Francisco reconheceu abusos cometidos no passado e apelou a caminho de «cura e reconciliação»

Iqaluit, Canadá, 30 jul 2022 (Ecclesia) – O Papa encerrou esta sexta-feira, no aeroporto de Iqaluit, junto ao círculo polar ártico, a sua primeira viagem ao Canadá, marcada pelo ‘mea culpa’ de Francisco, perante representantes indígenas, pelos abusos cometidos no passado.

A 37ª viagem internacional do pontificado, apresentada como uma “peregrinação penitencial” iniciou-se na cidade de Edmonton, região ocidental do Canadá, onde foi recebido por autoridades dos povos nativos.

Esta primeira etapa foi totalmente dedicada às populações nativas das Primeiras Nações, Métis e Inuítes, evocando as vítimas das chamadas “escolas residenciais”, criadas pelo governo e confiadas a Igrejas cristãs, incluindo a católica.

Em vez dos habituais encontros com as autoridades civis e membros do corpo diplomático, a primeira paragem do Papa foi um encontro com os sobreviventes do sistema de ensino residencial, em Maskwacis.

Francisco fez um primeiro pedido de perdão, “pelo mal cometido por tantos cristãos contra os povos indígenas”, reforçado diante da comunidade católica.

No dia da festa litúrgica dos avós de Jesus, o Papa presidiu à primeira Missa pública, perante milhares de pessoas, evocando a importância dos antepassados.

Simbolicamente, a viagem teve uma paragem no Lago de Santa Ana, um dos locais mais importantes de peregrinação para as comunidades indígenas, na América do Norte, onde Francisco condenou os “terríveis efeitos da colonização”.

Já no Quebeque, cidade da parte oriental, decorreu o encontro com autoridades políticas, em que o pontífice reforçou as críticas às “políticas de assimilação e desvinculação” dos séculos XIX e XX, manifestando “vergonha e pesar” pela participação de muitos cristãos na opressão dos povos nativos.

Estima-se que 150 mil crianças indígenas tenham sido forçadas a frequentar escolas residenciais, um sistema de orfanato promovido pelo Governo, para a “assimilação” cultural destas populações, entre finais do século XIX e o séc. XX; mais de 60% destas escolas foram administradas pela Igreja Católica.

Em 2015, após sete anos de investigação, a Comissão de Verdade e Reconciliação do Canadá divulgou um relatório sobre escolas residenciais, revelando que entre 1890 e 1996 mais de 3 mil crianças morreram por causa de doenças, fome, frio e outros motivos.

No Santuário de Santa Ana de Beaupré, o Papa presidiu a uma Missa pela reconciliação, com participação especial de comunidades indígenas, desafiando a Igreja Católica a “sarar as feridas do passado”.

A celebração ficou marcada por um momento de protesto, no início da Eucaristia, quando dois manifestantes seguraram uma faixa pedindo o fim da “doutrina da descoberta”.

Ainda no Quebeque, perante membros do clero e de institutos religiosos, Francisco pediu perdão às vítimas de abusos sexuais por membros da Igreja ou em instituições católicas, no Canadá, assumindo que esta é uma “luta irreversível”.

Num encontro com representantes indígenas do leste do Canadá, o Papa renovou a sua mensagem em favor da reconciliação e da “busca da verdade”.

As Primeiras Nações são os povos presentes no território canadiano antes da chegada dos europeus; os Métis (mestiços) nasceram do encontro entre indígenas e europeus, tendo uma identidade específica, reconhecida oficialmente; os Inuítes são os povos das terras do norte, junto ao Ártico, conhecidos habitualmente como esquimós.

A viagem encerrou-se com uma audiência privada a sobreviventes das escolas residenciais e um encontro cultural em Iqualuit, junto ao círculo polar ártico, território dos Inuítes.

“Há pouco, ouvi vários de vós, ex-alunos das escolas residenciais: obrigado pelo que tiveram a coragem de dizer, partilhando grandes sofrimentos, que não teria imaginado. Isso reavivou em mim a indignação e a vergonha que, há meses, me acompanham. Maamianaq (perdão)”, disse Francisco, no seu discurso final.

A despedida, no aeroporto, contou com cânticos tradicionais indígenas, ao som de tambores, como aconteceu ao longo de toda a viagem, na presença da governadora-geral do Canadá, Mary Simon.

O avião descolou pelas 20h14 locais (01h14 de sábado, em Lisboa); a chegada a Roma aconteceu pelas 08h10 locais deste sábado (menos uma em Lisboa).

OC

Notícia atualizada com a hora de chegada a Roma

Francisco fez, desde 2013, 37 viagens internacionais, nas quais visitou 56 países: Brasil, Jordânia, Israel, Palestina, Coreia do Sul, Turquia, Sri Lanka, Filipinas, Equador, Bolívia, Paraguai, Cuba, Estados Unidos da América, Quénia, Uganda, República Centro-Africana, México, Arménia, Polónia, Geórgia, Azerbaijão, Suécia, Egito, Portugal, Colômbia, Mianmar, Bangladesh, Chile, Perú, Bélgica, Irlanda, Lituânia, Estónia, Letónia, Panamá, Emirados Árabes Unidos, Marrocos, Bulgária, Macedónia do Norte, Roménia, Moçambique, Madagáscar, Maurícia, Tailândia, Japão, Iraque, Eslováquia, Chipre, Grécia (após ter estado anteriormente em Lesbos),  Malta e Canadá; Estrasburgo (França) – onde esteve no Parlamento Europeu e o Conselho da Europa -, Tirana (Albânia), Sarajevo (Bósnia-Herzegovina), Genebra (Suíça) e Budapeste (Hungria), para o encerramento do Congresso Eucarístico Internacional.
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