Espanha: Papa alerta para riscos da inteligência artificial, apelando a «vigilância ética rigorosa»

Discurso no Congresso dos Deputados destaca centralidade do ser humano nas decisões políticas

Foto: Vatican Media

Madrid, 08 jun 2026 (Ecclesia) – O Papa apelou hoje, no Parlamento espanhol, a um discernimento ético perante o desenvolvimento da inteligência artificial, assumindo preocupação com a sua aplicação em cenários de guerra.

“A tecnologia em si mesma não é neutra porque toma o rosto de quem a concebe, a financia, a regula e a utiliza”, afirmou Leão XIV perante os membros do Congresso dos Deputados e do Senado, reunidos numa sessão conjunta, em Madrid.

O discurso, longamente aplaudido pelos responsáveis políticos, sustentou que o desenvolvimento das novas tecnologias e da inteligência artificial no âmbito militar “exige uma vigilância ética rigorosa, para que as decisões sobre a vida e a morte nunca sejam delegadas a automatismos nem subtraídas à responsabilidade moral da pessoa humana”.

“A verdadeira segurança, pelo contrário, nasce da justiça, do diálogo paciente, do respeito pelo direito internacional e de uma política capaz de colocar a vida dos povos acima dos interesses que lucram com a guerra”, acrescentou o Papa, citando a reflexão da sua primeira encíclica, ‘Magnifica Humanitas’, publicada em maio.

Perante as transformações do nosso tempo, o nosso discernimento deve centrar-se no lugar que a pessoa humana ocupa nas nossas decisões e na forma como se colocam hoje, de maneira nova, a dignidade do trabalho, a solidariedade, a política social e o bem comum.”

Leão XIV recomendou aos decisores políticas que procurem respostas para os novos desafios que surgem “na tecnologia, na economia, na biomedicina e no universo digital, onde o poder humano alcança esferas cada vez mais delicadas da vida pessoal e social”.

“As instituições de ensino também desempenham um papel decisivo nesta tarefa. Nelas, as novas gerações podem aprender a procurar e a amar a verdade, a questionar-se sobre o sentido da vida e a dignidade de cada pessoa”, acrescentou.

A intervenção precisou que o consenso parlamentar nunca deve ser critério único para validar uma legislação.

“Uma lei não atinge a sua verdadeira grandeza pelo simples facto de ter sido formalmente aprovada; atinge-a quando, além de ser válida na sua forma, consegue enfrentar a dignidade da pessoa e sair dessa prova sem se envergonhar”, indicou o pontífice.

“Para além da legítima diversidade de posições, qualquer tarefa legislativa acaba por se deparar com uma questão decisiva: que conceção da pessoa humana inspira as leis e que tipo de sociedade essas leis constroem”, disse ainda.

A herança histórica de Espanha foi evocada através da Escola de Salamanca, recordando o contributo dos pensadores do século XVI para a reflexão sobre o valor do indivíduo.

“Introduziram assim no discernimento histórico a pergunta pelo valor irredutível de todo o ser humano e pelos limites morais do poder”, recordou Leão XIV, primeiro Papa a discursar no Parlamento espanhol.

Foto: Vatican Media

A reflexão convidou os legisladores a observar as pinturas do hemiciclo que representam a receção do Evangelho e do Decálogo, destacando que “a liberdade moderna foi preparada também por uma longa educação da consciência, profundamente marcada pela tradição cristã”.

“Que esta nobre nação nunca perca a memória das suas raízes nem a ousadia de olhar para o futuro. Que a Espanha continue a ser uma terra de encontro, de cultura, de solidariedade e de esperança. E que a sua vida pública saiba sempre aliar a firmeza das convicções à nobreza do diálogo e à grandeza do serviço”, concluiu.

O programa oficial do pontífice arrancou esta manhã na Nunciatura Apostólica com um encontro privado entre Leão XIV e o presidente do Governo de Espanha, Pedro Sánchez.

A deslocação ao Palácio das Cortes incluiu a execução dos hinos nacionais e a assinatura do Livro de Honra, antes da receção formal pelos presidentes do Congresso e do Senado, no hemiciclo.

O Papa iniciou no último sábado a sua primeira visita à Espanha, que passa ainda por Barcelona e pelo arquipélago das Canárias, até 12 de junho.

OC

Igreja/Política: Leão XIV alerta contra «polarização», em discurso inédito no Parlamento espanhol

Espanha: Papa exige resposta global para «trágico drama migratório»

 

Partilhar:
Scroll to Top