Rita Valadas diz que políticas sociais têm sido construídas «com grande distanciamento» do terreno

Lisboa, 12 nov 2021 (Ecclesia) – A presidente da Cáritas Portuguesa afirmou que “é um murro no estômago” encontrar “muitas pessoas com emprego em situação de pobreza”, alertando em particular para a perpetuação destes ciclos nas famílias.

“Temos muitas pessoas com emprego em situação de pobreza, isso é um murro no estômago. E temos outra coisa, que a mim me convoca pessoalmente: um filho é uma riqueza, mas os números dizem-nos que quando uma situação de crise se instala ter um filho pode ser levar uma família para a pobreza”, disse Rita Valadas à Agência ECCLESIA, em entrevista a respeito do V Dia Mundial dos Pobres, que a Igreja Católica celebra este domingo.

A presidente da Cáritas Portuguesa comenta a expressão “elevador social”, sublinhando que nunca conheceu “nenhum”.

“Não tenho dúvida nenhuma de que a educação é uma das chaves, mas também adaptada à realidade. As políticas sociais têm sido muitas vezes construídas com grande distanciamento”, refere, observando que se a vida das crianças não mudar, “a vida dos adultos não vai mudar”.

“Se a pobreza é connosco um problema geracional, aquilo que temos de fazer é agir sobre a educação, sobre o emprego, e sobre a conjunção das políticas”, acrescenta.

No contexto da pandemia de Covid-19, a entrevistada lembra que já havia “alguma experiência” nas crises sociais mas o novo coronavírus “obrigou as pessoas a ficarem em casa impossibilitando-as de procurar alternativa” e “foi terrível”.

“Sabemos que aquela ideia do tempo dos nossos pais que quem tem emprego não é pobre, não é verdade”, alertou.

A Igreja Católica vai celebrar o V Dia Mundial dos Pobres, a 14 de novembro, com o tema ‘Sempre tereis pobres entre vós’, inspirado numa passagem do Evangelho segundo São Marcos (Mc 14, 7).

Para Rita Valadas, que trabalha na área da pobreza há 30 anos e é licenciada em Política Social, a escolha do Papa Francisco “convoca muito e até é um abanão” pela “verdade” da frase.

“Os números variam estatisticamente com algumas cosméticas, mas a realidade não conseguimos mexer na complexidade do problema. As estatísticas oscilam entre 1 milhão e 800 mil e 2 milhões e 200 mil, mas no território não sentimos grandes diferenças e com a situação da pandemia fomos abalados com mais uma situação de risco de pobreza diferente”, desenvolveu.

A entrevistada acrescenta que a pobreza “é sempre uma situação que convoca” e, claramente, nas situações de emergência “é o setor solidário que tem de avançar primeiro”, porque o Estado tem um peso diferente e quando consegue tomar alguma iniciativa “já a situação é muito crítica”.

Rita Valadas explica que a ação da Cáritas Portuguesa se situa entre “a emergência e a resiliência”, apelando a um maior investimento para evitar que, numa próxima situação de crise, se voltem a ver “as pessoas esboroar-se e as famílias não conseguirem resolver”.

O Dia Mundial dos Pobres, instituído pelo Papa Francisco há cinco anos, celebra-se anualmente no penúltimo domingo do ano litúrgico, antes da Solenidade de Cristo-Rei.

HM/CB/OC

 

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