Diretor Centro de Investigação do Instituto de Estudos Políticos da UCP analisa o alcance da viagem de Leão XIV, a denúncia «consistente e transversal» da guerra, da exploração dos recursos naturais e dos migrantes, e as consequência no «voto católico» das referências de Trump ao Papa
Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascença) e Paulo Rocha (Ecclesia)
Leão XIV concluiu um périplo de 11 dias por quatro países africanos, Argélia, Camarões, Angola e Guiné Equatorial, com um forte tom de denúncia contra a lógica extrativista e uma cadeia de interesses que reduz a vida à mercadoria. Como é que avalia o peso destas palavras num continente historicamente fustigado pela exploração, pela exploração dos seus recursos, por potências estrangeiras e também por elites sociais?
Acho que há, de facto, essas duas dimensões. Há uma dimensão histórica de exploração e de um conjunto de questões associadas ao período colonial e depois há uma segunda dimensão que podíamos designar de exploração por parte de elites internas, muitas vezes corruptas.
Aliás, um problema que foi muitas vezes central no discurso do Papa Francisco, e creio que o Papa Leão procurou agora alertar simultaneamente para essas duas dimensões. Alertando para a responsabilidade dos países ocidentais, com base nesse legado histórico, mas simultaneamente não desresponsabilizando, nomeadamente as elites locais, que como sabemos, infelizmente em muitos casos prolongaram e em alguns casos até agravaram esse legado de exploração das populações locais.
E durante esta viagem assistimos também a uma polémica internacional bem evidente, com o Presidente dos Estados Unidos da América, Donald Trump, a atacar as declarações de Leão XIV a favor do multilateralismo. Surpreendeu este choque direto?
Eu acho que em relação ao presidente Trump já é difícil ter surpresa quanto ao teor e até mais ao tom das declarações.
Como é habitual, o Papa não reagiu diretamente às declarações e procurou sempre evitar entrar em diálogo direto, aliás procurou depois até alguns dias mais tarde encerrar de alguma forma o assunto, dizendo que não tinha qualquer interesse em debater com o Presidente.
E acha que conseguiu?
Acho que conseguiu marcar a sua posição. Acho que ninguém consegue direcionar o discurso do presidente Trump, mas acho que conseguiu deixar clara a sua posição e demarcar-se daquilo que também não seria, a meu ver, desejável, que seria entrar numa espécie de ping-pong com um chefe de Estado, por muito poderoso que ele seja, e neste caso até com a particularidade de serem ambos cidadãos dos Estados Unidos.
Agora, acho que aqui o ponto de facto que me parece que foi mais marcante nas declarações de Trump e que de alguma forma o Papa achou que tinha mesmo que dar um sinal, foi quando num post nas redes sociais, o presidente Trump referiu a tal ameaça de aniquilar toda uma civilização. Eu creio que aí o Papa Leão, e bem, sentiu que deveria ir um pouco além do pelo geral à paz, que é importante e que é característico do discurso não só deste Papa, mas de Papas anteriores. Mas era importante deixar marcado de alguma forma que esse tipo de discurso, ainda mais por parte de alguém que é o líder da principal potência mundial e de uma nação que é maioritariamente cristã, que era um discurso que não era de todo aceitável. Creio que terá sido essa declaração em específico mais do que a avaliação, que sabemos que é sempre complexa e nesse tipo de avaliação, como é óbvio, nenhum Papa está investido de infalibilidade na avaliação das relações internacionais, mas que essa declaração em concreto era de tal forma grave que justificava uma tomada deposição pública no sentido de que esse tipo de discurso e esse tipo de ameaça não era de todo admissível. Depois Donald Trump reagiu, como é seu hábito, pois não gosta de ser contrariado, e reagiu…
E a reação de Trump é mais contundente ainda pelo facto de serem ambos americanos?
Eu acho que esse é um fator, acho que pode ter sido um fator. E acho que Donald Trump se sente pressionado para as eleições intercalares que vai haver nos Estados Unidos em novembro, e onde tudo aponta – ainda que as coisas na política mudem rapidamente – que poderá haver uma penalização do Partido Republicano, em que não sendo eleições presidenciais terão implicações caso haja uma derrota pesada do Partido Republicano, nos últimos dois anos de mandato de Trump. Se tiver uma perda significativa poderá ficar com uma margem de manobra política muito mais reduzida na segunda metade do mandato do que tem na primeira metade do mandato com maiorias republicanas em ambas as câmaras. Portanto, há também aqui um sentimento de Trump, de que as coisas não lhe estão a correr particularmente bem no Irão. Nestas declarações do Papa admito que Trump, no seu mundo mental, as tenha sentido até como uma espécie de dupla traição. Na mente de Trump, um Papa americano não poderia ter aquele discurso. Acresce aqui um facto também importante: esta segunda eleição de Trump, depois da presidência de Biden, é uma eleição em que um dos principais fatores sociológicos que contribuiu para essa eleição foi o avanço principalmente no voto católico. Ou seja, Trump conseguiu, creio que muito por rejeição, neste caso da candidata democrata de Kamala Harris e da agenda percecionada como extremamente progressista dos democratas, Trump, com todas as suas limitações e inconsistências, conseguiu personificar alguém que – nomeadamente no voto católico mais conservador, mesmo em voto católico hispânico – conseguiu agregar mais do que outros candidatos republicanos anteriores. E, portanto, creio que aqui Trump também estará a percecionar que obviamente ter um Papa, e ainda por cima um Papa norte-americano, a ter esse tipo de declarações é algo que reforça essa tendência negativa, ainda que, como é óbvio, não é objeto nem intenção do Papa Leão estar a intervir diretamente em nenhum ato eleitoral, seja nos Estados Unidos ou em qualquer outro local.
E poderá estar em causa essa permanência de voto católico em Trump?
Nós sabemos que, do ponto de vista do voto, as mudanças são habitualmente lentas, ou seja, não há nenhum fator que nos leve a esperar que haja uma transferência maciça de voto na sequência de umas declarações, ou mesmo de algo como a guerra do Irão.
Agora, sabemos que na margem há transferências. Basta que haja uma parte significativa desse voto católico que se sinta menos mobilizado a ir votar, para que isso se repercuta em futuras eleições. Não é preciso haver transferência de voto.
E até pode ser natural que uma parte do eleitorado conservador – por via dessa interação com o Papa – se sinta menos motivada a votar num presidente que se refere desta forma ao Papa. E sublinho, o eleitorado católico conservador tenderá a ser ainda mais suscetível à forma como o Papa é tratado, independentemente da posição que possa ter no conflito do Irão. Eu acho que é importante distinguir estes dois aspetos: a posição que se pode ter sobre o conflito, e é uma matéria complexa, é uma matéria em que naturalmente o Papa, como em todos os conflitos, tem uma posição a favor da paz, mas a análise de cada caso concreto é complexa e daquilo que é a própria teoria da guerra justa estabelece que cabe aos governantes legítimos avaliar com a seriedade e a gravidade necessária as condições em cada momento; outra coisa é a forma como Trump comunica, a forma como se referiu à tal questão da aniquilação de toda uma civilização, e depois a forma como, basicamente, acho que não há outra forma de o descrever, insultou o Papa.
Esses aspetos, mesmo para quem, e haverá muitos católicos nos Estados Unidos que apoiam o presidente Trump, nomeadamente na questão do Irão, mas que ainda assim, creio que dificilmente se poderão reconhecer na forma como Trump interagiu. Aí acho que Trump acabou por prestar um mau serviço a si próprio e prestar, acima de tudo, um mau serviço ao Partido Republicano, que de facto poderá, na margem, perder votos que depois podem ser importantes nas eleições intercalares. E a confirmar-se esse mau resultado do Partido Republicano em novembro, provavelmente uma parte desse mau resultado poderá ser explicada, não pela intervenção do Papa, mas pela forma como Trump comunicou e atacou, a meu ver, de uma forma inaceitável, o Papa Leão.
Se nós quisermos olhar esta troca de ideias entre o Papa Leão XIV e o presidente Trump através dos médias, do ponto de vista estritamente filosófico e político, estaremos perante um choque profundo de matrizes ideológicas? Ou seja, o confronto entre o primado do indivíduo isolado e autossuficiente, muito presente numa certa visão política norte-americana, e o conceito de pessoa em comunidade ao serviço do bem comum, que é a base da Doutrina Social da Igreja. É isto que está em causa?
É uma leitura possível, mas parece-me que, neste caso, há talvez mais até um choque de personalidades. Acima de tudo, Donald Trump lida muito mal com qualquer tipo de contradição. O vice-presidente J.D. Vance teve também declarações bastante infelizes, mas não chegou a insultar o Papa. Se Trump tivesse ficado, apesar de tudo, nesse registo, acho que o episódio teria tido contortos menos sérios do que apesar de tudo teve. Ou, por exemplo, Marco Rubio, que tem sido até mais cauteloso. Rubio é também católico, como Vance, ainda que Vance seja uma conversão bastante mais recente. Eu acho que há aqui fundamentalmente um choque de personalidades, até porque me parece, francamente, do ponto de vista doutrinário ou ideológico, eu tenho bastante dificuldade em identificar em Donald Trump uma linha consistente que não seja…
Um certo egocentrismo….
Um certo, para ser gentil, egocentrismo. Recordo, por exemplo, que Donald Trump, há não muito tempo atrás, antes de ele próprio decidir enveredar pela carreira política, por exemplo, era um generoso doador do Partido Democrata, foi alguém que foi muito próximo da família Clinton, foi alguém que já teve posições bastante mais progressistas num conjunto de matérias sociais. Do ponto de vista ideológico ou doutrinário tenho alguma dificuldade em, agora, perante este conflito, dizer há aqui duas visões opostas. Vejo mais que há aqui duas personalidades opostas e, em particular, uma personalidade que é Donald Trump, que tem muita dificuldade em lidar com a crítica e com posições divergentes com prejuízo para os Estados Unidos, para o Partido Republicano e, de alguma forma, para o próprio mundo.
Nos seus discursos, sobretudo na Guiné Equatorial e nos Camarões, o Papa alertou para os déspotas e tiranos que subjugam o poder e tornam as populações passivas e dóceis à inércia. Olhando para a realidade das políticas públicas e da governação nestas regiões, considera que a voz da Igreja Católica pode mobilizar a sociedade civil contra o autoritarismo de regimes que se perpetuam no poder?
Considero que sim, ainda que essa postura deva ser muito cautelosa. Há aqui uma tensão permanente e que é difícil de resolver entre as autoridades que estão efetivamente no poder e com as quais é necessariamente preciso lidar num conjunto de áreas. Na governação, na própria prestação de ajuda às comunidades, na própria esfera da liberdade religiosa, que sabemos que em alguns contextos, e nomeadamente em alguns contextos africanos, está francamente ameaçada. E por outro lado, a desejabilidade de manter um discurso e de manter uma prática que de facto denuncia o autoritarismo, denuncia a corrupção, denuncia a exploração, mas que deve evitar tomar partido em cada contexto político concreto, por exemplo, por um partido, por uma fação. Por exemplo estou a pensar, até em países de língua portuguesa, em contextos de eleições recentes, em que temos vários sinais que foram fraudulentas, a posição delicada e cautelosa que as autoridades da Igreja tomam, porque simultaneamente, perante contextos políticos incertos não querem fechar completamente portas de diálogo e de interação com os poderes estabelecidos, ainda que muitas vezes, como sabemos esses poderes estabelecidos sejam ilegítimos, e muitas vezes pior ainda do que ilegítimos sejam poderes, como dizia também o Papa, que exploram e que oprimem. É que apesar de tudo podemos ter poderes não democráticos, mas que não sejam tão opressivos, como infelizmente em muitos casos são.
Eu acho que a Igreja é importante ter essa voz, mas essa voz ao mesmo tempo deve evitar cair num ativismo de fação. Às vezes eu percebo que para os próprios atores locais e para os observadores externos pode ser incómodo, ou seja, pode parecer que se está a fazer pouco. Porque é que não se vai mais longe, porque é que não se denuncia mais, porque é que não se toma partido? Mas eu acho que este juízo, que é um juízo prudencial, é um juízo sobre o qual em termos de pensamento católico não podemos estabelecer uma fórmula para cada caso, uma fórmula universal que se vá aplicar a cada caso. Vai sempre depender de um juízo prudencial, até onde se deve ir em cada caso, mas é um juízo prudencial que a meu ver tem que ponderar aqui bens diferentes. Essa necessidade de estar claramente do lado da liberdade contra a opressão dos direitos da pessoa tem que ser ponderada com a necessidade que infelizmente existe nas condições concretas e interagir com as autoridades políticas que estão no poder. E, portanto, eu creio que é uma tensão que nunca será resolúvel. É desejável que a Igreja saiba claramente de que lado está, mas simultaneamente que não caia na tal posição de ser mais uma posição de fação, mais um ativista, que eu creio que a prazo acabaria por desvalorizar e menorizar o papel da autoridade da própria Igreja.
Na região anglófona dos Camarões, Leão XIV enfrentou os senhores da guerra e denunciou que se gastam milhares de milhões em armas, mas faltam recursos para cuidar, para curar, para educar, para reerguer. Que capacidade terá este alerta de ecoar e de pressionar as instituições internacionais e os decisores políticos a mudarem de rumo?
Acho que é um alerta muito importante e mais uma vez aqui a questão da consistência, ou seja, é muito importante – e acho que o Papa Leão está a fazer isso muito bem – a perceção de que nomeadamente a denúncia da guerra é uma denúncia que é feita de forma consistente e transversal, ou seja, há aqui uma responsabilização comum a todos nós, não é um discurso que se dirija só à Rússia, só aos Estados Unidos, só à África, só à Ásia, ou seja, é um discurso a todas as circunstâncias em que, como o Papa referiu, há um conjunto enorme de recursos que são utilizados e desperdiçados, e utilizados no fundo não para o bem comum, mas para o contrário, para a destruição, para a opressão, para causar sofrimento, e salientar, e no contexto africano acho que isto é particularmente importante, porque estamos perante países, em que a generalidade da população passa por situações de carência muito significativas e que de alguma forma é ainda mais chocante que quem tem poder opte por aplicar recursos na guerra. Parece-me que é um discurso importante, e aqui com esta nota de consistência e de unidade, ou seja, não é um discurso que seja dirigido nem só aos cristãos, nem só aos não cristãos, nem só aos crentes ou aos não crentes, há aqui uma responsabilidade humana e pessoal que é universal, e que o Papa se tem, a meu ver bem, procurado salientar.
Na Argélia, perante o corpo diplomático, o Papa referiu-se ao Mediterrâneo e ao Saara exigindo o combate a quem lucra com a desgraça alheia e a proteção das rotas migratórias. Este apelo de Leão XIV é também, de alguma forma, ou de forma indireta, um recado às políticas migratórias europeias, e à forma como o Ocidente tem gerido esta crise humanitária?
Mais uma vez, eu acho que aqui o discurso do Papa é consistente, e não é um discurso dirigido nem só ao Ocidente, nem só aos países de origem destes fluxos migratórios, mas é um discurso geral.
Eu aqui permitia-me citar o Papa, e enfim, tomei nota, até porque a questão é sensível. O Papa referiu que um Estado tem o direito de estabelecer regras para as suas fronteiras, nem todos devem entrar de qualquer maneira, sem ordem, e criando por vezes situações mais injustas do que aquelas de onde partiram.
Ou seja, é preciso regularizar, não é possível ter fluxos migratórios sem controle.
Mas acrescentou, e volto a citar, o que fazemos também nos países mais ricos para mudar a situação nos países mais pobres, salientando depois também, como referiu, a gravidade da questão do tráfico humano, e propondo que temos de procurar refletir sobre como, volto a citar, procurar ajuda estatal ou também investimentos de grandes empresas multinacionais para mudar as situações em países como aqueles que se visitaram nesta viagem. Portanto, há aqui vários aspetos neste discurso que me parecem consistentes e todos eles importantes.

Eduardo Soares da Silva/Renascença
Por um lado, o alerta e o reconhecimento, e isso acho que é muito importante até do ponto de vista de procurar travar o crescimento de movimentos populistas mais radicais no Ocidente, um reconhecimento de que não é possível ter fronteiras abertas, não é possível que os fluxos migratórios não tenham regulação, e, portanto, os Estados têm direito a regular as suas fronteiras, e que essa é uma questão real que deve ser enfrentada. Simultaneamente, reconhecer as causas dos fluxos migratórios. Ou seja, perceber que é preciso atuar sobre as condições de origem, sobre as condições de desenvolvimento económico. Não cabe à Igreja, ainda que caiba aos católicos, refletir sobre isso da melhor forma e desejavelmente orientados pelos valores do bem comum, mas não cabe à Igreja propor soluções concretas de políticas públicas, mas daí o Papa ter alertado, seja pela ajuda estatal, seja pelo investimento externo, mas mudar as condições de origem e depois obviamente para as pessoas – e cada pessoa é uma pessoa com a sua dignidade – para as pessoas que independentemente da forma como chegaram, estão afetadas por essas circunstâncias, que devem ser sempre tratadas de forma humana, sem prejuízo de as migrações terem de ser reguladas. Acho que são estas as três dimensões do discurso, e as três importantes e as três dirigidas não apenas ao Ocidente, não apenas aos países de origem dos fluxos migratórios, mas a todos. E acho que a única forma de lidarmos seriamente e de forma robusta com o problema migratório é não nos focarmos só numa dimensão.
No primeiro ano de pontificado o Leão XIV esteve essencialmente no Vaticano, a cumprir um calendário muito preenchido do Jubileu, que personalidade se revelou nesta viagem ao continente africano, que liderança católica se revelou?
Parece-me que é uma liderança católica deste Papa muito marcado pela procura da unidade. Por exemplo as declarações sobre a moral sexual foram também muito nesse sentido, reafirmar a posição da Igreja, mas simultaneamente chamando a atenção, para que essas questões não devem ser questões em que discordâncias que na perspetiva do Papa não são discordâncias fundamentais, se tornem quase cismáticas, que levem a que haja aqui clivagens muito significativas. Isso é visível também do ponto de vista da questão da guerra, até do ponto de vista da questão da liturgia. Parece-me que o Papa Leão está consciente, e se calhar eu até especularia sobre o Conclave, para dizer que eventualmente a escolha do perfil do Papa Leão tenha também a ver com essa consciência da necessidade de reforçar a unidade da Igreja e a perceção de que neste momento histórico isso seria particularmente importante. E parece-me que as várias ações do Papa, daí também a sua preocupação com a consistência, que eu pelo menos identifico no tratamento das várias matérias, vão muito neste sentido.
Ele procura fazer pontes entre vários setores e sensibilidades da Igreja, e sabemos que a Igreja tem várias sensibilidades, a sua própria escala torna impossível que fosse de outra forma, isso é de alguma forma desejável, e é até um sinal da universalidade da Igreja albergar sensibilidades tão diferentes, ao contrário do que muitas vezes acontece, por exemplo, no contexto protestante, em que uma cisão gera uma nova fação, uma nova Igreja. E ao mesmo tempo procurar só em situações limite, voltando ao que falámos há pouco, as tais declarações de Trump sobre aniquilar uma civilização, foi uma exceção que o Papa entendeu que aí tinha mesmo que tomar uma posição mais assertiva e mais concreta, mas só em posições limite, estar a ir além desta procura da unidade.
E acho que esta visita à África também foi muito neste contexto. Importa recordar, ou importa salientar, que a África é o continente onde há um maior crescimento por parte da Igreja. O Papa Francisco também referiu isso várias vezes. Nós no Ocidente todos estamos muito moldados pela realidade que está mais perto de nós, e a própria história da Igreja é uma história em que o Ocidente e o Médio Oriente têm um peso maior, mas a Igreja é uma Igreja que caminha rapidamente para ser uma Igreja mais africana, e isso tem um conjunto de desafios em várias matérias, e portanto creio que aqui a visita, também a esse nível, é uma visita de procura de unidade e de reforço desta universalidade que é intrínseca à Igreja, mas que tem que ser cultivada. Eu creio que o Papa Leão está muito consciente desta necessidade.
Nós vivemos tempos de extrema polarização política à escala global, dominados pelo grito e pela lógica do quem não está comigo está contra mim. O Papa Leão XIV, tal como o Francisco, tem exercido um forte soft power assente na escuta, na diplomacia e também no acolhimento do contraditório. Considera que este método do Vaticano pode servir de lição prática e até de antídoto para a atual disfuncionalidade e crispação das nossas democracias?
É uma excelente pergunta. Eu acho que a medida em que pode servir de lição prática dependerá da abertura de coração de cada um dos líderes políticos, e, portanto, diria claramente que o contexto não é favorável a um discurso menos polarizado. O que temos visto à direita e à esquerda é que são precisamente os discursos e as posturas mais polarizadas que mais rendem eleitoralmente, e os políticos também respondem a esse contexto. Agora acho que acima de tudo o Papa está a dar um exemplo e um testemunho, como eu dizia, com essa consistência, com essa procura da unidade, até com uma certa, no modo, uma certa afabilidade. Este Papa, mesmo na forma como interage, e há coisas importantes – as palavras que usa, o tom de voz que utiliza – que há aqui uma procura de estabelecer sempre pontes com o outro e de não radicalizar, ou seja, em vez de escalar o discurso, que é algo muito comum. Ou seja, se encontro alguém no outro que discorda e imediatamente vejo como é que eu o posso insultar, como é que eu o posso menorizar, como é que eu o posso agredir, não necessariamente fisicamente, infelizmente em alguns casos limite também, mas pelo menos verbalmente, como é que eu o posso diminuir. E o Papa Leão, pelo contrário, procura não escalar, procura estabelecer pontes, procura encontrar, mesmo dentro da própria Igreja, volto às questões que foram discutidas e que ele foi falando também, algumas delas que são clivagens importantes no interior da própria Igreja, procurar encontrar pontos de contato, procurar chamar a atenção, por vezes, sem negar as diferenças, mas dizer há coisas mais importantes que nos devem unir. Ou seja, podemos estar em desacordo sobre este aspeto, mas devemos acima de tudo reconhecer que sobre aspetos mais importantes estamos de acordo, e, portanto, procurar trabalhar no sentido desses aspetos, sem ignorar as diferenças, sem deixar de falar abertamente sobre as diferenças, mas procurando impedir, entrar no tal clima generalizado de polarização, que infelizmente se tornou dominante, e não só no Ocidente.
Até que ponto vai funcionar como lição prática, não sei. O que sei é que funciona claramente como exemplo e como testemunho, e obviamente um exemplo e testemunho com o peso de ser uma figura com o peso e autoridade do Papa.
Também no que diz respeito a Portugal, e neste contexto até do 25 de Abril que celebramos?
Também no que diz respeito a Portugal. Alguma da discussão que temos tido em torno do 25 de Abril e do 25 de novembro têm também esse problema, ainda que, enfim, importa salvaguardar, repito, não há que anular as diferenças, é importante analisar, reavaliar a história, isso faz parte até da boa prática histórica, científica, não há que ter medo das discussões fundamentadas.
Agora, é importante que essa discussão seja feita na perspetiva de uma melhor compreensão e de objetivos desejavelmente comuns e não numa perspetiva de cada um, como eu referia, procurar diminuir ou insultar o outro. E eu diria que há algumas, não todas, mas há alguma da discussão que temos tido também no contexto português, infelizmente, também sofre deste problema, ou seja, uma procura quase de instrumentalização da história num sentido ou noutro para marcar pontos no curto prazo.
E nessa perspetiva é de prever um acentuar da crispação, sobretudo por força de ideias mais populistas e extremistas no nosso país?
Não sei se um acentuar, porque nós, nas últimas duas décadas, se calhar primeiro mais à esquerda, agora mais recente mais à direita, temos tido um acentuar dessa postura mais populista.
Será de manter, então, portanto?
Eu não vejo no horizonte ou a curto prazo sinais de que as coisas possam inverter a esse respeito, porque também, como dizia, em larga medida os políticos respondem a incentivos. E aqui também é importante não atirar a culpa toda para os políticos, ou seja, perceber que se há um determinado tipo de discurso…
A culpa também é de quem os elege?
A culpa é nossa também, ou seja, se há um determinado tipo de discurso, seja à esquerda, seja à direita, mais populista, mais radical, mais agressivo, que funciona, depois todos também não podemos coletivamente queixar-nos dos atores políticos que seguem esses incentivos e que, de um fundo, respondem a essa procura eleitoral. E portanto, há aqui um trabalho também de reflexão coletiva, não só da classe política, mas também por parte de todos nós, enquanto eleitores, enquanto cidadãos, sobre, de facto, o que é que nos motiva a agir civicamente, o que é que nos motiva a votar, quais os atores políticos que julgamos mais credíveis que outros, porque em última instância, especialmente em contexto democrático, e felizmente temos uma democracia consolidada, isso não é colocado em causa, temos eleições livres, que é mais do que muitos países podem dizer, e é um aspeto importante a preservar a seriedade e credibilidade do nosso sistema eleitoral, que felizmente foi uma das grandes conquistas, em particular pós 1976, e celebramos também agora esses 50 anos da Constituição. E, portanto, essa conquista, essa conquista transversal, é um aspeto de uma conquista importante para o bem comum e que não é de esquerda nem de direita, ou seja, é passarmos a ter eleições livres, que são genericamente reconhecidas como justas, mas esse trajeto passa também por uma responsabilização de todos nós, enquanto eleitores, enquanto cidadãos.

