Homilia do bispo de Bragança-Miranda na Vigília Pascal

Catedral de Bragança, 04.04.2026

Foto: Diocese de Bragança-Miranda

Gn 1,1-2,2 [Sl 104]; Ex 14,15-15,1; Ez 36,16-17.18-28 [Sl 42]; Rm 6,3-11; Mt 28, 1-10
Haja Páscoa e haja Paz!

1.Esta Noite é uma fulguração de Luz e Lume novo. Desde as brasas acesas, ao Círio Pascal aceso, ao nosso coração aceso como o dos discípulos de Emaús. É também por isso que o Batismo começou por ser chamado «Iluminação», sendo a Vigília Pascal também a grande Noite Batismal. E cada batizado levará para sempre a arder dentro de si o Lume do amor de Deus.
Na Primeira Leitura desta bela Vigília, passeámos no jardim Criação boa e bela, visitámos as suas 452 palavras (Gn 1,1-2,4a), e nelas não encontrámos um único «não», um único alçapão. Que belo mundo novo, que Deus quis depositar nas nossas mãos! Que grande Sim nos confiou antes de nós merecermos qualquer confiança!
Visitámos depois o Egipto opressor, e de lá, o Senhor nos libertou fazendo-nos atravessar a pé enxuto o mar Vermelho, como se fosse uma «planície verdejante» (Sb 19,7).
Com Ezequiel (Ez 36,16-17.18-28), ouvimos falar do coração novo, música nova e escutámos São Paulo a descodificar o nosso Batismo, pelo qual somos sepultados com Cristo, para com Ele ressurgirmos para uma vida nova (Rm 6,3-5).
E assim nos encontramos sempre com o Ressuscitado, hoje visto através do relato de Mateus 28,1-10. Jesus Cristo, Crucificado, Morto e Sepultado, segundo as Escrituras, que se levanta do chão raso e da folha plana de papiro ou de papel, elevando a humana vida e a inteira Escritura à sua Plenitude.
O relato evangélico é sóbrio, mas rico e denso. Fiel a esta intensa sobriedade, a arte cristã nunca se atreveu a representar a ressurreição antes dos séculos X-XI. É tal o fulgor da Luz deste mistério, que ficará sempre no domínio do inefável, que simultaneamente ilumina e esconde. É por isso que a Paixão é um relato, mas a Ressurreição, que põe fim ao relato, só nos pode chegar como Notícia, vinda de fora, como a Aurora.

2.A ressurreição de Jesus é o centro da nossa fé, é fonte de vida, origem da graça sacramental, é vitória sobre o mal e sobre o pecado.
Páscoa é passagem da morte à vida, do pecado à graça, do egoísmo ao amor, da tibieza ao fervor, da passividade à ação, do orgulho à humildade, da discórdia à união, das trevas à luz, da mentira à verdade, do homem velho ao homem novo, da ganância à generosidade.
Para que tudo isto aconteça, há uma condição essencial: a adesão de cada um de nós a Jesus Cristo, vivendo sem desculpas e radicalmente a Sua Palavra e alimentando-nos do Seu Corpo e Sangue. Jesus morto e ressuscitado torna-se, assim, “ressuscitador” da nossa vida de cada dia (nosso modo de pensar, de sentir e agir) e ressuscitador das nossas famílias e das nossas comunidades, da nossa diocese e deste mundo que tanto anseia pela vida nova da Páscoa. Estamos, como nunca, sedentos da Paz do Crucificado Ressuscitado.

3.Celebrar a Páscoa do Senhor, é ter consciência da presença interpelante de Jesus, nosso conterrâneo, contemporâneo e companheiro de viagem. Recordar e reviver os seus gestos e as suas palavras, significa confessar a fé na Ressurreição, na certeza de que Jesus de Nazaré, no modo como viveu, como morreu e como voltou à vida, possui, particularmente para as circunstâncias de hoje, um valor e um significado decisivos para a vida individual, familiar e coletiva.
Professar, na liturgia da Páscoa do Senhor, que «Cristo ressuscitou dos mortos», significa gritar a todos os homens, a todos os seres vivos e a toda a Criação que «o amor é mais forte do que a morte».
O Papa Leão XIV tem reforçado pedidos de paz, especialmente para o Médio Oriente, para a Ucrânia e para as vítimas de todas as guerras, associando a ressurreição à esperança de um mundo “desarmado e desarmante”. Nas circunstâncias atuais, com a humanidade envolvida em guerras intermináveis, em que todos os dias somos surpreendidos com novas e sofisticadas armas e com a imposição da lei do mais forte, a Páscoa é um grito de paz e proclamação da vida. Como é bom escutar repetidamente a saudação de Jesus Ressuscitado: A Paz esteja convosco!

E haja Páscoa e Paz, nos teus olhos.
E haja Páscoa e Paz, no teu coração.
E haja Páscoa e Paz, nas tuas mãos,
para encher os olhos de lágrimas de emoção…
Feliz Páscoa, de Luz e de Paz! Amen! Aleluia!

+Nuno Almeida
Bispo de Bragança-Miranda

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