Homilia do bispo de Angra na Missa Crismal

Foto: Igreja Açores/CR

“Para Deus não há tempo…”. Mesmo com atraso, o velho P. Albano, dizia sempre ao sacristão: “vai lá dar as 11”. Significava que era a hora de celebração da Páscoa Semanal que, seja a que horas for, é sempre hora do Ressuscitado. Eram sempre 11h… Como nós hoje, aqui ou como Jesus que, naquele dia, leu Isaías, sentouSe e disse: “Cumpriuse hoje mesmo esta passagem da Escritura”. Aquele “hoje” não é apenas um ponto na história; é um hoje permanente. Cada hora revela o ato eterno e salvador de Deus que se vai cumprindo nas Escrituras visivelmente em Cristo presente. “O Senhor Me ungiu e Me enviou a anunciar a boa nova aos pobres…”. Cada vez que a Igreja unge, cada vez que um padre é ordenado e ungido, é o “hoje” que se prolonga.

No dia da nossa ordenação, estas palavras foram pronunciadas sobre nós: o Espírito está sobre ti, para que, através de ti, o próprio Cristo continue a anunciar, a curar corações, a libertar cativos, a consolar aflitos. Talvez, ao olharmos para trás, vejamos algumas vezes em que esse “hoje” se apagou um pouco: rotinas, fadiga, feridas, desilusões pastorais, pecados. E, no entanto, se estamos aqui, é porque o Senhor não retirou a sua unção. O óleo permanece sobre nós, mesmo quando a nossa pele está gasta. Ao juntarmo-nos hoje e ao recordarmos o dia da Ordenação estamos também a dizer quem somos como cristãos e o para quê da missão.

Nascemos membros do povo de Deus para sempre pela Unção Batismal; mas pela Unção da Ordem fomos chamados a ser visivelmente UM SÓ em Cristo, Sumo e Eterno Sacerdote, a sermos outros Cristo, celebrantes das maravilhas da salvação e distribuidores para todo o Povo Santo das graças já garantidas pela Sua Paixão, Morte e Ressurreição.

A Carta Apostólica do Papa Leão XIV que distribuiremos a todos, intitula-se “uma fidelidade que gera futuro”. Não é uma fidelidade de pedra, rígida e fria; fala de uma fidelidade viva, que cresce da memória do encontro com Cristo e se renova em caminho de constante conversão. O texto recordanos uma coisa decisiva: antes de qualquer serviço, de qualquer programa pastoral, há uma voz que nos chamou e continua sem tempo: “Vem e segueMe”. A fidelidade não é, primeiro, esforço nosso; é resposta agradecida a essa voz.

Ao renovarmos hoje as promessas, não estamos a assinar um novo contrato; estamos a deixar que Jesus nos volte a perguntar, um por um: “Ainda Me amas? Ainda queres caminhar comigo, com este povo concreto, nesta diocese, com estes irmãos de presbitério?”. E talvez alguns respondam com entusiasmo, outros com cansaço, outros com lágrimas escondidas. Mas o importante é não calar a resposta. Mesmo que seja um “Sim, Senhor, Tu sabes tudo, Tu sabes que Te quero bem… mas ajudame”.

A Carta insiste também na formação permanente como caminho de fidelidade. Não para acumular cursos, mas para manter vivo o dom recebido: deixar que a Palavra, a Eucaristia, a proximidade aos pobres, a fraternidade presbiteral, nos vão purificando de narcisismos e autorreferências, de modos de ser que não ajudam ninguém. A fidelidade que gera futuro não é conservar o passado, é deixar que o Espírito molde de novo o coração do pastor para o tempo que vem e as oportunidades que proporciona.

Cristo “fez de nós um reino de sacerdotes para Deus, seu Pai”. O nosso ministério só faz sentido dentro deste povo sacerdotal. Não somos sacerdotes à parte de um povo, mas dentro dele, para ele. O Concílio, que a Carta volta a pôr diante de nós, recorda que somos “irmãos entre irmãos, membros de um só Corpo”, ainda que configurados de modo específico a Cristo Cabeça. Isto vale em duas direções:

– Em relação ao povo: o sacerdócio comum dos fiéis não diminui o nosso ministério; é precisamente o campo onde a nossa unção serve. Somos chamados e enviados a ajudar cada batizado a descobrir a alegria de oferecer, também ele, a própria vida como “sacrifício vivo, santo e agradável a Deus”. Na Igreja e nas nossas comunidades, muitas coisas acontecem para além do que depende de nós e graças à ação e também liderança dos nossos leigos, a quem devemos acompanhar com a oração, pregação e sacramentos. Com o coração do Mestre aberto e apaixonado. Há hoje dinamismos do Espírito que nos ultrapassam e devem encher de alegria.

– Em relação aos irmãos presbíteros: nenhum de nós existe sozinho. Fomos ordenados para formar, com o Bispo, um único presbitério. A fraternidade presbiteral não é um acessório; é parte da nossa identidade e merece que nos esforcemos em ser construtores de unidade. É no seio do presbitério que pode desaparecer o “eu” teimoso que nos coloca como centro visível e se afirma o “nós” feliz porque construído por todos. Recomendo a fidelidade e qualidade dos vossos encontros de Ouvidoria. São essenciais, bem o sabeis. É o quadro visível do Presbitério unido.

Talvez hoje, mais do que noutros tempos, sintamos a solidão: menos padres, mais tarefas, mais responsabilidades. A tentação é fecharse, proteger a própria agenda, resignarse a uma vida sacerdotal “de sobrevivência”, fazer uma pastoral “à nossa própria imagem”. Mas a Palavra de Deus falanos de outro caminho: “Vós sereis chamados Sacerdotes do Senhor… Ministros do nosso Deus…”. A linhagem que o Senhor abençoa não é a dos solitários, é a dos que, apesar das diferenças, permanecem juntos no serviço, confiantes que é Senhor que nos conduz.

Fomos ungidos para os pobres desta terra. Quem renova as promessas diante de Deus não pode viver de costas voltadas para os pobres, porque o altar e a periferia pertencem ao mesmo Evangelho. A opção pelos pobres não é um adorno social do ministério: é critério de fidelidade. Claramente, estamos com dificuldade em definir prioridades pastorais. Jesus não as teve, desde o primeiro ao último momento: optou pelos pobres! O texto de Isaías é muito concreto: pobres, cativos, cegos, oprimidos, aflitos. Não é uma lista espiritualizada; são rostos que hoje, na nossa diocese, têm nomes: idosos sós, pessoas semabrigo, famílias esmifradas, jovens sem horizonte, reclusos, doentes mentais, migrantes, vítimas de abusos, colegas padres desanimados, doentes ou cansados. A unção de que se fala não é só para celebrar dignamente os sacramentos; é também para tocar estas feridas com o óleo da alegria da comunidade, com a proximidade persistente, com a palavra que consola e, quando necessário, com a denúncia que incomoda. Que o Senhor nos ilumine.

Queria, como bispo, terminar com duas palavras muito sentidas. A primeira é obrigado. Obrigado pelo que sois e fazeis: pelas Eucaristias celebradas em pequenas comunidades, pelas confissões ouvidas até tarde, pelas visitas a doentes e presos, pelo tempo gasto em assuntos difíceis, por cada hora de escuta paciente, pelas incompreensões. Obrigado pelo vosso “sim” quotidiano, tantas vezes escondido e em que a única consolação vem da cruz de Cristo.

A segunda palavra é perdão. Como Igreja, nem sempe vos acompanhamos como devíamos. A insularidade não ajuda, mas às vezes falta escuta, apoio, proximidade, capacidade, e sobretudo saber. Cada um de nós, na sua história pessoal, sabe o que pode fazer para colmatar o que falta.

Sois agora convidados a renovar as promessas. Não o façais apenas com os lábios. Trazemos “este tesouro em vasos de barro”. Deixai que ressoe de novo a Palavra: “O Espírito do Senhor está sobre mim… Ele me amor, me ungiu… me enviou…”. Que vos traga muita alegria espiritual, discreta, mas real. “O sacerdócio é o amor do coração de Jesus”. Que esse coração volte a bater forte no nosso peito, para que o povo que nos foi confiado possa, através de nós, experimentar algo da ternura, da fidelidade e da misericórdia do Bom Pastor.

Para Deus não há tempo, como o Amor que dá sentido à nossa vida e Ministério. Que ele transforme em graça tudo o que fazeis e sofreis, a começar por esta Semana Santa. Ámen.

D. Armando Esteves Domingues
Sé de Angra, 31 de março, de 2026

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