ Francisco José Senra Coelho
Arcebispo de Évora
