A velhice é um dom de Deus

Caríssimos Cristãos, Idosos e Idosas da Diocese de Bragança-Miranda

Neste Ano da visita pastoral à Diaconia da Caridade, especialmente às IPSS canónicas, dirijo-me a cada um de vós, de coração próximo, com uma palavra de estima e de gratidão e, gostaria que fosse também, de estímulo e de encorajamento na esperança.

Damos imensas graças a Deus pelo dom da vida de cada um de vós e por tudo o que ela significa no dinamismo da nossa Diocese de Bragança-Miranda.

Na Bíblia, a velhice é encarada como uma bênção e um dom de Deus, manifestação de estima por parte do Senhor. No entanto esta bênção está associada a uma vida segundo o temor e o amor, uma vez que «o temor do Senhor alegra o coração, dá alegria, felicidade e longa vida» (Sir 1, 11). Os grandes Patriarcas do Antigo Testamento passaram pelos anos, e foram-se fortificando como árvores fecundas, deixando à sua sombra sementes para o futuro.

É certo que na sociedade contemporânea nos deparamos com uma mentalidade em que não é tão valorizada a velhice a qual, não raro, se torna objeto de contradição, tida como um “incómodo”, como uma declinante fase da vida. Neste tipo de mentalidade, à velhice aparece associada a doença, a debilidade, a incapacidade e, por conseguinte, a improdutividade. Chocam-nos as manifestações de desprezo de idosos, o abandono destes em casa ou em lares, muitos dos quais apenas perseguindo o lucro económico, não considerando nem promovendo o capital de vida e de conhecimento experimentado que pulsa em cada um de vós.

Mas, queridos amigos e amigas, a partir do Coração do Bom Pastor a vida de cada um de nós é uma preciosidade única, sujeito de um amor levado até ao extremo (cf Jo 13,1), porque o Bom Pastor dá a vida pelas suas ovelhas (Jo 10, 11).

O facto de não sentirdes no vosso corpo o mesmo vigor e energia de outrora, o terdes deixado de exercer aquelas atividades pelas quais fostes reconhecidos ao longo dos anos não significa, de modo nenhum, que tenha cessado a vossa responsabilidade e já não possais prestar o vosso contributo para a construção de uma sociedade mais justa, mais pacífica e mais fraterna. Muito pelo contrário! No percurso da fé, sois enriquecidos por aquela experiência dos anos que promove a maturidade de vida; vós sois aqueles que, no trabalho da vinha do Senhor, que é a sua Igreja, suportais o «peso do dia e do calor» (Mt 20, 12), e também um mais apurado sentido para saborear a alegria da colheita.

O Papa Francisco lembra que «a velhice é a sede da sabedoria da vida. Os velhos têm a sabedoria de ter caminhado na vida», e convida a oferecer esta sabedoria às novas gerações, porque o coração não envelhece: «Como o vinho bom, que com os anos se torna melhor, dêmos aos jovens a sabedoria da vida».

Também eu ousaria dar-vos semelhante conselho. A palavra invalidez não pode, de modo nenhum, caracterizar esta fase da vossa vida, simplesmente porque esta palavra não pode caracterizar aqueles que amam. Só o amor nos faz úteis, só o amor valida os nossos pensamentos, sentimentos e ações. Por isso convido-vos a um amor fiel, já que a fidelidade é o amor que vence o tempo.

Na Visita Pastoral, em vossas casas ou nas casas da Diaconia da Caridade da Igreja e em tantas outras ocasiões, tenho tido a oportunidade de me encontrar com muitos de vós, de visitar as vossas alegrias, de acolher os vossos desabafos, de me sentir interpelado e solidário com os vossos sofrimentos e apreensões. Agradeço de todo o coração o vosso testemunho, pois tenho aprendido muito convosco. Bem hajam!

Sabei que vos lembro com carinho, e apresento ao Senhor, com particular atenção, todos os que viveis em situação de doença e maior fragilidade física, os que experimentais a solidão e a incompreensão, a frieza das distâncias, os efeitos da pobreza, os temores e as incertezas perante o amanhã. Recordo-vos que a luz de cada dia está acesa pela força da Ressurreição, desde aquela manhã de Páscoa em que a grande notícia ecoou do sepulcro aberto: «Cristo ressuscitou. Aleluia!» Nesta boa e feliz notícia habita a nossa esperança.

Queridos amigos e amigas, recordo-vos que «se alguém está em Cristo, é uma nova criação» (2 Cor 5, 17). Cristo é a garantia da juventude da alma. Deus dá-nos a capacidade de regenerar a nossa esperança na fonte do seu amor. E esta palavra que vos deixo não é como uma esmola fria ou um consolo sem consequências. Lembro-me de tantos de vós que vivem a cruz da solidão e do sofrimento com um sentido redentor, exemplos luminosos nos quais a Palavra do Senhor é uma força que dá sentido à existência. Agradeço-vos, do coração, este testemunho de sabedoria e registo na mente e no coração os momentos felizes em que pude sentir-me enriquecido com a vossa fé e perseverança.

O Senhor Jesus Cristo e a Igreja continuam a desafiar-vos à vigilância da fidelidade, mesmo se este convite é feito no meio da fragilidade humana. Como S. Paulo, possais experimentar, através das limitações físicas, a alegria de completar «na carne o que falta às tribulações de Cristo, pelo seu Corpo, que é a Igreja» (Col 1, 24). Sede sentinelas deste nosso mundo em peregrinação para a plenitude que só se alcança em Deus; agi nele com aquele poder invencível que nos vem do amor, com aquela misteriosa força que é a oração.

Continuo a contar muito com a vossa inestimável colaboração na comunhão crente e orante e faço votos por que os anos que o Senhor vos conceder possam ser plenos de sentido, imersos no tempo de Deus, o tempo inabalavelmente novo da salvação. Que, pela sua infinita misericórdia, o Senhor venha em vosso auxílio com a graça do Espírito Santo (cf. Liturgia).

A cada um de vós, com a bênção de Deus, saudações muito cordiais.

Bragança, 21 de março de 2019, Trânsito de S. Bento, Padreiro da nossa Diocese.

+ José, Bispo de Bragança-Miranda

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