Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor

Basílica Metropolitana da Sé de Évora – 14.04.2019

1. Com a Liturgia do Domingo de Ramos, entramos na celebração da Semana Santa. A Igreja convida-nos a viver interiormente e em Comunidade o Mistério da Paixão, Morte, Sepultura e Ressurreição do nosso Redentor descrita pelos quatro Evangelistas. Hoje, escutamos a Paixão de Jesus, descrita por S. Lucas, a qual ocupa 2 capítulos dos 24 capítulos do seu Evangelho, os capítulos 22 e 23.

Jesus entra em Jerusalém, não como um rei revestido de poder político e militar, mas como Rei Messiânico, montado num jumentinho, como anunciara o Profeta Zacarias (9.9) «Exulta de alegria, filha de Sião, eis que o teu rei vem a ti; Ele é justo e vitorioso; vem, humilde, montado num jumento, sobre um jumentinho, filho de uma jumenta». Ele não vem num cavalo como os poderosos deste mundo, mas num jumentinho como os pobres de Jahve.

O primeiro dia da Semana Santa é um introito paradoxal da glória e da paixão: Jesus Cristo, aclamado como enviado de Deus, acaba por sofrer a rejeição daqueles para quem foi enviado. Mas o Mestre vive até ao limite a fidelidade ao Amor: se não pode evitar o sofrimento e a morte, então «Faça-se a Tua vontade

2. Na primeira leitura o Profeta Isaías (50, 4-7), introduz-nos no mistério do Servo de Deus que sofre por todos nós. Desde os Padres da Igreja antiga, que este texto é aplicado a Jesus, «obediente até à morte e morte de cruz». Jesus identifica-se com a vontade do Seu eterno Pai: «Apresentei as costas àqueles que me batiam, não desviei o rosto daqueles que me insultavam e cuspiam», pois o Seu «alimento é fazer a vontade pai.»

O Salmo 21 é a oração de incondicional entrega do Servo de Jahve à vontade do Pai e ao ser assumido e proclamado por Jesus no alto da cruz significa o sentido que o Senhor dá à sua entrega: Ele é o Servo de Deus, o Cordeiro imolado pela redenção da humanidade, de todos! Assim, o Salmo que cantamos, ao ser rezado pelo Senhor torna-se a chave interpretativa do Evangelho da Paixão que escutamos: «Ele é o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo.» O Refrão, «Meus Deus porque me abandonastes?» não é uma interrogação de desespero, mas a oração do Filho, que por nosso amor se oferece a seu eterno Pai: «Pai, nas vossas mãos entrego o meu espírito». (Lc. 23,46).

O Evangelista S. Lucas, destaca no seu relato a grandeza humana de Jesus Cristo, o Servo de Jahve – Cordeiro imolado pela salvação de todos, o Rosto da Misericórdia do Pai. Fá-lo através de detalhes próprios, como o olhar misericordioso aquando da negação de Pedro, a Sua autoridade diante do Sumo Sacerdote, o silêncio perante Herodes, a declaração de inocência por parte de Pilatos, o acolhimento da prece do “Bom Ladrão”, o perdão a todos os que gritaram pela sua crucifixão e morte, e aos próprios verdugos que o mataram: «Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem.» Neste ano, a Liturgia apresenta-nos a Paixão segundo o Evangelista da Misericórdia; de facto, no Evangelho segundo S. Lucas encontram-se as mais belas parábolas sobre a misericórdia de Deus Pai; como a do Pai amoroso e do Bom Samaritano, a da ovelha perdida e a da dracma reencontrada. Acabamos de perceber, através de S. Lucas, que a cruz aponta para a plenitude da Misericórdia, quando perdoa aos que o matam, quando apaga o ódio com o Seu Amor: «Pai perdoa-lhe porque não sabe o que fazem». Ele mostra-nos assim, como a misericórdia é fonte de vida.

3. Lucas sugere-nos dois olhares distintos de Cristo, para nos encontramos com Ele. O primeiro é o de Judas, que vem de noite porque vive nas trevas e cumprimenta o Senhor com um beijo traiçoeiro. «Judas, é com um beijo que entregas o Filho do Homem?», pergunta-lhe Jesus, dando-lhe a oportunidade de se arrepender e confessar o seu pecado, sendo assim perdoado pelo Filho de Deus, mas Judas não responde, o seu pecado parece-lhe demasiado grande para ter perdão e na sua solidão suicida-se.

O segundo olhar, dirige Cristo a Pedro, que negou o Mestre: «Juro que não o conheço!» Quando o galo cantou, o Senhor fitou nele o olhar. Naquele olhar misericordioso e sereno, por entre a fogueira acesa, o coração envergonhado e arrependido de Pedro acende-se de novo, chorando amargamente, Pedro converteu-se ali mesmo, tal como Jesus tinha profetizado: «Eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça. E tu uma vez convertido, fortalece os teus irmãos».

Seguremos o nosso olhar no olhar de Pedro e com o Apostolo Paulo, na Carta aos Filipenses, que escutámos na segunda Leitura, proclamemos com os primeiros cristãos: «Cristo Jesus, que era de condição divina, assumiu a condição de servo e aniquilou-se ate à morte e morte de cruz! Por isso Deus o exaltou», só Ele é “Senhor!”

Recordemos que Jesus foi trocado por Barrabás, «mata esse e solta-nos Barrabás», gritou o povo a Pilatos que lhe ofereceu a escolha entre Jesus e Barrabás, um criminoso. Sentimos nós natural repulsa por Barrabás, mas não é ele um de nós pecadores? “Bar-Abbas”, etimologicamente significa “Filhos do Pai” Não foi Jesus trocado por Barrabás? Não morreu Ele por cada um de nós? Mais, não morreu “o Filho do Pai” por cada um de nós para que pudéssemos viver a Sua vida nova, a vida do Ressuscitado?

4. Eis um convite para participarmos na sua íntima amizade: «Tenho desejado ardentemente comer convosco esta Páscoa» diz Jesus aos Apóstolos e diz-nos hoje a nós. Sentemo-nos com Ele à mesa e preparemos os nossos corações para vivermos digna e intensamente o Tríduo Pascal «centro e cume do Ano Litúrgico».

Não deixemos que a rotina mate a beleza destas Celebrações, mas renovemos o nosso coração para mergulharmos em tão grande e belo Amor. Por isso, convido-vos a saborear o Hino 32 de São Romano, um Padre da Igreja do século VI, cerca do ano 560.

«Ó criatura da minha mão respondeu o Criador, eis que vim Eu próprio. Não será a lei a salvar-te, pois não foi ela que te criou, nem os profetas, que eram criaturas como tu. Só Eu posso libertar-te da tua dívida. Eu fui vendido por ti, para te libertar; fui crucificado por causa de ti, para que possas escapar à morte; morro, e ensino-te a clamar: «Bendito sejas, Tu que vens chamar Adão». Amei assim os Anjos? Não, és tu, o miserável, que me és querido. Escondi a minha glória e Eu, o Rico, fiz-me pobre, deliberadamente, por teu amor. Por ti, sofri a fome, a sede, a fadiga. Percorri montanhas, ravinas e vales à tua procura, ovelha perdida; tomei o nome de cordeiro para te trazer de volta, atraído pela minha voz de pastor, e quero dar a minha vida por ti, para te arrancar das garras do lobo. Tudo isto suporto para que possas bradar: «Bendito sejas Tu que vens chamar Adão».

Fecunda Semana Santa para todos! Permaneçamos unidos aos grandes “Calvários” e “Gólgotas” do nosso tempo. Recordemos o drama dos refugiados; a cruz vivida em Moçambique e na Venezuela, a quem dedicamos a nossa Renúncia Quaresmal; todos os que vivem a doença, a velhice, a deficiência e a restrição de liberdade em solidão e abandono. Encontremo-nos com Cristo Crucificado nestes irmãos.

+ Francisco José Senra Coelho

Arcebispo de Évora

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