Cultura: O diálogo circular entre o ser sacerdote e o ser artista que é fecundo para a Igreja e para o padre Christopher Sousa

Pároco de Santa Marta do Portuzelo, em Viana do Castelo, e estudante de Belas Artes na Faculdade da Universidade do Porto, procura participar no «espaço intermédio» onde a Teologia se conjuga e o trabalho artístico, marcado por uma «espiritualidade e transcendente», acontece

Foto: Agência ECCLESIA/MC

Lisboa, 20 mai 2026 (Ecclesia) – O padre Christopher Sousa, sacerdote da Diocese de Viana do Castelo e artista plástico, diz que a Igreja deve “abrir diálogo” com artistas para que estes, “mesmo sem pretensão”, se aproximem e se encontrem com o transcendente.

“Ao estudar artistas apercebo-me que há essa procura, que há essas intuições interiores. Muitas vezes artistas que nomeiam esta experiência como sendo algo, de facto, espiritual; outros que têm alguma dificuldade de o fazer porque não se querem colocar dentro de uma esfera que os limite, mas há esse trabalho interior e, neste diálogo circular, todos ganhamos”, explica à Agência ECCLESIA o pároco de Santa Marta de Portuzelo, a fazer formação na Faculdade de Belas Artes, da Universidade do Porto.

O sacerdote reconhece o “diálogo” como essencial e que a sua concretização, antes de significar pertença, “molda relações” e aproxima “diversas e plurais expressões” que, “sem pretensão”, podem acabar por encontrar “uma forma de se encontrar com o transcendente”: “Isso é o que basta”.

Nascido em Newark, em Nova Jersey, nos Estados Unidos da América, numa missão católica para onde os seus pais emigraram nos anos 80, o padre Christopher Sousa cresceu com a certeza que o desenho e a expressão artística era a sua forma de comunicação privilegiada, de brincadeira e de reflexão.

O plano seria prosseguir estudos formando-se em arquitetura, mas a participação nas Jornadas Mundiais da Juventude, em 2005, em Colónia e a viagem a França, para estar na Comunidade Ecuménica de Taizé, semeiam inquietações que conduzem-no ao seminário.

“A Teologia tem um papel condutor porque nos introduz ao mistério de Deus. E a prática artística também se coloca neste espaço do mistério. A filósofa portuguesa Maria Filomena Molder coloca o artista nesse espaço intermediário, entre aquilo que existe e aquilo que gostaria de ver, ou aquilo que sonha a existir. E, portanto, o papel do artista é ser esse intermediário entre essas duas realidades. Eu acho que a Teologia também se coloca aqui, neste mesmo espaço”, indica.

Já depois da sua ordenação, em 2013, D. Anacleto Oliveira, então bispo de Viana do Castelo, manda o padre Christopher desenvolver estudos de Belas Artes, na Faculdade da Universidade de Porto, formação que persegue atualmente, procurando equilibrar o ser pároco em Santa Marta de Portuzelo, ser professor no Colégio do Minho e artista que procura em diferentes expressões saciar a sua sede.

“Um artista tem que estar nesta constante procura. É um risco muito grande pensar que a prática artística é apenas uma produção física. É muito mais do que isso. É também um pensar. Leituras, música, exposições, tudo informa o que vou criar, e isso é necessário ao artista mas ao ser padre também”, reconhece.

Na Faculdade de Belas Artes, o padre Christopher foi desafiado a explorar algo que marcasse o seu quotidiano e utilizar a partícula de hóstia não consagrada revelou-se um caminho inaugural que o ajudou a ultrapassar “resistências” e categorias.

“Estou agora numa altura do meu percurso vocacional e também artístico, onde sinto que estou a começar a entrelaçar as duas realidades de uma forma equilibrada”, explica.

O padre Christopher Sousa prefere referir-se a expressões artísticas que falam do “espiritual e transcendente” mais do que do religioso.

“O silêncio é diálogo e, muitas vezes, é diálogo que surge de uma forma muito mais intensa no nosso íntimo do que propriamente com as palavras. E, portanto, acho que o artista também tem essa missão de interpelar o espectador para esse diálogo interno. Como padre, obviamente que a minha aspiração é que esse diálogo também se possa aproximar a Deus, mas não tenho essa pretensão. Se a minha prática artística abrir essa porta, para mim, já é o suficiente”, acrescenta.

A conversa com o padre Christopher Sousa pode ser acompanhada esta noite no programa ECCLESIA, com emissão na Antena 1, pouco depois da meia-noite, e disponibilizado no podcast «Alarga a tua tenda».

LS

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