Setúbal: Homilia da celebração da Paixão do Senhor

Foto: Ricardo Perna/Diocese de Setúbal

Queridos irmãos e irmãs,

Celebrar a Paixão do Senhor é muito mais do que reviver a sequência dos acontecimentos que acabámos de escutar. Não estamos aqui apenas para recordar um drama do passado. Estamos aqui para nos deixarmos tocar por uma realidade que continua a acontecer — na história do mundo e na história de cada um de nós.

A Palavra de Deus que hoje escutámos coloca-nos frente a frente com o mistério do sofrimento, do mal e da injustiça.

O profeta Isaías falou-nos do Servo sofredor: “desprezado e rejeitado pelos homens, homem de dores, habituado ao sofrimento”. Um rosto desfigurado, alguém de quem se desvia o olhar. E, no entanto, é por meio dele que chega a salvação: “pelas suas chagas fomos curados”.

Na Carta aos Hebreus, somos convidados a olhar para Jesus como Aquele que conhece as nossas fraquezas, que foi provado em tudo, que rezou com lágrimas, que aprendeu a obediência no sofrimento. Não temos um Deus distante. Temos um Deus que entra na nossa dor.

E o Evangelho de São João faz-nos percorrer cada passo da Paixão: a traição, a negação, a violência, a cobardia, o julgamento injusto, a condenação, a cruz.

Celebrar a Paixão de Jesus é, portanto, sermos confrontados com tudo aquilo que continua a marcar a vida humana: a injustiça, o medo, a desilusão, a violência.

Jesus sabia que iria sofrer. Mas isso não diminui a realidade da dor, nem o impacto da violência que sofreu. E é impossível escutar esta Paixão sem pensar no mundo em que vivemos.

Hoje, como naquele tempo, há sofrimento inocente. Há mães que choram os seus filhos. Há cidades destruídas. Há povos inteiros a viver na insegurança, na miséria, no medo.

Como não pensar na Ucrânia, na Terra Santa, no Médio Oriente, em África, em tantas regiões do mundo marcadas pela guerra? Como não reconhecer que, nesta mesma hora, a violência continua a escrever páginas de dor na história da humanidade?

Mas a Paixão de Jesus não acontece apenas nos grandes cenários da história. Continua a acontecer de tantas formas diferentes, tantas vezes silenciosas, tantas vezes escondidas aos olhos do mundo. Basta recordar o olhar de Noelia Castillo, a jovem espanhola que morreu recentemente, vítima da legalização da eutanásia. Quem pode duvidar do calvário que viveu, do abandono que sentiu, do sofrimento que a atravessou? Também aí somos chamados a reconhecer um grito de dor que interpela a nossa consciência, a nossa humanidade, a nossa fé.

Mas a Paixão não nos deixa apenas a olhar para fora. Obriga-nos a olhar para dentro.

Como entendemos nós o amor, à luz da Cruz de Jesus?

Onde está o amor de Deus no meio de tanto sofrimento?

E mais ainda: que lugar tem o amor nas nossas palavras, nas nossas atitudes, nas nossas relações?

O Papa desafiava-nos recentemente a “desarmar as palavras”. Talvez seja um dos caminhos mais concretos que hoje podemos assumir. Porque tantas vezes é com palavras que começamos a construir a violência: palavras que ferem, que humilham, que excluem, que matam lentamente.

E depois há outras formas de violência, que fazem parte do nosso quotidiano: a violência doméstica, os abusos, a pornografia, a exploração, a indiferença, a intolerância. Tudo isto chega até nós, entra nas nossas casas, molda a nossa forma de viver.

Seremos capazes de reconhecer, nestas realidades, a Paixão de Jesus que continua?

E depois há as perguntas mais difíceis. As mais pessoais.

Perante a Cruz, onde nos colocamos nós?

Seremos como Pedro, que nega?

Como os discípulos, que fogem?

Ou seremos capazes de permanecer, como Maria e o discípulo amado, junto à Cruz — assumindo a totalidade do sofrimento , apesar de tristes e desolados, com o coração ferido?

Talvez pensemos que nada disto tem a ver connosco. Que já não há cruzes levantadas nos montes, que ninguém nos obriga a renegar a fé, que podemos viver livremente como cristãos.

E, no entanto, a Paixão continua.

Continua nos rostos concretos de quem sofre, de quem se sente abandonado, de quem perde a esperança. Continua nas situações em que a dignidade humana é posta em causa, nas decisões que banalizam a vida, nos caminhos que deixam o ser humano sozinho diante da dor.

E continua também nas pequenas escolhas do nosso dia a dia: quando escolhemos o silêncio em vez da verdade, a indiferença em vez do compromisso, a agressividade em vez da paz.

Por isso, ganha ainda mais força o alerta deixado pelo Papa Leão XIV na sua mensagem para o último Dia Mundial da Paz, quando denuncia que, “em vez de uma cultura da memória, que preserve a consciência adquirida no século XX e não esqueça os milhões de vítimas, promovem-se campanhas de comunicação e programas educativos em escolas e universidades, bem como nos meios de comunicação social, que difundem a perceção de que se vive continuamente sob ameaça e transmitem uma noção de defesa e segurança meramente armada”.

Estas palavras são duras, mas necessárias. Porque nos recordam que a violência não começa apenas nos campos de batalha; começa também nas mentalidades, nas linguagens, nos hábitos, nas narrativas que normalizam o medo, justificam a hostilidade e fazem da força a primeira resposta.

A Cruz de Cristo revela-nos até onde vai o amor de Deus. Um amor que não responde à violência com violência. Um amor que não desiste. Um amor que se entrega totalmente.

E é diante desta Cruz que somos chamados a tomar posição.

Não com grandes discursos, mas com a vida. Desarmar as palavras.

Desmistificar os ódios. Romper com as pequenas violências que vamos aceitando como normais. Escolher, todos os dias, caminhos de reconciliação, de respeito, de cuidado.

Talvez seja este o caminho possível para a construção da paz.

Hoje, diante da Cruz, não temos todas as respostas. E talvez nem precisemos de as ter. Mas temos um sinal: Aquele que foi trespassado. E, olhando para Ele, compreendemos que o amor — mesmo ferido, mesmo crucificado — tem sempre a última palavra.

Setúbal – Dia 03 de abril, Sexta-Feira Santa
Cardeal D. Américo Aguiar

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