Educação/EMRC: Professores desafiados a acompanhar alunos no digital e na Inteligência Artificial

«Há dias fiquei chocado, apresentei um aluno para ser seguido pelo psicólogo, e ele dizia: ‘não preciso, eu tenho IA’» – professor João Lopes

Fátima, 24 out 2026 (Ecclesia) – O Simpósio sobre a Educação e a Escola em Portugal, da Comissão Episcopal da Educação Cristã e Doutrina da Fé da Igreja Católica em Portugal, desafiou os professores a integrar o digital e a Inteligência Artificial acompanhado os alunos.

“Veio para ficar e temos que nos adaptar, o que eu faço é usar como ferramenta de apoio, e trabalho isso com os alunos, embora em tenra idade 10, 11, 12 anos, mas como ferramenta de apoio, nunca centrando-se só no que ela nos pode dar, porque tem tanto bom quanto perigoso. E alertar os alunos para esse facto”, disse a Sílvia Barros, professora de Educação Moral e Religiosa Católica (EMRC), à Agência ECCLESIA.

A docente de EMRC na Ribeira Brava, no Arquipélago da Madeira, assinalou que a Inteligência Artificial está a entrar dentro das casas e “muitos dos alunos não têm os pais que os orientem, que trabalham essa parte”, por isso, na escola têm também de “alertar para esses perigos”, os estudantes “nem deveriam ter acesso a algumas, nomeadamente as redes sociais”, e têm de “desmistificar e trabalhar com eles essa entrada” no digital.

João Lopes, a lecionar desde 1988, salientou que é preciso dar oportunidade aos jovens que “são muito mais que máquinas, são muito mais que telemóveis”, são pessoas, “e o futuro é deles”, mas são frágeis e, “muitas vezes, tentam esconder-se por trás de um telemóvel ou de um teclado, esconder as suas fragilidades”.

“Há dias fiquei chocado, apresentei um aluno para ser seguido pelo psicólogo, e ele dizia, ‘não preciso, eu tenho o IA, faço-lhe as perguntas todas e escuso-me de me expor, ele dá-me as respostas todas’. Repara onde nós chegámos, mas o IA certamente não lhe dá aquele aspeto afetivo, aquele apoio que nós como professores, como educadores, porque o professor de Moral é muito mais que um educador”, desenvolveu o professor de Vila Pouca de Aguiar, na Diocese de Vila Real.

A professora Sílvia Barros acrescentou que a Inteligência Artificial dá, mas “falta o gerir, falta o trabalhar, falta pô-los a pensar, a ser críticos”, e essa parte é também “um bocadinho” dos docentes, para terem alguma orientação, que “é isso assusta”.

O Simpósio sobre a Educação e a Escola em Portugal, subordinado ao tema ‘Traçar mapas educativos para uma Magnífica Humanização’, reuniu 420 participantes, numa iniciativa da Comissão Episcopal da Educação Cristã e Doutrina da Fé da Conferência Episcopal Portuguesa, nos dias 2 e 3 de outubro, no Centro Pastoral Paulo VI, em Fátima.

“A centralidade tem que estar na pessoa, na pessoa do aluno, na pessoa do educador, do docente, das famílias dos nossos alunos, tudo isso é muito importante. Portanto, quanto mais desumanização nós vimos, mais nós temos que investir na humanização das nossas escolas, começar por nós mesmos, para não nos perdermos no meio de muito ruído que sentimos à nossa volta” – Jorge Cotovio, secretário-geral da Associação Portuguesa de Escolas Católicas (APEC)

A resposta educativa não passa por rejeitar a tecnologia, mas aprender a habitá-la, a professora Liliana Ventura, de Aveiro, explicou que os seus alunos “fazem muitos trabalhos de grupo e usam os telemóveis”, apesar da proibição fora da sala de aula, “com supervisão podem utilizar” nas aulas, e refere que sabem que quando mandam “fazer os trabalhos em casa eles vão lá logo ao ChatGPT ou a outra plataforma”.

“Eu digo-lhes que devem saber que perguntas é que fazem à Inteligência Artificial, a forma como perguntam, e depois não ir diretamente àquilo, não fazer copy-paste, tentar também perceber o que é que quer dizer, o que é que aquilo lhes traz para a vida deles, para depois poderem transformar em algo mais prático, mais humanizante ou mais humanizado, para a vida deles”, desenvolveu a docente, que considera que os alunos devem usar a IA, “desde que a saibam usar”.

O padre Horácio Alves, professor na Ilha de São Miguel (Diocese de Angra), sublinha a importância das perguntas para que os alunos, “através mesmo da inteligência artificial, possam buscar e questionar aquilo que vêem”, as respostas que a IA “lhes dá, é preciso a cada resposta colocar uma nova questão e um novo saber”.

“Todos eles têm o computador e têm acesso aos manuais digitais, isso implica logo o digital dentro de sala de aula, a regra na Direção Regional de Educação dos Açores foi que as escolas têm autonomia para decidir a questão do uso ou não dos telemóveis até ao 9 ano. Portanto, temos de gerir essa questão toda do digital. A inteligência artificial, não podemos enfiar a cabeça na terra e fazer de conta que ela não existe, existe e vai continuar a existir e vamos ter de aprender a lidar com ela”, desenvolveu Sandra Santos, professora em Ponta Delgada.

O simpósio vai estar em destaque no programa ‘70X7’, deste domingo, às 06h35, na RTP2, contou com conferências, painéis, laboratórios temáticos e momentos culturais, reunindo personalidades do mundo da educação, da Igreja e da sociedade civil.

HM/CB/OC

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