Caríssimas irmãs e irmãos batizados,
Caríssimo Senhor D. Antonino, Bispo Emérito de Portalegre-Castelo Branco, Caríssimos irmãos presbíteros e diáconos, religiosos e religiosas, Caríssimas autoridades civis, militares e académicas aqui presentes, “O Espírito do Senhor está sobre mim porque me ungiu para anunciar a Boa Nova aos pobres”: é com estas palavras do profeta Isaías que Jesus define a Sua missão.
Cristo, Missionário do Pai, é o grande ungido, no Espírito Santo, para tornar presente o Amor do Pai, que acolhe incondicionalmente, liberta os oprimidos, cuida dos frágeis, ampara os caminhantes, peregrinos e estrangeiros, oferece uma Boa notícia aos infelizes. Hoje celebramos Jesus e a Sua Missão e damos-lhe graças por nos fazer participar dela. Também nós, todos nós, em virtude da Graça do Espírito Santo que recebemos no Batismo, fomos escolhidos na nossa pobreza e fragilidade para usufruir dessa bênção absoluta de um Deus que escolhe, liberta, consagra e envia, habitando para sempre na nossa vida e fazendo dela, em Cristo e por Cristo, lugar resplandecente do Amor divino. Este amor é sacerdócio que une a terra ao Céu e o Céu à Terra; é Palavra que faz novas todas as coisas, informando, formando e reformando tudo para um mundo novo; e é serviço oblativo, que revela Deus com o rosto servidor e humilde com que Ele próprio se quis manifestar, como Bom Pastor. E essa é a boa notícia: o Deus omnipotente encontrou na humildade e na compaixão a linguagem única e incontornável para a Revelação de Si mesmo.
Quanto a nós, ministros ordenados, temos a graça de, como irmãos na grande família de batizados, recebermos um dom peculiar do Espírito, que nos torna de modo único e sacramental o rosto vivo de Cristo Cabeça, Mestre e Sacerdote da totalidade do Corpo Eclesial. Recebemos o dom do Espírito que nos faz animadores, guias e motivadores de toda a comunidade cristã, de tal modo que todas e todos assumam em plenitude a consagração batismal que é dom e tarefa, aceitando tornar-se missão dentro da Igreja e no meio do mundo. E isso de um modo bem concreto, ativo e visível.
Assim, identificamo-nos com Cristo Pastor, Palavra e Sacerdote e acompanhamo-lo na subida ao Calvário, unimo-nos a Ele no Seu oferecimento total no alto da Cruz e participamos da alegria da Sua Ressurreição. É por vivermos assim mergulhados no Mistério Pascal que podemos tornar-nos testemunhas dele, é porque vivemos do Espírito que podemos ajudar os irmãos e irmãs a abrir-se sempre mais ao Espírito, que nos faz ser missão. Todos com todos, todos para todos.
Caríssimos irmãos presbíteros e diáconos: vivemos na primeira pessoa este dom do Sacramento da Ordem. Vivemo-lo com gratidão: tudo é graça e o nosso ministério é para nós o lugar próprio de onde Deus nos concede a Sua graça para nos enviar a servir o Seu povo, ajudando-o a ser um povo de servidores, de profetas e de sacerdotes. Deus sabe com que dedicação e amor temos vivido esse dom para a Missão.
Deus contou e recolheu cada uma das vossas lágrimas, rejubilou com cada uma das vossas alegrias e sucessos. Deus conhece cada um dos momentos de dor, de desânimo, de fracasso e também de pecado e fragilidade que temos experimentado, desde que, pela imposição das mãos, fomos enviados a servir. E Deus não desiste de nós, nunca desistiu e garante-nos a Sua fidelidade para sempre. Cuida de nós e convida-nos a se cuidadores da comunidade de que somos membros e servidores. Dá-nos a Sua bênção e convida-nos a sermos portadores dessa bênção para todos. Somos testemunhas de um Deus que bendiz, não de um Deus que diz mal; de um Deus que integra, não de um Deus que exclui ou condena; somos sinal de um Deus que estimula e capacita para a missão, não de um Deus que menoriza, oprime ou carrega com pesados fardos de culpabilização.
Somos arautos de um Deus cuja Palavra é brisa suave que enche de paz e abre portas para horizontes de santidade, não somos legisladores e juízes portadores de uma doutrina opressiva, punitiva e infantilizante.
A comunidade, sob a presidência de Cristo Cabeça que nós representamos, celebra a Eucaristia porque toda a Sua vida é eucarística e porque quer viver cada instante em atitude eucarística. Somos dispensadores dessa graça. Vivemos nós próprios os sacramentos e somos portadores da reconciliação e da paz, de muitos modos, mas sabendo que um modo privilegiado e indispensável é o Sacramento da Reconciliação.
Vivemo-lo agradecidos, como pecadores que Deus mergulha e cura na Sua misericórdia.
Por isso nos confessamos, não como quem se liberta de um dever legal, mas como quem procura o repouso e a libertação que só o perdão de Deus nos pode dar. Também por isso, dedicamos tempo e energia a receber os irmãos e irmãs que querem celebrar o Sacramento da Reconciliação. Parece-me que hoje, na Igreja de Jesus, precisamos de ajudar todos a redescobrir o tesouro desse sacramento: por isso, não o proporcionamos de modo apressado ou redutor, mas acolhemos cada pessoa para a escutar, tornando-nos o coração-sacrário que os irmãos procuram em nós, para encontrarem Jesus.
Permitam-me uma partilha pessoal: vivi catorze anos em África, dos quais os últimos treze em Moçambique, no meio de multidões que acolhiam a proposta do Evangelho e de muita gente que, já batizada, a procurava viver a sério. Jamais demos uma absolvição geral”. Muitas vezes, as longas horas passadas a confessar, escutando cada pessoa, foram um desafio, mas a dificuldade era largamente suprida pela alegria de ser mediador de um Deus que perdoa cada pessoa em concreto, a acolhe, a levanta e a envia a servir.
A nossa Igreja diocesana de Portalegre-Castelo Branco vive hoje desafios que todos conhecemos bem: somos cada vez menos, os ministros ordenados. Também muitas das nossas comunidades, sobretudo nas regiões mais rurais, tendem a diminuir e a envelhecer. Julgo que não devemos ver isso como uma desgraça que lamentamos, mas muito mais como uma oportunidade que o Espírito de Deus nos oferece, facilitando a conversão sinodal e missionária que toda a Igreja é chamada a acolher, na cidade ou no campo, aqui ou nos ambientes eclesiais onde os desafios imediatos se configuram de um outro modo. Precisamos de deixar que Cristo nos reinvente, precisamos de colaborar com Ele nesse processo de discernimento, decisão e ação.
A vós, meus irmãos padres, é-vos devida uma palavra comovida de agradecimento, de gratidão e de admiração: tanto esforço, tantas viagens, tanta vida gasta ao serviço das vossas comunidades! Seja-me permitido agradecer-vos em nome de todos e dizer-vos o quanto vos admiro e estimo. Nestes poucos meses de serviço à Diocese, tenho tido a graça de receber de vós esse testemunho bonito. A vossa missão é para mim inspiração e conforto. É mérito da vossa generosidade e disponibilidade ao Espírito Santo, e é também, certamente, dom gratuito de Deus, que suscita e alimenta o vosso trabalho e a vossa vida.
É precisamente porque gastamos a vida nessa disponibilidade ao Espírito e à vontade do Pai que vivemos hoje atentos à voz de um Deus que nos convida a discernir e a eformular métodos e modos de presença pastoral na Igreja contemporânea. À nossa solicitude pastoral de ministros ordenados é hoje pedido que concentremos os esforços a motivar as nossas comunidades para um compromisso missionário cada vez mais efetivo e prático, de tal modo que todos compreendam que não são os leigos que ajudam os padres na sua missão, mas são antes os padres que ajudam os leigos na missão batismal, que lhes é própria. Por essa razão, precisamos de continuar a investir muita energia suscitando nas nossas comunidades cristãs lideranças laicais. Animadores de comunidade, irmãos e irmãs que possam presidir às celebrações da Palavra, às exéquias e a tantos outros serviços comunitários. Precisamos de líderes leigos, não porque temos falta de mais padres, mas porque temos falta de mais líderes leigos! Estes não entram em ação para substituir o padre (que tem, aliás, um lugar próprio em que não pode ser substituído!), mas para assumir a missão que lhes é própria, pelo batismo.
Como diocese, julgo que podemos sentir-nos muito gratos e honrados porque desde há muito que iniciámos e progredimos neste caminho de missão de todos os batizados e batizadas. Somos agora chegados a essa etapa em que o que nos é pedido não é tanto que multipliquemos o número de missas que celebramos em cada fim-de- semana, mas que multipliquemos os esforços para, em todas as comunidades, não
faltarem irmãos e irmãs preparados para presidir à celebração da Palavra. Estes mesmos animadores saberão preparar e animar a comunidade para viverem a Palavra de Deus também quando têm a graça de celebrar a Eucaristia, que permanece o centro e o ápice da vida cristã. Na verdade, os animadores leigos não entram em ação apenas quando o padre não está: eles têm um lugar próprio de serviço, animação e motivação, que deve ser ativado tanto para a Eucaristia como para as celebrações sem Eucaristia.
Precisamente porque temos animadores e animadoras da Palavra, temos também a garantia de que, pelo seu enraizamento na Palavra de Deus vivida em Igreja, manterão sempre a centralidade de uma vida eclesial realmente eucarística, mesmo quando não seja sempre possível celebrar a Eucaristia.
É claro que temos muito caminho para percorrer, no sentido de amadurecermos este novo enquadramento pastoral. Mas não podemos ir adiando a iniciativa, enquanto nos parece possível fazer durar antigos modelos. Precisamente porque se vislumbram cenários de mudança, creio que o Espírito nos ajuda a prepará-los, como colaboradores de Cristo nos desafios novos que se apresentam à Igreja de sempre.
O nosso serviço à Palavra e à Verdade do Evangelho impele-nos também a termos um olhar crítico e solícito perante as realidades sociais, económicas, culturais e políticas do nosso tempo. A banalização da mentira, a proliferação do mal, que parece tender a normalizar-se em vez de ser resolutamente repudiado, tem de encontrar em nós um olhar crítico, uma voz profética e um gesto decididamente coerente com a Verdade de Cristo que professamos. Como Igreja, temos de continuar a estar do lado certo da história, que é o lado dos mais frágeis, o lado dos discriminados e excluídos, o lado dos que se veem privados dos seus direitos: não podemos dar livre curso a que os pobres se tornem cada vez mais pobres; em que haja, entre nós, cidadãos que sejam rotulados de segunda classe em razão da sua origem, nacionalidade, grupo religioso ou cultural ou estilos de vida. O serviço que nós, ministros ordenados, prestamos à comunidade é essencialmente um serviço de favorecimento da comunhão e da unidade.
E sabemos bem, à luz do ensinamento de Cristo, que não há unidade sem diversidade, ue não há paz sem justiça, que não há crescimento se não for para todos. Faço meu o discurso do senhor Núncio apostólico em Portugal, numa sua recente entrevista, em que diz que os posicionamentos de extrema-direita ou de extrema-esquerda nos fazem mal, fazem mal à Igreja e à comunidade humana que queremos servir, anunciando o Evangelho. Como anunciar o Evangelho sem denunciar o mal? Como servir Cristo, se ão o reconhecemos no pobre, no migrante, no excluído e discriminado? Nas nossas comunidades, mesmo em meio rural, tem crescido a população adventícia: precisamos de criatividade para ir ao seu encontro, para formar os irmãos para a hospitalidade e fazer sentir aos nossos novos concidadãos que são bem-vindos e que têm na comunidade cristã uma casa e um lugar de apoio solidário. Isso chama-se missão. Daqui a poucas horas iniciaremos o Tríduo Pascal numa celebração em que um dos momentos mais expressivos é o rito do Lava-pés, retomando o gesto de Jesus. É a esse contínuo lava-pés que somos chamados e é, na verdade, desse modo que temos despendido as nossas vidas. Talvez, por vezes, nos sintamos cansados, talvez abatidos ou até desmotivados. Também aí Jesus nos acompanha e nós, com Ele, nos acompanhamos uns aos outros. Caríssimos irmãos: peçamos ao Senhor a graça da gratidão a Deus pela nossa vocação e missão. Sintamos ainda a gratidão de Deus por tudo o que somos! Ele realmente valoriza e abençoa a nossa vida. Precisamos de corresponder a esse olhar de bênção e construção de Deus, procurando nós mesmos os meios que nos valorizem e construam, de modo pessoal. Precisamos de cuidar muito da nossa saúde mental! Precisamos de zelar pela nossa vitalidade espiritual! As nossas comunidades precisam de testemunhas vivas; Deus nos livre de nos tornarmos funcionários cinzentos! Talvez a nossa primeira grande tarefa seja sermos felizes.
Precisamos de ser felizes, e isso também é um desafio pastoral, missionário, antes de qualquer outro. Apoiemo-nos uns aos outros, velemos uns pelos outros, amparemo-nos mutuamente: às vezes precisaremos que alguém nos levante e sempre haverá alguém a precisar da nossa mão estendida. A fraternidade sacerdotal é, por isso, uma expressão maior da nossa saúde vocacional.
Dou graças a Deus por cada um de vós e hoje, de modo especial, felicito aqueles irmãos que celebram jubileus sacerdotais. Felicito também as irmãs que celebram jubileus de vida consagrada: as Irmãs Paula André e Susana Passos, com 25 anos de profissão religiosa, a irmã Maria de Jesus Pereira, com 50 anos de consagração, e a irmã Luísa Banha, consagrada há 60 anos! “Como agradeceremos ao Senhor tudo quanto Ele nos deu…?”
Permitam-me ainda uma palavra final de saudação ao meu querido antecessor, D. Antonino Dias, aqui presente, que celebra este ano 25 anos de ministério episcopal. Grande parte dessa missão foi passada ao serviço da nossa diocese. Não haveria palavras suficientes para agradecer tanta vida oferecida, longos anos ao serviço desta nossa Igreja. Estamos consigo sempre, D. Antonino, rezamos por si. É um dos nossos, precisamos da sua proximidade e comunhão missionária. Bem-haja!
A todos vós, queridos irmãos no ministério ordenado, queridos religiosos e religiosas, a todos e cada um de vós, meus irmãos na vida cristã, desejo uma Santa Páscoa. Que Deus, por intercessão de Maria, vos acompanhe na Missão!
+ Pedro Fernandes, bispo de Portalegre-Castelo Branco
