
Estimado D. Manuel António
caros presbíteros (Vig Geral e demais vigários, Deão e membros do Cabido), diáconos, consagrados/as, caros seminaristas e fiéis leigos da Igreja no Algarve.
Permiti que comece por recordar e felicitar os que celebram, neste ano de 2026, jubileus sacerdotais: o P. David Sequeira: 70º aniv. de ordenação presbiteral (02.09) e o P. Henrique Varela (31.07) e P. Ant. Rocha (15.08) o 60º aniv. de ordenação presbiteral.
Temos presente, igualmente, D. Manuel Madureira e todos os nossos Padres, com uma saúde mais frágil, sobretudo os que estão impossibilitados de estar hoje connosco.
Reunimo-nos como habitualmente na manhã de Quinta-feira Santa para a celebração da Missa Crismal: uma das celebrações mais densas de significado de todo o ano litúrgico. Nela manifestamos, como Igreja diocesana, a nossa unidade – Bispo, presbíteros, diáconos, consagrados e Povo de Deus em Geral – à volta do bispo, benzemos os óleos dos catecúmenos e dos enfermos e consagramos o óleo do Crisma. Os presbíteros renovam as promessas da sua ordenação.
Este ano esta Eucaristia assume, para mim, um significado especial, conhecido de todos. Para os mais distraídos acrescentarei que, em 22 anos que a ela venho presidindo, é a primeira vez que vos dirijo a palavra sentado. Para além de poder usufruir deste privilégio episcopal (falar da cátedra e sentado) é também sinal de que aguardamos com grande serenidade, outro Bispo com as pernas mais firmes e com a mente mais ágil e que, mesmo sem ainda o conhecermos, queremos, desde já, todos sem exceção, rezar também por ele, como vimos fazendo nas nossas comunidades.
Surge, deste modo, da minha parte o pedido espontâneo para vos unirdes à minha ação de graças nesta Eucaristia, por estes vinte e dois anos e por tudo o que neles constituiu ação benfazeja de Deus, não apenas através de mim, enquanto vosso Bispo, mas através de todos vós, sem esquecer ninguém: clero, consagradas e fiéis leigos em geral, presentes e ausentes. Permiti que destaque o fato de Deus se ter servido do meu ministério episcopal, para ordenar 15 dos nossos padres mais jovens e que estão ao serviço da nossa Igreja diocesana. Quiseram fazer memória desse dom, oferecendo-me no passado dia de S. José, uma sugestiva cruz peitoral, com a significativa inscrição dos seus nomes… recordação que acolho como agradável encargo de não os esquecer na minha oração e de os trazer sempre bem perto do meu coração.
Ordenei ainda o P. Eduardo Colocho, o primeiro de todos, da Fraternidade da Mãe de Deus, incardinado na nossa Diocese, neste momento ao serviço da sua Fraternidade, em El Salvador. Ordenei ainda outros três, que depois seguiram outro caminho.
Não posso esquecer, igualmente, os cinco diáconos permanentes por mim ordenados, que juntamente com os quatro ordenados por D. Manuel Madureira servem generosamente a nossa Igreja diocesana e aos quais se uniu o Diác. Fernando António (Brasil) e, mais recentemente, em processo de integração o Diác. António Fonseca (aposentado do Patriarcado).
Uma vez que a Liturgia não só atualiza em cada tempo os mistérios que celebra, referentes ao passado, mas aponta também ao futuro, porque nos envolve naquilo que celebra, convido-vos, sobretudo a vós caros padres, a me acompanhardes nesta breve reflexão, apoiado na Primeira Carta Apostólica do Papa Leão XIV, do passado dia 8 de dezembro: Uma fidelidade que gera futuro, escrita para assinalar o 60º aniversário dos Decretos Conciliares Optatam Totius (sobre a Formação sacerdotal) e Presbyterorum ordinis (sobre o Ministério e a vida dos presbíteros).
O objetivo do Papa Leão XIV é indicar-nos, que também hoje, como ministros ordenados, somos chamados a uma fidelidade geradora de futuro, com a consciência de que perseverar na missão que nos foi confiada, dá-nos a possibilidade de nos interrogarmos sobre o futuro do nosso ministério e de ajudar outros, a experimentar a alegria da vocação sacerdotal (n. 1).
Uma vez que se trata de dois documentos “alicerçados na compreensão da Igreja como Povo de Deus peregrino na história e constituem um importante marco na reflexão sobre a natureza e missão do ministério pastoral” o Papa convida-nos a incluir as nossas comunidades cristãs na descoberta e no estudo destes dois documentos conciliares, em particular os “Seminários e todos os ambientes de preparação e formação para o ministério ordenado” (n. 2). É certo de que nestas seis décadas do pós concílio a humanidade viveu e continua a viver “mudanças que exigem uma constante revisão do caminho percorrido e uma coerente atualização dos ensinamentos conciliares”. A Igreja conduzida pelo Espírito tem procurado desenvolver a doutrina conciliar sobre a sua natureza comunitária, segundo a forma sinodal e missionária (n. 4).
Não cabe, naturalmente, numa homilia, mesmo em dia de Missa Crismal, fazer uma apresentação exaustiva do conteúdo desta Carta. Pretendo apenas despertar o desejo em todos, particularmente vós meus irmãos presbíteros, para incluirdes esta Carta Papal nas vossas leituras obrigatórias, pela sua importância, oportunidade e atualidade.
O Papa refere quatro âmbitos da fidelidade: fidelidade e serviço, fidelidade e sinodalidade, fidelidade e missão; fidelidade e futuro.
Tendo presente este enquadramento geral, gostaria de destacar, de forma transversal e muito breve, três chaves de leitura desta Carta, para melhor celebrarmos e vivermos este dia.
- Fidelidade não é repetição, mas enraizamento vivo
O Papa recorda-nos que a fidelidade não é rigidez, nem simples fixação no passado. Fidelidade é permanecer em Cristo, de tal modo que a nossa vida, como anúncio de uma permanente primavera, continue a fazer despontar botões, flores e frutos.
É isso que hoje renovamos, não simplesmente as palavras ditas um dia, mas sobretudo uma relação viva com o Senhor que continua a chamar-nos para estarmos com ele e para nos enviar, sempre de novo, em missão.
Meu caros padres, a pergunta decisiva não é: “Ainda cumpro o que prometi?”, mas sim: “ainda vivo unido Àquele com o qual me comprometi e ao qual consagrei toda a minha vida?”
Sem esta união, o nosso ministério torna-se função.
Com ela, o nosso ministério torna-se fecundo, a fecundidade do Espírito.
- Uma fidelidade que gera futuro, mesmo quando, pelo cansaço do caminho, o nosso passo se torna mais vacilante.
Vivemos tempos exigentes: envelhecimento, cansaço pastoral, diminuição do número de presbíteros, mudanças culturais profundas…
Poderíamos cair facilmente na lógica da sobrevivência ou da nostalgia.
Mas o Papa Leão XIV é muito claro: a verdadeira fidelidade é geradora de futuro. Isto significa que:
- um padre fiel não é aquele que resiste apenas, e não se desvia dos compromissos assumidos;
- mas aquele que continua a acreditar que Deus continua a agir nele e através dele.
Mesmo quando os frutos não são imediatos, mesmo quando falta o reconhecimento, mesmo quando o terreno parece árido, a fidelidade silenciosa está a preparar algo, que talvez ainda não conseguimos vislumbrar, mas que Deus fará germinar, crescer e frutificar. O nosso ministério não é o de medir resultados, apresentar estatísticas, mas garantir presença: presença de Cristo, presença do pastor, presença da misericórdia, presença da esperança.
- A unidade do presbitério como sinal credível de fidelidade
Hoje renovamos as nossas promessas sacerdotais, não individualmente como no dia da nossa ordenação, mas juntos, como grupo coral, e isso não é um detalhe. O sacerdócio recebe-se individualmente, mas nunca se vive isoladamente.
A carta do Santo Padre insiste numa fidelidade que é também eclesial, fraterna, partilhada.
Num tempo em que o individualismo se infiltra em tudo, inclusive na nossa vida pessoal e pastoral, precisamos de redescobrir e de reforçar:
- a amizade fraterna entre presbíteros, nela incluindo os diáconos permanentes e alargada aos leigos mais comprometidos nas nossas comunidades;
- o apoio mútuo, em todas as situações e circunstâncias;
- a corresponsabilidade na missão, inspirados no Documento final do Sínodo: comunhão participação missão
Um presbitério dividido enfraquece o presente e hipoteca o futuro. Um presbitério unido torna-se sinal vivo de que vale a pena seguir Cristo e dar a vida por Ele.
(Refª ao livro de D. José Tolentino Correção fraterna, oferecido a todos)
Conclusão
Meus estimados irmãos presbíteros, hoje, ao renovar as nossas promessas, não estamos a olhar para trás com saudade, mas para diante com confiança.
A fidelidade que hoje manifestamos – talvez com fragilidades, talvez com cansaços, mas também com verdade – é precisamente aquela de que Deus se serve para gerar futuro.
E esse futuro não depende apenas das nossas forças, mas da graça que recebemos, presente também nestes óleos, que hoje são consagrados: óleos que fortalecem, que curam, que enviam e são sinal e testemunho dessa ação eficaz da graça em todo o tempo.
Peçamos ao Senhor:
- a graça de uma fidelidade simples, mas perseverante;
- humilde, mas firme e generosa;
- silenciosa, mas fecunda.
Confiemos, meus irmãos, todos os nossos presbíteros, diáconos e seminaristas, à Virgem Maria. Que ela nos ajude, como Mãe fiel, a permanecer no seu Filho Jesus – permanecei em Mim e eu permanecerei em vós (Jo 15) –, apoiados num amor tão forte que dissipa as nuvens da rotina, do desânimo e da solidão; um amor total que nos é dado em plenitude em cada Eucaristia. Amor sacerdotal, amor eucarístico (n.29). É deste permanecer, que nasce a fidelidade que gera futuro também na nossa Igreja diocesana.
Faro, 02.04.2026
Manuel Quintas, Bispo do Algarve
