Homilia do bispo de Santarém na celebração da Paixão do Senhor

Irmãos

A liturgia de Sexta – Feira Santa, com a centralidade da narração da Paixão do Senhor, tem a cor do martírio e revela-nos a Paciência de Cristo e a sua fidelidade ao projeto de Reino em que o Messias é pobre, mas com a capacidade de implementar no mundo, o Amor misericordioso de Deus.

Cristo da Paixão, vítima da injustiça dos homens, suportou o sofrimento da maior violência e, todavia, não manifestou revolta ou desejo de vingança. Jesus Cristo tornou-se a maior referência mundial de todos os tempos do que é viver em regime de “não violência”.

Os cristãos encontraram na narração do ‘Servo sofredor’ do Profeta Isaías o texto que bem corresponde ao que se passou com Jesus. Entretanto, em Jesus paciente e sofredor descobrimos um segredo: o silêncio. Há tantas situações difíceis na vida em que a atitude mais correta é o silêncio, a revolta não é solução, é o silêncio mesmo que haja dificuldade em fazer oração.

A morte de Jesus na cruz foi a derrota dos seus seguidores. Foi o fim da sua esperança. Porém, a cruz, sinal da morte mais infame, veio a tornar-se o símbolo da Vitória de Cristo. Vitória sobre quem? Vitória sobre o demónio, sobre o espírito do mal que arrasta homens a odiar e a destruir a vida a outros homens.

Pela morte de Jesus na cruz, de nada serve atribuir culpas a judeus e aos romanos. No percurso histórico a Igreja veio a reconhecer que foi por toda a humanidade infiel que Jesus morreu na cruz. Como rezamos no Credo: “também por nós foi crucificado sob Pôncio Pilatos; padeceu e foi sepultado”. Portanto, morreu por todos, também nós lá estávamos representados naqueles que pediam a morte de Jesus.

Na cruz, é selada a nova e eterna Aliança. O Senhor Jesus Cristo consagra a fidelidade do Amor de Deus pela humanidade. “Deus de tal modo amou o mundo que lhe deu o seu Filho unigénito, para que todo o que n’Ele crê não se perca, mas tenha vida eterna” (Jo 3,16).

É difícil entender a lógica de Deus, é uma loucura. Diante da cruz, com a imagem de Cristo crucificado, somos convidados a fazer um ato de Fé: Jesus deu a vida, morreu por amor para que seja vencido o poder do mal e da morte; não mostrou resistência, não fugiu, assumiu que tinha chegado a sua ‘Hora’.

Com Cristo, a cruz, de símbolo de morte  passou a ser símbolo da vitória do Amor. A Paixão de Cristo revela que é a força do Amor de Deus que pode salvar o mundo.

Foi no Calvário, em sofrimento por amor, que Jesus nos deu a sua Mãe. “Eis a tua Mãe”. A Virgem Maria, é-nos dada como Mãe dos novos Filhos de Deus. Mas é também exemplo e o estímulo para que a Igreja se apresente com amor de mãe junto dos que sofrem.

Dia 03 de abril 2026, Sexta-Feira Santa, D. José Traquina

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