Fiéis Defuntos: «O luto faz-se no gerúndio, conjuga-se no gerúndio» – padre Francisco Cortês Ferreira

Neste início de novembro, lançamos um olhar particular para a celebração dos Fiéis Defuntos. É convidado da Renascença e da Agência Ecclesia o sacerdote jesuíta Francisco Cortês Ferreira, diretor da Casa da Torre, um centro de espiritualidade e cultura da Companhia de Jesus

Foto: Agência ECCLESIA/HM

Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascença) e Octávio Carmo (Ecclesia)

Começamos por falar sobre esta celebração, a comemoração dos Fiéis Defuntos, que leva milhares e milhares de pessoas aos cemitérios do país. A morte é muitas vezes entendida como um acontecimento fisiológico, mas também pode ser vista como um processo biográfico, relacional, espiritual. O que é que muda na forma de viver o luto quando acolhemos todas estas dimensões?

O luto pressupõe o amor, e ninguém ama somente aquilo que é meramente fisiológico ou biológico. Amamos tudo o que é relativo à pessoa: os modos de estar, o humor, todas as suas dimensões, mesmo aquilo que às vezes não nos convém tanto, mas que está integrado naquilo que amamos, o seu modo de olhar o mundo, etc. Por isso, o que nos foi arrancado foi esta pessoa, e não simplesmente um corpo. Amamos muito mais do que isso. Por isso, o luto e a vivência da morte dos nossos entes queridos são um preço a pagar por expormos o nosso coração. Quem expõe o coração ao amor, no fundo, arrisca-se à dor, e o luto é consequência dessa vida que foi habitada pelo amor. Envolve, por isso, toda a pessoa e não somente o corpo; daí que eu diria que muda completamente tudo.

 

A comemoração de todos os Fiéis Defuntos coloca-nos diante da memória daqueles que morreram. Como pode esta celebração impedir que a memória se transforme apenas em nostalgia e abri-la também à esperança cristã na ressurreição?

É interessante que o chamado «mês das almas» — como normalmente chamamos a novembro — comece não com o dia da celebração dos Fiéis Defuntos, mas com o Dia de Todos os Santos. No fundo, nós olhamos para estes dois dias como uma espécie de díptico, que se interpretam mutuamente. A santidade é a realização plena da nossa humanidade, e estes dois dias recordam-nos que o desejo deste nosso objetivo final é uma vida em Deus. Por isso, estão os dois mutuamente integrados e a esperança cristã está intrinsecamente ligada a ambos. O dia dos defuntos, que foram fiéis, é também uma celebração dessa fidelidade e um convite à nossa fidelidade, para que um dia nos seja dada também essa vida plena em Deus. Por isso, eu diria que não só não impede como reforça.

 

Todos nós, que estamos a conversar e os que estão a ouvir, já passámos por situações delicadas de estar com alguém que perdeu um ente querido e, normalmente, recorre-se a frases como «está tudo bem», «não te preocupes», para tentar dar algum conforto. Nestes momentos, que palavras é que podem realmente acompanhar a dor e que lugar devemos reconhecer ao silêncio?

Essa é, digamos assim, a pergunta de um milhão de euros. Eu acho que, diante da morte, antropologicamente falando, estamos sempre numa relação de anterioridade; ou seja, nós não fazemos a experiência da nossa própria morte e, por isso, é-nos tão difícil falar dela. Para além disso, a dor alheia é algo que nos desampara e, portanto, ficamos como que desajeitados. O ofício de consolar é um ofício para o qual estamos pouco treinados. Portanto, o que eu diria, do que tenho visto e acompanhado, é que importa fazer um exercício de intermitência entre a presença e o silêncio, entre o abraço e o silêncio; nos momentos de dor, são mais os afetos que vêm em nosso auxílio do que propriamente as palavras. Diria simplesmente: «eu estarei contigo». Foi aquilo que Jesus nos disse: «eu estarei convosco, eu estarei contigo». Neste momento, a promessa da presença vale mais do que a palavra desajeitada que possamos dizer. No fundo, trata-se da promessa de permanecer com a pessoa.

 

Usou aí uma expressão muito bonita, que é o «ofício de consolar». Pergunto se ela é particularmente difícil numa sociedade em que é tão raro o ofício de ficar, perante tantas solicitações quotidianas?

Nós muitas vezes entendemos ou julgamos a nossa vida, os diferentes aspetos da nossa vida e até as grandes coisas — como o amor, a tristeza, o luto, o permanecer ou até a amizade — com critérios mundanos, como a eficácia, o que resultou, o que não resultou, a produtividade; e, no fundo, aqui estamos a falar de outra coisa. Trata-se, portanto, de não julgar a experiência de luto segundo esses critérios, mas de ir para além disso, porque o luto não é algo que possa ser resolvido pela nossa palavra ou até pela nossa presença: é uma experiência de rutura, que rasga o ser da pessoa, e por isso a nossa presença é completamente gratuita, não é para resolver nada. Nem a palavra vai, alguma vez, resolver o que quer que seja. No fundo, quando estamos enlutados, estamos a fazer uma espécie de transição para um mundo no qual a pessoa que amamos já não existe, e por isso isto não é passível de ser resolvido. Vamos passando para um mundo em que a pessoa que amamos já não existe, mas continuamos a amá-la. Santo Agostinho tem uma expressão bonita nas Confissões, referindo-se à perda de um amigo: «Como é que tu morreste, se eu te continuo a amar tanto?» Portanto, estamos a falar de outra coisa: viver o luto, viver estas fases, é antes de mais dizer à pessoa «eu estou contigo»; e, da nossa parte, dizer «eu estou vivo, estou contigo, e foi-te dado viver o amor, e por isso é que sofres».

 

Nesta sociedade em que estamos a viver, que procura respostas rápidas e que por vezes também tende a esconder a nossa fragilidade, corre-se de alguma forma o risco de tratar o luto como um problema que deve ser resolvido o mais depressa possível, em vez de se tratar de um caminho que precisa de ser vivido?

Julgar estes processos segundo critérios de eficácia e produtividade acho que é condená-los a não serem vividos como devem ser vividos. Devem ser assumidos como parte integrante da história da pessoa. Porque o que acontece não é uma coisa banal, não é uma coisa como outra qualquer. De facto, a pessoa passa a viver de outra maneira: houve um mundo que existia e que deixou de existir — que era o mundo no qual a pessoa que ela amava habitava — e, ao deixar de existir, a própria pessoa tem de assumir esse rasgão e passar a viver dialogando com essa pessoa de outra maneira.

 

Falávamos num caminho, e pergunto-lhe, porque me parece importante: esta ideia de um caminho a percorrer é necessária para não se ficar preso num luto que, muitas vezes, até pode ser patológico?

Sim, o luto pode ser patológico e, por isso, há aqui uma dimensão fundamental, que é a dimensão do acompanhamento. O dia dos Fiéis Defuntos tem uma dimensão curiosa, fundamental, que é uma espécie de reconhecimento coletivo do luto: o luto deixa de ser privado naquele dia e torna-se exposto. A dor é exposta e normaliza-se naquele dia, e todos nós saimos, sofrendo, recordando as pessoas que amamos. Faz falta isso. Faz falta um acompanhamento, um diálogo, uma presença. Evitar a pressa. Saber habitar o tempo próprio do luto, ou seja, o luto faz-se no gerúndio; conjuga-se no gerúndio. Eu vou vivendo o melhor que posso, enlutado, «eu vou enlutando», digamos; não é uma coisa que se despache, bem pelo contrário, tem de se assumir, e só assumindo é que pode ser salvo.

 

Todos nós temos amigos que não são cristãos e que, às vezes, ficam um bocado surpreendidos perante as manifestações de luto de quem tem fé, dizendo: «Bem, mas se vocês têm esperança, têm fé na ressurreição, porque é que sofrem desta maneira?». Às vezes, a ideia da vida eterna parece ser apresentada como uma espécie de comprimido para as dores invisíveis, para diminuir a tristeza de quem sofre. Como é que se anuncia esta fé e esta esperança na ressurreição sem apressar o luto nem retirar o espaço às lágrimas?

Sim, isso é bem verdade: a esperança não é um analgésico, não é um comprimido; pelo contrário, é uma virtude que também é graça. Acho que é uma pergunta e uma observação legítima de quem não crê, mas também ingénua ao mesmo tempo: o cristão é humano e a dor toca-nos, como a todos. O próprio Jesus chorou diante do túmulo de Lázaro, que era seu amigo, e assumiu também essa condição tão universal que é a tristeza. O que eu acho é que há aqui uma outra questão mais importante, que é a da mensagem da esperança cristã. O problema fundamental é que não pode ser reduzida a estes momentos mais pontuais de luto ou de funeral; tem de ser um conteúdo que esteja permanentemente no discurso da Igreja. Quando estava a estudar em Paris e a fazer a minha tese sobre estes temas, recordo-me de o meu orientador me dizer que, em 40 anos de carreira, nunca tinha orientado uma tese sobre o tema da morte e de estar diante da morte. Isto dá que pensar. O discurso da esperança cristã deve ser muito mais natural e permanente do que simplesmente guardado para estes momentos. E por isso é tão pouco natural, até para o próprio crente, meditar sobre a questão da esperança.

 

Não se disserta sobre a morte nem se fala sobre ela, muitas vezes, mesmo na sociedade?

Há um historiador francês, Philippe Ariès, que diz que a partir do século XX a morte se tornou uma «morte interdita». Utiliza-se uma expressão curiosa que é: «vai morrer longe». Nós, por vezes, usamos essa expressão e, de facto, passámos a morrer longe. Passámos a morrer nos hospitais, a morrer nos lares, etc., e, portanto, a morte tornou-se interdita. Se sociologicamente e socialmente não falamos nisto, teologicamente também vai escapando ao discurso que é próprio da teologia, da escatologia. Porque, para um cristão, a morte é muito mais do que, como diz Fernando Pessoa, «uma curva na estrada»: é uma fronteira que passa a ser centro. Ou seja, é um lugar habitado por Deus, foi habitado por Jesus e, por isso, tem de ser falado. É o momento mais passivo da nossa existência e, por isso, pode ser o mais assustador.

 

E talvez, se se falasse mais dela, o fim pudesse ser menos intenso e menos doloroso?

Eu acho que haveria uma assimilação da presença da ideia da própria mortalidade, mas também daquilo que Cristo nos foi prometendo, que se tornaria muito mais à flor da pele e muito mais integrado por nós; e, por isso, viveríamos muito mais suavemente aquilo que já de si é uma luta, que é a própria morte.

 

As guerras devolvem-nos diariamente imagens de mortes violentas, vidas interrompidas e famílias enlutadas. Como é que se preserva o rosto e a história de cada pessoa, evitando que a morte seja reduzida a números ou se torne apenas mais uma imagem diante dos nossos olhos?

Isso é outra pergunta tremenda. Nós somos bombardeados por estatísticas. O algoritmo está na ordem do dia, a estatística também, e as pessoas não são estatísticas; mas, na verdade, vivemos uma espécie de apatia afetiva, socialmente falando. Tanta informação e tanta tragédia tornam-nos, de alguma maneira, insensíveis. Em relação a isso, recordo uma coisa que me disseram um dia, a propósito da I Guerra Mundial, em que, de acordo com os relatos sobre os soldados a morrer no campo de batalha, todos chamavam pela mãe. Quando penso nessas tragédias sem nome — pois são pessoas que morrem sem nome —, recordo-me destes soldados que morriam chamando pelas mães, porque, de alguma maneira, todos nós fizemos e fazemos essa experiência de ter uma mãe. Isso personaliza cada pessoa quando olhamos para estas tragédias: pensarmos que cada pessoa, tal como nós o faríamos, chamaria pela mãe no momento da morte. Portanto, é importante trazer uma certa humanidade àquilo que já de si é trágico e que, às vezes, por ser trágico, se pode tornar banal.

 

As jornadas «Sobre Viver o Luto» (20-21 de novembro, na Casa da Torre) dirigem-se a pessoas enlutadas, familiares, cuidadores, profissionais de saúde e agentes pastorais. Que instrumentos concretos espera que este encontro ofereça a quem acompanha de perto a morte, a perda e a tristeza?

Nós queremos criar um espaço, uma espécie de ambiente seguro, para que as pessoas possam dialogar, escutar, falar sobre aquilo que mais as toca e mais as angustia. No fundo, é simplesmente criar uma arena, uma espécie de poliedro em que há várias faces a olhar o mesmo centro. Vamos ter workshops dedicados às famílias em que há ruturas familiares por causa do luto, a como falar às crianças do luto, à importância da arte e da música, ao direito à tristeza, a como preparar e viver a despedida, à dimensão espiritual do luto. Ou seja, muitas dimensões do mesmo poliedro para falar de uma experiência universal que nos toca a todos, mais tarde ou mais cedo; portanto, é preciso falar dela, não podemos fugir e não há que ter medo.

 

Partilhar:
Scroll to Top