Gestor executivo da Estratégia Nacional para a Integração das Pessoas em Situação de Sem-Abrigo fala do valor da proximidade e conhecimento da pessoa em situação e pobreza

Lisboa, 13 nov 2021 (Ecclesia) – Henrique Joaquim, gestor executivo da Estratégia Nacional para a Integração das Pessoas em Situação de Sem-Abrigo, afirmou que ninguém sai da pobreza “com um prato de sopa” e que é necessário “conhecer bem” a “pessoa que vive a pobreza”.

“Dois milhões de pobres são dois milhões de pessoas e todas elas são diferentes” e é preciso primeiro “conhecê-los bem”, afirmou Henrique Joaquim comentando o Inquérito às Condições de Vida e Rendimento (ICOR) que indica que estatisticamente existem cerca de dois milhões de pessoas que “estão politicamente, mais do que cientificamente, definidos em contexto de pobreza”.

Numa sessão de homenagem a Alfredo Bruto da Costa, antigo presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz, na Paróquia do Campo Grande, em Lisboa, Henrique Joaquim acrescentou que 2 milhões e 100 mil, “é uma coisa tão relativa que é muito perigoso” e “pode deixar em depressão”.

“É um quinto dos portugueses! Desses dois milhões, uma significativa parte são crianças, abaixo dos 10 anos, o que torna muitíssimo mais perigoso”, indicou o gestor executivo da Estratégia Nacional para a Integração das Pessoas em Situação de Sem-Abrigo.

Foto Agência ECCLESIA / MC

“O ICOR também se baseia num indicador que é muito volátil, que tem a ver com o nível de vida que temos e vai provavelmente baixar. Em termos de pobreza relativa daqui a dois anos estamos a dizer que temos menos pobres, o que não é necessariamente verdade”, salientou.

O antigo diretor-geral da Comunidade Vida e Paz afirmou que “é possível” não existirem pessoas na rua em Portugal, algo que a organização do Patriarcado de Lisboa já defendia em 2013, e alertou para situações excessivas de assistencialismo porque “ninguém tira ninguém da pobreza com um prato de sopa”.

Henrique Joaquim incentivou a um compromisso verdadeiro e em comunidade “com a pessoa que tem uma situação de carência” e não largar até à “emancipação, libertação”, enquanto ela “não tiver a capacidade” e chegar a altura de dizer: “Eu neste momento não preciso da tua ajuda”.

Partilhando a opinião pessoal, Henrique Joaquim considera que a “Igreja em geral” vive dois extremos, ou “muito assistencialismo” na sua ação ou a “crítica fácil, de cadeirão”, e no meio estão as pessoas, “as relações que podem ser a salvação” de todos.

“Se hoje dou muito sentido à minha vida é pelas experiências enormes que tenho de pessoas em situações de extrema carência, mas muito sentido de vida”, salientou.

Para ajudar as pessoas que estão em condição de pobreza, o especialista destaca que a Igreja tem “a vida em comunidade”, que é uma “coisa boa”, por isso é preciso compromisso “uns com os outros”.

A Igreja também precisa trabalhar ao nível político e “ter um papel muito mais proactivo” para “garantir que as políticas adotadas não geram pobreza”.

Recentemente foi apresentado o livro ‘«Que fizeste do teu irmão?» Um olhar de fé sobre a pobreza no mundo’, de Alfredo Bruto da Costa (1938-2016), destaca na sessão de homenagem na Paróquia do Campo Grande, e Henrique Joaquim citou que o cristão “ao abster-se da intervenção política demite-se do exercício consistente da caridade e da justiça”.

Este domingo, a Igreja Católica celebra o V Dia Mundial dos Pobres, com o tema ‘Sempre tereis pobres entre vós’, inspirado no Evangelho segundo São Marcos (Mc 14, 7).

CB/PR

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