Arciprestado Fundão/Penamacor recebeu um dos encontros do itinerário espiritual e pastoral

Guarda, 09 mar 2026 (Ecclesia) – O bispo da Guarda refletiu na quarta catequese quaresmal, que proferiu na igreja paroquial do Fundão, no passado domingo, sobre a “relação entre ‘A justiça, a misericórdia e a caridade’”.
No encontro, D. José Pereira baseou-se em “três passagens do evangelho bastante conhecidas”: as parábolas dos trabalhadores da vinha, do bom samaritano e do filho pródigo), nas quais, segundo defende, o que determina as diferentes atitudes propostas por Jesus daquelas que mais facilmente irrompem do coração de cada um é o olhar colocado diante dos outros.
Segundo o bispo diocesano, Jesus leva à concentração noutros horizontes, isto é, a avistar “a justiça como bondade; a caridade como cuidado pronto e incondicional; a misericórdia como restauração de vida e reencontro”.
“Surge então a pergunta: porque nos é tão difícil olhar assim? Porque nos parece tão contrário ao que seria de esperar? Porque parece aos olhos dos intervenientes (e talvez dos nossos também) injusto o proceder do dono da vinha, excecional o do bom samaritano, e excessivo ou até chocante o do pai misericordioso?”, questionou.
Começando pela justiça, D. José Pereira lembrou que esta é, segundo São Tomás de Aquino, a “virtude moral constante e perpétua de dar a cada um o que lhe é devido”.
“Por ‘devido’ entende São Tomás aquilo que o direito natural e a razão reconhecem como próprio de cada um”, recordou, sublinhando que, no sentido mais comum, a palavra foi sendo substituída por “merecido”.
“Já não é o direito natural e a razão a determinarem o que é justo mas os atos praticados pelo sujeito: se dignos de merecimentos, o justo será uma recompensa; se dignos de reprovação, o justo será uma pena ou castigo”, referiu.
De acordo com o bispo da Guarda, “esta visão de justiça veio a contaminar a das outras duas realidades”, realçando que a “misericórdia passou a ser entendida como uma benevolência que leva a não dar ao sujeito, cujos atos sejam reprováveis, a pena que mereceria”.
Por seu lado, indica, “a caridade passou a ser entendida como o excesso de dar ao sujeito, que nada fez por merecer, dons a que nem outros, que os mereceriam e desejavam, tiveram acesso”.
“Dar apenas o que se merece, não dar o castigo que se merecia, e ainda dar o bem que não se merecia: justiça, misericórdia e caridade parecem assim inconciliáveis. Agora se aplicarmos este olhar, não apenas a bens transacionáveis, mas à redenção que nos resgata dos pecados (que é o foco da nossa meditação), que sentimentos despertam em nós?”, perguntou.
Na catequese quaresmal, o bispo da Guarda enfatizou que “Deus olha a pessoa e não os méritos dos seus atos”, “olha a sua situação, as suas necessidades, as ameaças que a afligem, as prisões de que não consegue libertar-se” e “toma a iniciativa: vem ao encontro de cada um e dá-lhe o que ele necessita para ser recuperado”.
“Ajustar, curar, capacitar. A esta luz, justiça, misericórdia e caridade são as bases de um tripé harmonioso, que não se opõem, antes se convocam mutuamente: Deus dá a cada um o que ele necessita para ser ajustado e curado, desde a sua situação miserável à condição de filho amado e agraciado por Deus”, salientou.
Na reflexão, D. José Pereira evocou a justiça de Deus como “justificação”, a misericórdia como “santificação” e a caridade de Deus como “salvação” de todos.
O bispo da Guarda assinalou que “Jesus não é um super-herói do passado que realizou uma obra admirável para ser louvada”, “nem um sábio do passado” que “deu o exemplo para cada um seguir na dimensão com que se identificar e na medida que conseguir”.
“Jesus é Deus feito Homem, desde então para sempre, que depois de ter vivido entre nós em seu corpo mortal, regressou ao seio do Pai e permanece misticamente presente entre nós, no seu corpo que é a Igreja e em cada um dos seres humanos, que abraçou como seus irmãos”, destacou.
“Não amamos porque somos capazes, tornamo-nos capazes porque amamos. Não é verdadeiro encolhermo-nos no caminho do amor por acharmos que não poderemos; verdadeiro é sermos alargados pelo amor, porque a Deus nada é impossível”, realçou o bispo no final da reflexão.
D. José Pereira entende que “a prática da justiça, da misericórdia e da caridade, ao jeito de Deus e tocando Cristo no outro”, tornar-se-á “caminho para se operar, no mundo e em cada um, a salvação que liberta das dinâmicas do mal e do apego ao pecado”.
O programa das catequeses quaresmais na Diocese da Guarda, com o lema “Renovai-vos e revesti-vos do homem novo”, prossegue no próximo domingo, com uma celebração agendada para as 16h00, na Igreja Paroquial do Sabugal.
A Quaresma é um tempo litúrgico de 40 dias (a contagem exclui os domingos), marcado por apelos ao jejum, partilha e penitência; serve de preparação para a Páscoa, a principal festa do calendário cristão (5 de abril, em 2026).
LJ/OC
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