Homília do bispo de Beja na Missa Crismal

“Alegria, Comunhão e Missão”

Foto: Diocese de Beja

Caríssimos irmãos,

A todos saúdo na paz de Cristo e dou graças pela vossa presença, que muito me alegra. Aos que vêm de longe e aos que vêm de perto, das várias paróquias da nossa Diocese de Beja – a todos, dou uma palavra calorosa de boas-vindas.

A vossa presença e participação nesta celebração, acompanhando o vosso Bispo na bênção do Óleo dos Catecúmenos e do Óleo dos Enfermos e na consagração do óleo do Santo Crisma, é um sinal muito expressivo de comunhão eclesial que une todas as paróquias, comunidades, movimentos e ministérios, da nossa Diocese.

Qual é a importância destes óleos na vida da Igreja? Eles estão intimamente ligados aos sacramentos, que são sinais eficazes da graça. Através destes óleos, a graça de Deus alcança a pessoa inteira — corpo e espírito —, ungindo, fortalecendo, curando e consagrando. No Batismo, na Confirmação, no sacramento da Ordem, na Unção dos Enfermos e também nos ritos da Dedicação dos altares e das igrejas, estão presentes os Santos Óleos, como sinais visíveis de uma realidade invisível: a ação santificante de Deus no meio do seu povo.

Estes óleos, que vão ser benzidos e consagrados, acompanharão a vida da Igreja Diocesana ao longo de todo o ano, estando presentes nas alegrias e nas dores do Povo de Deus. Neles reconhecemos o cuidado amoroso de Deus, que unge, cura e envia pelo poder do Espírito Santo.

É também neste contexto de comunhão eclesial que os presbíteros aqui presentes se associam ao Bispo na consagração do santo Crisma, participando nela de forma própria, em virtude do sacramento da Ordem.

Neste dia, dirijo-me de forma especial aos nossos sacerdotes, que hoje irão renovar as suas promessas sacerdotais.

Caríssimos irmãos no sacerdócio, caríssimos presbíteros da nossa Diocese de Beja.

Hoje, ireis renovar as promessas sacerdotais diante do vosso Bispo e do povo santo de Deus. E o nosso coração volta-se, com reverência e gratidão, para o dom imerecido que

recebemos: o dom do sacerdócio. O sacerdócio é dom. Não é fruto de mérito, nem conquista pessoal, mas dom gratuito, que nos ultrapassa e nos configura, pela força do Espírito Santo, a Cristo Cabeça, Pastor e Esposo da Igreja. Esta é a nossa identidade e define-nos não apenas nas ações, mas no ser, no mais profundo do nosso ser.

Neste dia da renovação das promessas sacerdotais, quero falar-vos de alegria, de comunhão e de missão.

Alegria

A I Leitura da Profecia de Isaías fala-nos do “óleo da alegria”. As vossas / nossas mãos foram ungidas, e esta unção não é para nós – é para o serviço do Povo de Deus. Dizia-nos o Papa Francisco em 2014: “A unção é para os outros… para sair de si mesmo.” E como nos ensinou Jesus, “há mais alegria em dar do que em receber”. O sacerdote é chamado a viver na doação de si mesmo, a ser instrumento da graça de Deus e por isso a viver na alegria da missão. A propósito da alegria, dizia-nos, neste mesmo ano de 2014, o Papa Francisco, na Missa Crismal:

“A alegria do sacerdote é uma alegria que tem o seu ninho no coração do Senhor. (…) É uma alegria que se renova com a missão, uma alegria que se guarda como unção – íntima, como o óleo precioso que unge em segredo o interior do coração – e que transborda em todo o povo de Deus, por meio do testemunho.”

Caríssimos sacerdotes, faço minhas as palavras de S. Paulo: “Alegrai-vos sempre no Senhor”. Alegrai-vos pelo dom recebido pela imposição das mãos, pela missão que vos foi confiada. Caríssimos fiéis, alegrai-vos pelo dom do sacerdócio ministerial. Demos graças pelos nossos sacerdotes, pelo seu ministério.

Comunhão

O sacerdote é, por vocação, um homem de comunhão e um construtor de comunhão, ou melhor, um instrumento de Deus ao serviço da comunhão eclesial. Assim o afirmou em 1995 S. João Paulo II: “O sacerdote é chamado a edificar a Igreja como comunhão.” A comunhão não é uma realidade abstrata, mas concreta e vivida nas seguintes dimensões fundamentais: a comunhão com Deus, com o Bispo, com os irmãos sacerdotes e com o Povo de Deus.

Comunhão com Deus – O sacerdote é, antes de mais, um homem de Deus. É chamado a viver esta comunhão de forma íntima e constante através da vida de oração, que o une diariamente ao Senhor: na celebração fiel da Liturgia das Horas, na escuta e meditação assídua da Palavra de Deus e, de modo eminente, na celebração dos sacramentos, sobretudo da Eucaristia, fonte e cume de toda a vida cristã. A seguinte passagem do Evangelho ilumina de modo particular esta verdade:

«Chamou aqueles que quis… para estarem com Ele e para os enviar a pregar» (Mc 3, 13-15). Antes de serem enviados, os apóstolos são chamados a estar com Cristo. Este estar, permanecer com o Senhor é absolutamente central na vida do sacerdote, é de âmbito existencial: é relação viva, comunhão profunda, amizade que configura o coração do sacerdote ao de Cristo. Deste modo, o “estar com Ele” constitui o fundamento de todo o agir pastoral: só quem permanece em Cristo — como o ramo na videira (cf. Jo 15,4-5) — pode verdadeiramente anunciá-Lo, testemunhá-Lo e tornar presente a sua ação salvífica no meio do povo.

Comunhão com o Bispo – O sacerdote exerce o seu ministério em comunhão com o Bispo, não atuando de forma isolada, nem por conta própria. Os presbíteros investidos do único e idêntico sacerdócio ministerial de que o Bispo possui a plenitude, são os principais e insubstituíveis cooperadores da ordem episcopal. Em virtude do sacramento da Ordem, estão associados à solicitude pastoral do Bispo, participando, de modo próprio, na sua responsabilidade pela Igreja particular. Por isso, são chamados a cultivar um profundo sentido de comunhão diocesana, inseparável da abertura à dimensão universal da Igreja. É nesta comunhão com o Bispo que o ministério presbiteral encontra o seu fundamento, a sua legitimidade, a sua unidade e a sua orientação pastoral.

Comunhão com os irmãos sacerdotes – Os sacerdotes são irmãos não apenas pelo Batismo, mas de modo particular pelo sacramento da Ordem, que os configura a Cristo e os introduz num vínculo ontológico específico com Ele. Esta configuração não se limita ao agir, mas atinge o próprio ser. Por isso, são chamados a viver a fraternidade sacramental no seio do presbitério, cultivando a entreajuda, a corresponsabilidade e a amizade sacerdotal.

A comunhão com o bispo e com os irmãos sacerdotes, está sintetizada no que S. João Paulo II afirmou em 1993: “A unidade do presbitério, reunido em torno do Bispo, é sinal da comunhão da Igreja.”

Comunhão com o Povo de Deus – O sacerdote, e de modo particular o pároco, é chamado a ser artífice de comunhão no meio do povo que lhe está confiado. Exerce esta missão através do diálogo, da escuta atenta, do discernimento espiritual e da orientação pastoral, ajudando cada fiel a encontrar o seu lugar no Corpo de Cristo. Compete-lhe promover a integração dos fiéis na comunhão eclesial, não apenas ao nível da paróquia ou dos diversos movimentos, mas numa abertura efetiva à Igreja inteira, como mistério de comunhão. Por isso, deve evitar toda a forma de fechamento, “guetização” ou fragmentação, favorecendo antes uma participação viva, orgânica e missionária na vida da Igreja, no seu sentido mais amplo.

Em síntese, “o sacerdócio está enraizado na comunhão com Cristo e orientado para a comunhão dos homens”, como nos ensinava em 2010, o Papa Bento XVI.

Missão

Ouvimos a profecia de Isaías, que Jesus proclamou na sinagoga de Nazaré: «O Espírito do Senhor está sobre mim, porque Ele me ungiu para anunciar a Boa Nova aos pobres; enviou-me a proclamar a libertação aos cativos e a dar vista aos cegos, a restituir a liberdade aos oprimidos e a proclamar o ano da graça do Senhor».

Jesus chama-nos e associa-nos à sua missão. Nas circunstâncias concretas das nossas vidas e do tempo que nos é dado viver, confia-nos esta nobre tarefa.

Com coração agradecido e na alegria da nossa pertença ao Senhor e à sua Igreja, e de modo particular neste dia, pelo dom dos santos óleos, presentes na vida sacramental da Igreja, elevamos a Deus a nossa ação de graças, pois é pelos sacramentos que somos fortalecidos para a missão de anunciar a Boa Nova de Jesus Cristo.

O processo sinodal em curso orienta-nos para uma Igreja cada vez mais consciente da sua natureza missionária. Peçamos ao Senhor a graça de permanecermos sempre fiéis à fé dos Apóstolos e de sabermos discernir com ousadia e criatividade caminhos novos para anunciar o Evangelho aos homens e mulheres do nosso tempo, nas circunstâncias próprias da cultura contemporânea.

Que Maria, Mãe da Igreja e Mãe dos sacerdotes, e São José, nosso padroeiro, nos acompanhem e inspirem a viver com alegria e fidelidade o dom recebido, como construtores de comunhão e arautos da Boa Nova, da compaixão e da misericórdia de Jesus Cristo, nosso Salvador.

† Fernando Paiva, Bispo de Beja
(1-4-2026, Sé de Beja)

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