Foto Jornal A Guarda/Francisco Barbeira, D. António Luciano

Caríssimos Padres e Diáconos:

Votos de muita saúde e paz em Jesus Cristo, Sumo e Eterno Sacerdote da Nova Aliança, neste dia do Sacerdócio, da Eucaristia e do Mandamento Novo do Amor, em comunhão com todos os consagrados e consagradas, com todos os leigos, vossos colaboradores na missão de ensinar, santificar e governar, com todo o povo de Deus da nossa Diocese e pessoas de boa vontade.

A alegria de sermos sacerdotes e irmãos em Cristo

Como não podemos concelebrar juntos a Eucaristia, em presbitério, na manhã de Quinta Feira Santa, na celebração habitual da Missa Crismal, devido aos condicionalismos que nos são recomendados e impostos, quer seja pelas autoridades civis e eclesiásticas, convido-vos a viver este dia em isolamento social, preventivo de um bem maior que é a saúde física, para que, através das celebrações, busquemos o remédio que cura as doenças do corpo e da alma.

Na Eucaristia Vespertina da Ceia do Senhor, vamos saborear o dom do único Sacerdócio de Cristo recebido no grau próprio do ministério diaconal, presbiteral ou episcopal.

Que seja um dia grande de comunhão presbiteral, vivido na fé e confiança, em intensa oração e unidade, em caridade autêntica, em partilha efetiva e fraterna,

Chamados a viver o mandamento novo do amor.

Acolhei estas palavras com amizade, estima e gratidão. Deixai que partilhe convosco algumas preocupações e as concretize:

A vivência desta Quaresma, tempo favorável da salvação e de uma preparação fundamental para a Páscoa, implica uma relação eclesial sólida e próxima com todo o povo de Deus.

A pandemia do Covid-19, que nos apanhou a todos desprevenidos, já em plena Quaresma, convida-nos a dar passos para não vivermos inquietos e com medo, quer o presente, quer o futuro.

Deus está connosco… Ele nunca nos abandona, nem na provação, nem na pandemia COVID-19, mas pode ter-nos encontrado desprevenidos. Junto das famílias, dos doentes, das instituições que temos sob a nossa responsabilidade, Ele está connosco. Alguns de nós podemos ter necessidades, dificuldades, mas, como irmãos, somos chamados a ser próximos e solidários uns com os outros.

O exemplo do Padre Joaquim Alves Brás, “Venerável”, sacerdote da Diocese da Guarda, pároco, diretor espiritual dos seminários, homem de fé, sábio, virtuoso, prudente, amigo e confessor de muitos padres, quando um dia fundou a Obra de Santa Zita e o Instituto Secular das Cooperadoras da Família, cujo carisma apostólico, para bem da família, está presente na nossa Diocese, dizia então às empregadas de servir: “Não vos quero ver de novas a servir e de velhas a pedir”. Grande lição ainda hoje também para nós sacerdotes e diáconos.

Nós não fizemos o voto de pobreza, mas devemos viver uma vida com sobriedade e em espírito de pobreza evangélica. O povo não vê com bons olhos um padre demasiado preso aos bens materiais ou a viver de forma indigente.

Recordo algumas palavras dos últimos papas. A honestidade e a verdade podem ser sintetizadas nesta expressão de Bento XVI: “Rigor intelectual”. Dizia-o falando aos seminaristas de Roma, mas também é importante nos nossos dias para cada um de nós. Dizia também que a transparência, a autenticidade de vida, o cumprimento das virtudes e dos deveres humanos, sacerdotais e eclesiais é que nos ajudam a ser bons ministros. Não basta ter sido ordenado padre para ser um bom padre, mas tem que sê-lo na dimensão integral da sua vida e da sua pessoa.

Como refere o Papa Francisco, o padre têm que ser integro, casto, obediente, acolhedor, próximo, compassivo, de relações sadias, sem aparência de vida ambígua, sério e respeitador dos outros, sem autoritarismo ou arrogância; não deve ser egoísta e mentiroso, mas alguém que compreende, que ama, que escuta, que é compassivo e misericordioso, cumpridor da sua missão, pelo exemplo e pelo testemunho de vida sacerdotal; que procura em cada dia uma consciência reta e bem formada.

Em dias muito difíceis para todos, quero dar-vos os meus parabéns por tantas iniciativas e generosidade a favor do povo de Deus. O pastor isolado e separado da comunidade, porque “tem que ficar em casa” em “isolamento sanitário”, é chamado a manter-se unido ao seu povo, quer na tristeza, na dor e nas esperanças.

Este tempo de provação, de exílio, só junto de Jesus tem sentido, pois, permanecendo com o Senhor e servindo os irmãos, entenderemos verdadeiramente que Deus não falta, não falha e não desilude ninguém. Gostaria de, com um coração de pai, de irmão e de amigo, dizer-vos que vos amo muito e vos quero bem. Nestes tempos difíceis, estou unido a todos.

 

O Senhor Jesus, único Sacerdote, amou-nos e deu a vida por nós.

Jesus ama-nos muito como sacerdotes e pede-nos que, neste dia de Quinta-Feira Santa, não podendo reunir-nos para celebrar juntos a Missa Crismal e renovar as Promessas Sacerdotais, o façamos espiritualmente.

Encontrei este meio de estar hoje convosco, desafiando-vos a crescer na comunhão, na unidade e na fraternidade sacramental e presbiteral.

Neste espírito de comunhão, unidos a todos os membros do Povo de Deus, experimentamos a graça de sermos chamados a um caminho de santidade.

O sacerdote é um discípulo feliz e fiel ao seu Mestre e Pastor.

Um discípulo missionário, o sacerdote, deve viver e sentir o caminho da santidade na alegria de seguir e servir o seu Mestre e Senhor, imitando as Suas virtudes.

O tempo da provação é propício para crescer na fé e na fidelidade no ministério. Neste dia de Quinta-Feira Santa, celebrando o dom do sacerdócio, não reunidos a volta do mesmo altar, saboreamos de um outro modo as maravilhas do Senhor no dom que Ele é para cada um de nós.

O exercício do ministério sacerdotal chama-nos a santificar-nos, a viver juntos a comunhão fraterna, servindo o nosso povo na prática do mandamento novo do amor. A raiz da nossa vocação assenta no sacramento do Batismo. Por isso a nossa vocação sacerdotal é um dom e um mistério.

Sacerdotes, unidos em comunhão e fraternidade sacramental, testemunham a Páscoa.

A comunhão, a unidade sacramental e presbiteral é um dom salvífico de Deus, da nossa parte sempre imerecido: “Não fostes vós que Me escolhestes, fui Eu que vos escolhi…”. Um barro frágil nas mãos de Deus. Por isso, espiritualmente, devemos empregar os meios que estão ao nosso alcance.

Nestes dias, lembramos os frágeis, os pobres, os vulneráveis, os doentes, as vítimas do COVID-19, os que morreram, as suas famílias em solidão, as autoridades civis e outras, os profissionais de saúde, os voluntários e todos os benfeitores anónimos da sociedade e da humanidade.

Ficar em casa, em eucaristia, em ação de graças e em louvor, ajuda-nos a rezar a seguinte antífona: “Ó Sagrado Banquete em que se recebe Cristo e se comemora a Sua Paixão; em que a alma se enche de graça e nos é dado o penhor da futura glória”.

Em Cristo Ressuscitado, nosso Cordeiro Pascal, nosso Bom Pastor, desejo a cada um de vós, às vossas família e comunidade, Santas Festas Pascais.

D. António Luciano dos Santos Costa, Bispo de Viseu

Quinta-Feira Santa, Viseu, 9 de abril de 2020

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