Espanha: Papa aponta «verdade, justiça e reparação» como resposta a abusos sexuais na Igreja

«Cada pessoa ferida deve poder encontrar uma escuta sincera», diz Leão XIV, que se vai encontrar com grupos de vítimas

Foto: Lusa/EPA

Madrid, 08 jun 2026 (Ecclesia) – O Papa apelou hoje em Madrid a uma resposta de escuta, verdade e justiça perante os abusos sexuais cometidos por membros do clero, durante um encontro com os bispos espanhóis.

“Perante esta chaga, a comunidade eclesial é chamada a responder com a escuta, a verdade, a justiça, a reparação e um compromisso cada vez mais decidido na prevenção e na cultura do cuidado”, afirmou Leão XIV.

“Cada pessoa ferida deve poder encontrar uma escuta sincera, acolhimento, proteção e caminhos reais de cura”, referiu ainda, na sede da Conferência Episcopal Espanhola (CEE).

O Papa assumiu que esta é uma das “situações mais dolorosas” que atinge a Igreja Católica, dirigindo a sua palavra a todos os que “foram feridos precisamente por quem deveria cuidar deles, incluindo membros do clero”.

A agenda da visita a Madrid vai incluir um encontro privado com vítimas de abusos sexuais, na Nunciatura Apostólica.

A 8de janeiro deste ano, o Ministério da Justiça, a Conferência Espanhola de Religiosos e a CEE assinaram um acordo para sobre a resposta às vítimas de abusos sexuais.

O documento refere-se aos casos que “não tiveram tramitação judicial” e conta com um canal próprio, através do “defensor do Povo” – equivalente ao provedor de Justiça, em Portugal – instituição que protege e defende os direitos fundamentais e as liberdades públicas da cidadania.

Leão XIV falou aos bispos católicos das exigências da formação sacerdotal, sustentando que a manutenção das infraestruturas nunca pode prevalecer sobre a qualidade do acompanhamento vocacional.

“O critério para que os seminários sejam autênticas casas de formação é que assegurem uma adequada experiência de vida comunitária”, precisou o pontífice, exigindo o empenho de formadores totalmente dedicados a essa missão.

A intervenção destacou que a Igreja deve ser “um testemunho de unidade na pluralidade”, particularmente num “tempo de polarizações e oposições cada vez mais acentuadas”.

“A vossa missão reclama-vos custodiar a unidade, favorecer o diálogo, curar as fraturas e acompanhar o caminho do povo confiado ao vosso cuidado”, indicou o pontífice.

O Papa pediu aos bispos que evitem a tentação de se fecharem nas estruturas do passado e procurem compreender as inquietações de um “mundo secularizado”.

“Muitos homens e mulheres do nosso tempo não rejeitam simplesmente Deus; muitas vezes trazem no coração uma sede profunda de sentido, de verdade, de pertença e de esperança, mesmo quando não a sabem nomear”, observou.

Leão XIV aludiu ao caminho sinodal empreendido pela Igreja como “um processo de escuta profunda”.

“Ser capaz de reconhecer a voz de Deus que fala através da comunidade eclesial é um dos seus valores fundamentais”, precisou.

A agenda do encontro começou com a assinatura do Livro de Honra, o descerramento de uma placa comemorativa da visita apostólica e um encontro com os funcionários leigos da Conferência Episcopal Espanhola.

Depois de ter discursado esta manhã perante os membros do Parlamento Espanhol, no Congresso dos Deputados, o terceiro dia da viagem de Leão XIV à Espanha prossegue esta tarde com uma homenagem à Virgem de Almudena e o grande encontro no Estádio Santiago Bernabéu, que reúne representantes das comunidades católicas de Madrid.

OC

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