Homilia do bispo de Portalegre-Castelo Branco na Vigília Pascal

Caríssimas irmãs e irmãos em Cristo,
Caríssimos Catecúmenos e catecúmenas,
Caríssimos amigos e autoridades civis, militares e académicas aqui presentes:

“Este é o Dia que o Senhor nos fez: nele exultemos e nos alegremos” (Sl 118, 24). Celebramos este dia triunfalmente todos os anos, de modo solene e festivo, porque em todos os dias, em todas as horas, o queremos viver como experiência sempre nova da presença de Cristo Vivo. O Ressuscitado não é uma memória difusa e abstrata, mornamente reiterada numa cansativa retórica cristã, de cores apagadas e sabor diluído. O Ressuscitado é Pessoa Viva, luminosa e ardente, abraçando cada tempo, o nosso tempo, assumindo cada vida, a nossa vida. A alegria da Ressurreição não se entende senão à luz do Amor extremo e absoluto de Deus, que é a substância mesma da identidade divina, e que irrompeu na história como carne da nossa carne, vida da nossa vida e morte da nossa morte. Cristo crucificado é o mesmo que ressuscitou e, por isso, a experiência cristã, ao contemplar a cruz, não se centra na dor, mas no amor; não sucumbe na derrota da morte, mas rejubila na vitória perene da Ressurreição.

Diz o anjo de Deus às peregrinas de Jesus crucificado que, na madrugada da Ressurreição, procuravam ainda o cadáver do seu Senhor: “Sei que procurais Jesus, o Crucificado. Não está aqui, ressuscitou, como tinha dito”. A peregrinação das discípulas e dos discípulos não pode jamais orientar-se para túmulos, sentimentos de derrota e lamentações de morte, mas parte da experiência de um encontro e de uma relação com Cristo que, sendo Deus, é o ser humano que venceu a morte e recriou a vida à imagem plena da vida de Deus.

A espiritualidade cristã alimenta-se da alegria, que vai colher à fonte do Amor do Crucificado que, vitorioso, venceu a morte e está vivo. A alegria é, por isso, a linguagem própria do ser cristão, é o seu estilo e a expressão mais adequada para manifestar a relação com Deus e com os outros.

Por isso, cada experiência de alegria autêntica, todo o palpitar de amor genuíno, realmente humano e humanizante, é centelha fulgurante de Cristo ressuscitado. As alegrias simples do quotidiano, os pequenos gestos de amor partilhado, de vida oferecida, de sorrisos entregues e acolhidos, são experiência concreta da alegria da Ressurreição. Sofia de Mello Breyner, num seu poema famoso, que não se centra num tema religioso, mas parte de uma grande alegria de natureza política e cultural, mostra como toda a alegria realmente humana se inscreve na alegria de Cristo Ressuscitado, já que podemos aplicar as suas palavras integralmente, quase de modo próprio, ao júbilo da Ressurreição de Jesus, à exultação deste Dia Novo e eterno, no Mistério da Vida que vence a morte; diz Sophia:

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo

Esta experiência de encontro com Cristo vivo muda necessariamente a nossa vida. É por isso que estamos aqui, herdeiros de uma comunicação de vida de geração em geração, até ao fim dos tempos, conduzindo o tempo e a história à plenitude da eternidade. Somos testemunhas dessa experiência! Também nós temos feito sucessivas experiências de dor, de fracasso e de desamparo, talvez até de solidão e desesperança; e, contudo, estamos aqui porque uma voz maior, uma presença mais forte e uma relação transformadora foram-nos mostrando que vale a pena prosseguir, que o nosso tempo tem sentido, que a vida toda tem sentido, porque Jesus Cristo Ressuscitou e está vivo, fazendo-nos experimentar, aqui e agora, a alegria de O encontrar.

A experiência pascal de Maria Madalena e da outra Maria começa com um enviado que lhes traz a notícia e lhes prepara o caminho para o encontro insubstituível com o próprio Senhor. Elas próprias se tornarão replicadoras dessa notícia, cumprindo um mandato primordial: “Não temais, ide avisar os meus irmãos que partam para a Galileia. Lá me verão”. A Igreja nasce desta experiência de missão, a partir de enviados de Deus, e desta experiência de encontro, de comunhão, que é a outra expressão do dinamismo de Deus connosco. É uma cadeia de encontros vividos e de alegria partilhada, sempre centrada na vida vitoriosa de Jesus e na Sua presença efetiva na vida dos que O querem seguir. Somos Igreja assim, partindo dessa experiência de missão e de relação e partilhando, na força do Espírito que nos é dado, uma vida comum do Corpo oferecido na Cruz e Ressuscitado para sempre, que nos faz ser um só corpo, embora muitos e sempre diferentes, que nos faz ser, celebrar e transmitir a Eucaristia. Somos gente batizada na Trindade de um só Deus que Se uniu à nossa mortalidade para nos unir à sua eternidade; Jesus, enviado do Pai, une-nos à Sua condição de Filho, no cimento do Seu Espírito Santo, para que no mesmo Espírito possamos experimentar a alegria de sermos irmãos: a fraternidade é talvez o fruto mais visível, o indicador mais seguro, da autenticidade da nossa relação com Deus e da nossa experiência da Ressurreição.

A densidade da dor humana, o peso da nossa violência, do nosso egoísmo, com tantas e tão destrutivas consequências, dissipa-se a partir da primeira palavra pronunciada pelo anjo e tantas vezes repetidas nas aparições do Ressuscitado: “Não tenhais medo!”. Não tenhais medo. No meio do túmulo em que te meteste, há um caminho, uma luz, uma esperança segura, uma certeza de vitória. O túmulo não te fecha porque Jesus entrou nele para que tu saísses! Por isso, não tenhas medo, não te deixes convencer pelas vozes malévolas que te sussurram que tu não vales, que tu não podes, que tu não és. Na experiência dolorosa da morte de Lázaro, que é uma experiência icónica do que Jesus realiza na nossa vida, Marta corre até à sua irmã Maria, afundada na dor da sua perda, para lhe dizer: “O Senhor está aqui e chama-te!”. E ela foi prontamente, confiada numa presença maior, peregrina de outro horizonte, que não entendia inteiramente, mas em que confiava, partindo sempre do amor. Na nova luz da Páscoa da Ressurreição cada um de nós pode também ouvir este convite que convoca à experiência da Ressurreição: “o Senhor está aqui e chama-te”.

Chama-te para que o sigas, não apenas em palavras ou em belas liturgias, como a que vivemos aqui, mas no concreto poeirento do quotidiano, aí quando a distração, a superficialidade, o medo ou a preguiça nos espreitam para nos fazer esquecer o essencial.

Chama-te para que, por melhores razões que tenhas para desanimar ou te focares na derrota, cresças na gratidão: Cristo venceu a morte! Podes encontrá-lo nas profundezas da tua dor, onde ele entra apenas para te tirar de lá. Por isso, na Sua Ressurreição, Jesus nos convida a não dar poder ao desânimo, mas pedir a graça da confiança e da gratidão.

Num mundo cheio de ruídos e de incapacidades de escuta, a experiência da Ressurreição recupera em nós a arte de escutar e acolher sem medo e capacita-nos para a comunicação autêntica.  Num mundo desfigurado pela violência, pela mentira e pelos discursos e práticas de ódio, a experiência da Ressurreição faz-nos viver a vitória sobre todo esse mal, na alegria de perceber que o mal não tem a última palavra.

Se vivemos com verdade a Páscoa de Jesus, assumimos com generosidade a missão de a testemunhar e anunciar. Num mundo tantas vezes surdo ao amor, é preciso vozes e gestos que manifestem o quanto o amor prevalece porque se origina em Deus; porque Deus se interessa; porque Cristo venceu a morte. A experiência do Mistério Pascal de Cristo foi impressa em nós, de modo indelével, pela ação do Espírito Santo, no momento do nosso Batismo. É o instante inaugural de um longo caminho de Vida Nova no Espírito de Deus, que dá vida e sentido a todas as coisas.

Caríssimos catecúmenos: o que ireis viver já a seguir é a passagem da morte à vida, é o acolhimento do dom supremo da vida em plenitude que Deus vos vai conceder no Sacramento do Batismo. Neste sacramento, uma nova e inextinguível luz se acenderá na vossa vida; sereis configurados com Cristo na Sua morte de Cruz e conduzidos por Ele à vitória da Ressurreição. A vossa morte passará a ter a marca da morte de Jesus; a vossa sede de vida passará a ser inteiramente saciada, e muito para além do que alguma vez poderíamos esperar, pela Ressurreição do Senhor. Sereis casa de Deus, lugar onde o Espírito Santo habita e se manifesta. O vosso batismo é dom e, por isso, é missão. É o início maravilhoso de um caminho cheio de beleza. Encontrareis provavelmente obstáculos e dores pelo caminho; mas, apesar dos cansaços, é Jesus que nos diz, como aos discípulos: “No mundo tereis tribulações. Mas tende coragem: Eu venci o mundo!”

Então é preciso continuar a ouvir a voz do Espírito que nos irá continuar a dizer o que Deus espera de vós. Sem medo! Em confiança. “O Senhor está aqui e te chama!”, como a Maria, em Betânia. Se ouvires a Sua voz, sereis conduzidos a uma experiência cada vez mais plena e luminosa da Sua Ressurreição.

Aleluia! Jesus Cristo está vivo, verdadeiramente! A todos e todas, uma Santa Páscoa!

+ Pedro Fernandes, bispo de Portalegre-Castelo Branco

Partilhar:
Scroll to Top