Cónego António Rego conjuga a encíclica «Laudato Si» na sua terra natal

Ponta Delgada, Açores, 28 jul 2021 – O cónego António Rego afirmou existir nos Açores uma “gramática de Deus”, que o Papa Francisco escreveu de forma “eloquente” na encíclica «Laudato Si» e que se concretiza na natureza “verde”.

“Temos a experiência da «Casa Comum» na terra, no mar e na montanha, dos horizontes perdidos, nas neblinas. Há uma gramática de Deus espalhada por toda uma ilha, e uma ilha como esta que se chama verde, mas que tem esta cor, não exclusiva e engloba a nossa própria cor de alegria e de esperança, uma espécie de tradução dos nossos melhores sentimentos”, explica o sacerdote à Agência ECCLESIA.

Natural da ilha de São Miguel, o padre Rego afirma que tudo nos Açores é beleza e revela o transcendente.

“A sacralidade da natureza, a transcendência da natureza, a pureza da natureza – tudo isso de refere a Deus. O Papa Francisco toca de uma forma muito subtil este todo que brotou das mãos de Deus e se exprime nas árvores, na terra, no mar, nas pedras maravilhosas que vemos por aqui”, conta.

Habituado à arte de comunicar, seja com a palavra escrita ou contada, o padre há quase 60 anos, refuta a ideia de dizer os Açores como um poema; a sua descrição “não se explica, tem de se sentir – tem de nos inundar e nós temos de mergulhar em profundidade para sentimos”.

Desde as pedras negras “que parecem não ter sentido” mas onde se descobrem “desenhos admiráveis” e são “um ato de agradecimento a Deus”, ao sabor da água do mar, que, não se podendo beber, guardam um sabor especial e “oferecem toda uma sensação única”, os Açores são local “de grande respeito”.

“Pessoalmente sou muito sensível ao grande respeito que a natureza merece: as águas, montanhas, aves, contornos que nos rodeiam merecem. Somos da terra como a terra é nossa”, regista.

As «Conversas na Ecclesia», com sabor e cenário no mar dos Açores, têm como convidado o cónego António Rego, e podem ser seguidas esta semana todos os dias às 17h00 no portal da Agência ECCLESIA e pelas 22h45 na Antena 1 da rádio pública.

PR/LS

Navio

Tenho a carne dorida
Do pousar de umas aves
Que não sei de onde são:
Só sei que gostam de vida
Picada em meu coração.
Quando vêm, vêm suaves;
Partindo, tão gordas vão!

Como eu gosto de estar
Aqui na minha janela
A dar miolos às aves!
Ponho-me a olhar para o mar:
– Olha-me um navio sem rumo!
E, de vê-lo ,dá-lho a vela,
Ou sejam meus cílios tristes:
A ave e a nave, em resumo,
Aqui, na minha janela.

Vitorino Nemésio

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