Homilia do bispo do Funchal na Celebração da Paixão do Senhor

Foto: Jornal da Madeira/Duarte Gomes

São João narra a Paixão de Jesus em três grandes momentos: no Getsémani, no julgamento diante das autoridades judaicas e de Pilatos, e na cruz. Procuremos, ainda que muito brevemente, contemplar como Jesus viveu estes momentos.

1 – No Gestémani

Comecemos por notar que Jesus não é comandado por acontecimentos que não prevê. Pelo contrário, Ele sabe antecipadamente o que lhe vai suceder, tem consciência do seu caminho. Pode parecer que são os actores humanos a decidir tudo. Mas S. João nega-o: “Sabendo o que lhe ia acontecer”, diz o evangelho (cf. Jo 13,1.19; 14,29; 18,4.9; 19,28). É com toda a liberdade que Jesus vive os momentos da Paixão.

Jesus não procura escapar da Paixão; Jesus caminha, encaminha-se para a Cruz. Não o faz estoicamente, como um herói, “oferecendo o corpo às balas” perante uma inevitabilidade: vive a Paixão como Filho obediente, cumprindo as Escrituras — e cumprindo também o que anteriormente Ele próprio anunciara aos discípulos.

Jesus sofre a Paixão porque essa é a vontade do Pai, e Ele não sabe viver fora dessa vontade. Jesus experimenta os sofrimentos, a a morte, como Deus verdadeiro: “Sou Eu”, responde o Senhor àqueles que o querem prender. “Quando Jesus lhes disse: ‘Sou Eu’, recuaram e caíram por terra”. Com efeito, “Egó eimi” (Eu Sou) é o nome de Deus, nome que Jhwh tinha revelado a Moisés no monte Sinai (cf. Ex 3,14) — nome que Jesus não hesita em pronunciar e com que mostra a sua identidade, o que faz com que os seus perseguidores caiam por terra ao escutá-lo.

Jesus quer viver estes momentos com os seus, com aquele “começo da Igreja”, nos lugares habituais das suas reuniões. Depois da Última Ceia, dirige-se com eles para um jardim. E o evangelho diz que “Judas conhecia também o local, porque Jesus se reunira lá muitas vezes com os discípulos”. É necessário que os discípulos presenciem estes momentos, vejam a prisão do Mestre e partilhem com Ele a hora da Paixão.

Jesus recusa comportar-se como habitualmente fazem os chefes humanos. Recusa a fuga e a luta, recusa a espada: “Não hei-de beber o cálice que o Pai me deu?”. São outros os critérios da salvação: “Se o meu reino fosse deste mundo, os meus guardas lutariam para que eu não fosse entregue aos judeus. Mas o meu reino não é daqui”.

2 – Diante dos chefes judeus e de Pilatos

Jesus bem sabe — como sabem os chefes judeus (“É melhor que morra um só homem pelo povo”) e Pilatos (“Eis o Homem”), ainda que não atinjam plenamente o que isso significa — Jesus sabe que é “o homem”. Quer dizer: Jesus sabe que nele se resume toda a humanidade de todos os tempos; e que é necessário que aquele em quem a humanidade se resume seja capaz de viver o amor, a perfeita resposta humana a Deus, até ao fim -— plenamente, até às ultimas consequências e até ao o último momento. Como outrora o cordeiro imolado significava todo o povo de Israel, agora Jesus sabe que irá morrer não só por todo o povo como por toda a humanidade.

Perante o Sinédrio (os chefes judeus) e perante Pilatos, Jesus dá testemunho da verdade. Não fala apenas abertamente e com sinceridade. Fala como aquele em quem resplandece o ser do mundo, de toda a criação: “Sou Rei. Para isso nasci e vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz”. Pilatos, um romano mais preocupado com a resolução dos problemas, fosse a que preço fosse, de pouco se importa com a verdade: “Que é a verdade?”, interroga, num tom desdenhoso (tão comum também nos nossos dias). No entanto, a verdade encontra-se bem diante dele, não em teoria mas em Pessoa — a verdade do ser humano e a verdade de Deus.

3 – A cruz de Jesus

Na cruz, Jesus começa por nos deixar o seu testamento, ao entregar o discípulo amado a sua Mãe. Àquela que é “a Mulher”, o ser humano inteiro, sem pecado, Jesus confia os seus discípulos de todos os tempos e lugares. Pede a Maria que cuide deles, que os ensine a viver como discípulos, a ser a presença do Senhor, a anunciar o Evangelho sem desfalecer, a deixar que neles todos possam encontrar o Pai.

E ao discípulo, Jesus entrega sua Mãe. Não só como solução para a vida de uma viúva que irá em breve perder o filho, mas como quem acolhe em sua casa a “Mãe”, deixando-se transformar e ensinar por este modo de ser nova humanidade, sempre para e com Jesus.

Finalmente Jesus afirma: “Tudo está consumado”. Tudo está realizado: a sua missão foi cumprida até ao final; o amor sem desfalecimento levou a melhor sobre o pecado; a vida está pronta para vencer definitivamente a morte.

Jesus pode, por isso, “entregar o Espírito”. Entrega-o ao Pai, de quem tudo tinha recebido; entrega-O como resposta plena, perfeita — a resposta final de um homem, o novo Adão, ao Deus criador e redentor. Mas entrega-O, igualmente, aos seus discípulos (S. Lucas mostra-o claramente ao descrever o dia de Pentecostes), de modo a que estes possam, para sempre, até ao fim dos tempos, participar da vida nova que Ele oferece e que, de facto, é a sua própria vida.

Jesus morre por amor, com amor e para que o amor (a única realidade em que podemos, afinal, acreditar, e onde podemos encontrar a solução para a nossa vida) para que o amor possa, por fim, vencer o mal e o pecado, em cada um, em todos.

Olhamos para Jesus e olhamos para nós e para o mundo à nossa volta. Olhamos para o amor crucificado e entregue na cruz, e olhamos para o nosso coração e para o coração desta nossa humanidade ainda tão marcado pelo pecado e pela morte. Marcada pela guerra na Ucrânia e na Terra Santa, pela mentira, pelo ódio. E não podemos deixar de pedir ao Senhor que nos dê a graça de continuarmos, como seus discípulos amados, a acolher, junto com sua Mãe, o amor até ao fim que é o próprio Senhor Jesus, para que um dia, cada um de nós e o mundo inteiro possa também, com verdade, fazer suas as mesmas palavras de Jesus: “Tudo está consumado”.

Sé do Funchal, 3 de Abril de 2026 – D. Nuno Brás

 

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