
Queridos irmãos e irmãs,
Foi longa e intensa a caminhada que nos trouxe até aqui. Quarenta dias de preparação nas nossas comunidades, nas famílias de todos vós, nos escuteiros, nos grupos de jovens, nos grupos de acólitos, de leitores, na catequese das crianças e dos adultos… e nunca me canso de lembrar que assim aconteceu por todo o mundo, desde as grandes capitais até à mais pequenas vilas e aldeias. Desde os lugares onde a fé pode ser vivida de forma pública, até aos locais onde tudo se celebra na penumbra da perseguição. Desde as terras onde há ruas limpas, prédios com janelas, árvores com vida, parques com crianças, até aquelas onde todos os dias se limpam escombros de onde se retiram corpos sem vida. Esta é a realidade da nossa Fé, a verdade desta Páscoa.
Mas acredito que em toda a terra se preparou mais uma Páscoa.
Uma Páscoa onde se leu a entrada de Jesus em Jerusalém, a Sua Última Ceia, a Sua agonia, marcada pelo abandono e pelo sofrimento, a Sua Subida ao Calvário e a Sua Morte na Cruz.
Foram também estes os nossos passos, aqui nesta nossa igreja, lugar de encontro e de pertença de toda uma comunidade.
Mas nunca ficamos fechados na escuridão da morte de Jesus. A Grande Vigília contou-nos como é luminosa e grandiosa a criação de Deus, como são sábios e belos os salmos que cantam a história do povo de Deus, como foi e é surpreendente a Ressurreição de Jesus.
E hoje, como nos recorda São Pedro, “Deus ressuscitou Jesus ao terceiro dia e permitiu que Se manifestasse… a nós que comemos e bebemos com Ele depois de ressuscitar dos mortos” (cf. Atos 10, 40-41), abrindo-nos à certeza de que a vida venceu a morte.
Renovámos as promessas do nosso Batismo, alegramo-nos com a celebração da Eucaristia e regressámos a casa, noite adentro, mas cheios do Espírito Santo…
Hoje, o amanhecer do dia trouxe-nos mais uma vez a memória daquela manhã em que se descobriu o túmulo vazio: “no primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao sepulcro, ainda escuro, e viu a pedra retirada” (cf. João 20, 1).
Conseguem imaginar a surpresa, o espanto diante do que lhes foi dado ver? A pedra devia pesar toneladas, tinham sido precisos vários homens para a rodar sobre a abertura do túmulo onde o corpo sem vida de Jesus tinha sido depositado.
Agora estava aberto e vazio. E Pedro e o outro discípulo correram ao sepulcro; entraram, viram e acreditaram (cf. João 20, 3-8).
Gosto de imaginar as árvores baixas, os arbustos, o céu azul, o cantar dos pássaros, no anúncio da Primavera. Gosto de pensar no cuidado daqueles que procuram Jesus, mesmo sem ainda compreender tudo.
Precisamos de trazer para dentro do nosso coração todos os momentos que os Evangelhos nos contam, porque a Palavra de Deus é Verdade e Vida.
E hoje somos também convidados a dar um passo mais: “Se ressuscitastes com Cristo, aspirai às coisas do alto” (cf. Colossenses 3, 1). Não como fuga da realidade, mas como transformação da própria vida, no concreto de cada dia.
A mensagem do Papa Leão XIV, para o passado Dia Mundial da Paz, fala-nos da Ressurreição e da Paz de uma forma muito bela: “A paz tem o sopro da eternidade: enquanto ao mal se ordena ‘basta!’, à paz se suplica ‘para sempre’. O Ressuscitado introduziu-nos neste horizonte.”
Jesus Ressuscitado permite-nos estas duas pequenas palavras que revelam uma realidade imensa: “para sempre”.
Jesus Ressuscitado anuncia-nos, de um modo sempre novo, a Paz. E assim, é possível à nossa fragilidade, à nossa miséria enquanto humanidade que erra, que mata, que destrói, dizer que a Paz tem o sopro da eternidade.
E o Papa diz-nos que “(…) é neste sentir que vivem os promotores da paz que, no drama daquilo que o Papa Francisco definiu como ‘terceira guerra mundial em pedaços’, ainda resistem à contaminação das trevas, como sentinelas na noite.”
Sejamos estas sentinelas da Paz, aqui, nesta terra que habitamos, com os irmãos que vivem ao nosso lado. Sejamos estas sentinelas da Paz, nas nossas casas, nas zangas entre famílias e irmãos, nas estradas por onde andamos, nos hospitais onde nos deslocamos, nas compras, nas ruas, nos mercados. Nas nossas estradas… sejamos condutores de paz… lembro os mais de uma dezena de mortos nas nossas estradas nesta quadra pascal…
Sentinelas da Paz que trazem ao quotidiano das suas vidas um sopro da eternidade, um vislumbre do céu.
O Papa dá-nos indicações precisas que devemos ler e reler:
“juntamente com a ação, é mais do que nunca necessário cultivar a oração, a espiritualidade, o diálogo ecuménico e inter-religioso como caminhos de paz…”
Vivo esta Páscoa de coração cheio, porque conheci o significado de uma criatividade pastoral atenta e criadora nas paróquias por onde andei; vivo esta Páscoa de coração agradecido, por tanto bem que conheci, por tanta disponibilidade que senti. E acredito profundamente que este é o caminho para trazermos a Paz para as nossas vidas.
E assim como a Paz é o fruto da nossa Fé, também a Alegria a manifesta. Hoje é um dia de Alegria, de Festa, de sorrisos e abraços!
Sejamos cristãos felizes!
Cristo, nosso Cordeiro pascal, foi imolado — celebremos a festa com os pães ázimos da sinceridade e da verdade (cf. 1 Coríntios 5, 7-8)
Jesus Ressuscitou! Aleluia, aleluia.
+ D. Américo Aguiar, bispo de Setúbal
