Francisco começa viagem com gesto simbólico, assumindo «pesar, indignação e vergonha»

Maskwacis, Canadá, 25 jul 2022 (Ecclesia) – O Papa fez hoje um pedido de perdão aos povos indígenas do Canadá, no primeiro discurso da sua viagem ao país, evocando a experiência das escolas residenciais, nos séculos XIX e XX.

“Perante este mal que indigna, a Igreja ajoelha-se diante de Deus e implora o perdão para os pecados dos seus filhos. Quero reiterá-lo claramente e com vergonha: peço humildemente perdão pelo mal cometido por tantos cristãos contra os povos indígenas”, declarou Francisco, junto das populações indígenas de Maskwacis, na Província de Alberta.

Em vez dos habituais encontros com as autoridades civis e membros do corpo diplomático, a primeira paragem do Papa nesta visita ao Canadá, onde chegou no domingo, foi um encontro com os sobreviventes do sistema de ensino residencial, para crianças indígenas.

A Escola de Ermineskin foi uma das maiores em território canadiano, confiada a missionários católicos desde a sua fundação, em 1895, tendo acolhido mais de 150 mil indígenas até finais do século XX.

“Quero iniciar daqui, deste lugar tristemente evocativo, o que tenho em mente fazer: uma peregrinação penitencial. Chego às vossas terras nativas para vos exprimir, pessoalmente, o meu pesar, implorar de Deus perdão, cura e reconciliação, manifestar-vos a minha proximidade, rezar convosco e por vós”, declarou Francisco, perante milhares de participantes no encontro.

O discurso, pronunciado em espanhol, língua materna do Papa, e posteriormente traduzido em inglês, evocou as “cicatrizes de feridas ainda abertas”.

O primeiro passo desta peregrinação penitencial no meio de vós é o de renovar o meu pedido de perdão e dizer, com todo o coração, que sinto pesar: peço perdão pelas formas em que muitos cristãos, infelizmente, apoiaram a mentalidade colonizadora das potências que oprimiram os povos indígenas”.

O pedido de perdão, repetido por várias vezes, foi sublinhado pelos presentes com uma salva de palmas.

Acompanhado por sons de tambores, Francisco começou por fazer uma visita privada ao cemitério local, onde rezou em silêncio, antes de discursar perante lideranças indígenas de todo o país.

“Fazer memória das experiências devastadoras que aconteceram nas escolas residenciais impressiona, indigna e entristece, mas é necessário”, disse, na sua intervenção.

Em 2021 foram descobertas centenas de sepulturas anónimas junto de antigas escolas residenciais indígenas; várias destas instituições pertenciam à rede de escolas administrada pela Igreja Católica, destinadas à “reeducação” de crianças indígenas, com o apoio do Governo canadiano.

O sistema implementado nestes internatos, nos séculos XIX e XX, levou à supressão das línguas, cultura e espiritualidade autóctones.

“Sinto pesar. Peço perdão, em particular pelas formas em que muitos membros da Igreja e das comunidades religiosas cooperaram, inclusive através da indiferença, nos projetos de destruição cultural e assimilação forçada dos governos de então, que culminaram no sistema das escolas residenciais”, afirmou Francisco.

O Papa recordou os encontros que teve, entre março e abril, no Vaticano, com vários representantes das comunidades indígenas, nos quais recebeu, simbolicamente, dois pares de mocassins, “sinal das tribulações sofridas pelas crianças indígenas, particularmente por aquelas que, infelizmente, já não regressaram”.

“Pediram-me para restituir os mocassins quando chegasse ao Canadá; fá-lo-ei no final destas palavras, inspiradas precisamente neste símbolo que foi reavivando em mim, nos meses passados, o pesar, a indignação e a vergonha”, indicou.

Francisco convidou todos a “caminhar juntos, rezar juntos, trabalhar juntos, para que os sofrimentos do passado deem lugar a um futuro de justiça, cura e reconciliação”.

Maskwacis (“Colina do Urso”, na língua cri), a cerca de 100 quilómetros de Edmonton, onde o Papa ficou alojado na último noite, foi o local escolhido para este encontro inicial com membros das Primeiras Nações, Métis e Inuítes.

A área alberga reservas das tribos indígenas do oeste do Canadá: a Nação Ermineskin Cri, a Tribo Louis Bull, a Primeira Nação Montana e a Nação Samson Cri.

“A primeira etapa da minha peregrinação entre vós desenrola-se nesta região que conhece, desde tempos imemoriais, a presença das populações indígenas. É um território que nos fala, que permite fazer memória”, indicou Francisco.

O lugar, onde agora nos encontramos, faz repercutir em mim um grito de dor, um brado sufocado que me acompanhou nestes meses”.

O discurso, emocionado, lembrou o sofrimento das comunidades locais, provocado por “políticas de assimilação e desvinculação”, que incluíam o sistema das escolas residenciais, as quais “acabaram por marginalizar sistematicamente os povos indígenas”.

“As crianças foram submetidas a abusos físicos e verbais, psicológicos e espirituais”, reconheceu o Papa, falando em consequências “catastróficas” desta política, “incompatível com o Evangelho de Jesus Cristo”.

Francisco, que chegou ao local em cadeira de rodas, devido aos problemas que o afetam num joelho, lamentou não poder aceitar “os muitos convites” que recebeu para visitar outros centros.

“Sabei que vos tenho a todos no meu pensamento e na minha oração. Sabei que conheço o sofrimento, os traumas e os desafios dos povos indígenas em todas as regiões deste país. As minhas palavras pronunciadas ao longo deste caminho penitencial são dirigidas a todas as comunidades e pessoas nativas, que abraço de coração”, concluiu.

O Papa recebeu dos líderes indígenas um cocar, que simboliza “autoridade e confiança”.

Uma mulher indígena levantou-se, após o pedido de desculpas, e visivelmente emocionada cantou o hino nacional do Canadá, em língua cri.

Antes do encontro, o Papa tinha abençoado uma faixa com o nome de 4 mil crianças que foram levadas para as escolas residenciais, acabando por morrer ou nunca voltar às suas comunidades, num momento de oração em privado, na igreja dedicada a Nossa Senhora das Dores.

De tarde, Francisco desloca-se à Igreja do Coração de Jesus das Primeiras Nações, onde abençoa uma imagem de Santa Kateri Tekakwitha, a primeira nativa da América do Norte canonizada pela Igreja Católica.

Construída em 1913, esta igreja foi designada em 1991 como paróquia nacional das Primeiras Nações, Métis e Inuítes, albergando por isso várias peças de arte sacra criadas por artesãos indígenas.

A viagem, entre 24 e 30 de julho, vai passar pelas cidades de Edmonton, Quebeque e Iqaluit – que abriga o maior número de Inuítes, os membros da nação indígena esquimó.

OC

Os povos que habitam o território do Canadá há milhares de anos incluem três grandes grupos: as Primeiras Nações, os Métis e os Inuítes, com várias tradições e línguas.

As Primeiras Nações representam a comunidade indígena predominante do Canadá, na parte sul do território do país; os Inuítes fazem parte de um dos principais grupos que habitam a zona ártica, popularmente conhecidos como esquimós; e os Métis (mestiços), no extremo oeste do Canadá, são descendentes da união entre indígenas e europeus.

O portal ‘Vatican News’ vai transmitir os eventos ao vivo e o Governo do Canadá financiou um projeto para oferecer a interpretação simultânea dos eventos na língua de 12 povos indígenas: Algonquin, Atikamekw, Cri (do leste e da planície), Dene, Innu, Inuktitut, Michif, Mi’kmaw, Mohawk, Ojibway e Witsuwet’in.

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