O Espírito de Deus continua a fecundar a Igreja

Foto: Diocese de Aveiro

 

O Espírito do Senhor me ungiu e me enviou a anunciar a Boa Nova (Lc 4,16-21

O texto da sinagoga de Nazaré diz-nos que o Espírito de Deus está presente no início da vida pública de Jesus, tal como tinha estado na Anunciação, no Batismo, nas tentações do deserto, na sua Paixão, Morte e Ressurreição, e na vida da Igreja – lembremos o Pentecostes e o modo como o Espírito conduz a obra de evangelização das primeiras comunidades cristãs.

S. Lucas nos últimos versículos do seu Evangelho, e depois de Jesus ter conduzido os seus discípulos até Betânia, diz-nos que eles se prostraram diante d`Ele, reconhecendo-O como Senhor; voltaram para Jerusalém cheios de alegria para esperar o cumprimento da promessa feita por Jesus – “Eu vou mandar sobre vós o que meu Pai prometeu”; e, como testemunhas da ressurreição, “estavam continuamente no templo a louvar a Deus” (Lc 24, 53).

É do mandato missionário do Ressuscitado que nascem as ações próprias do novo zelo evangelizador a que todos somos chamados: “Proclamai o Evangelho a toda a criatura” (Mc 16, 15), “Ide e fazei discípulos em todas as nações” (Mt 28, 19-20), “sereis minhas testemunhas” (At 1, 8), “fazei isto em memória de mim” (Lc 22, 19) e “que vos ameis uns aos outros” (Jo 15, 12).

 

O tempo de pandemia que vivemos

Têm sido vários os diagnósticos feitos à vida cristã, às nossas paróquias e até à própria Igreja vista na sua vocação universal. Perante uma crise, seja ela qual for, a ideia é que ao passarmos por ela, sai-se melhor ou pior, mas nunca igual.

O nosso presbitério, neste tempo de crise, reinventou formas novas de comunicação do Evangelho, de presença junto dos mais isolados e fragilizados, mas também sofreu com os que partiram sem o carinho dos seus familiares e amigos; e as feridas continuam abertas à espera do bálsamo da amizade e da fé. Sofremos também com a precariedade de tantos trabalhadores com um futuro incerto e com as dificuldades económicas que nos impedem socorrer quem precisa e merece na sua dignidade. É perante tudo isto que devemos abrir as portas das nossas igrejas para sairmos ao encontro daqueles que clamam por justiça e dignidade. Esta crise pandémica, social e económica pôs a descoberto muitas fragilidades da sociedade e até da Igreja: os pobres continuam mais pobres, enquanto outros passam pela crise como se nada fosse com eles. As notícias dos meios de comunicação social referem diferenças salariais gritantes, corrupção que nos envergonha e uma sociedade mais desigual, a par de gestos altruístas de tantos profissionais de saúde, de empresários que lutam por manter os postos de trabalho e de tantos voluntários que vão minorando o sofrimento, dando esperanças àqueles que a perderam. Reconheçamos que Cristo nos sai ao encontro nos nossos irmãos.

 

Ser sacerdote em tempos de crise

A mensagem para o Dia Mundial de Oração pelas Vocações de Consagração – S. José: o sonho da vocação – sintetiza em três palavras o que julgo ser importante para a nossa vida: sonho, serviço e fidelidade.

       Sonho com uma conversão pastoral e missionária que não pode deixar as coisas como estão. Neste momento, não nos serve uma “simples administração”, mas estarmos em “estado permanente de missão”. É necessário, acima de tudo, anunciar a Boa Nova, estimular e fortalecer a formação dos cristãos.

Sonho com um presbitério onde a unidade e a comunhão entre os que abraçaram a mesma vocação sejam um desafio permanente. Este aspeto do nosso ministério constitui, por si mesmo, um amplo programa de vida para nós. Aos presbíteros, aos diáconos e aos consagrados é pedido que aprendamos a trabalhar juntos.

Sonho com uma pastoral familiar onde a família seja não só destinatária da ação pastoral da Igreja, mas também protagonista dessa missão. A fragilização progressiva da família como primeira comunidade transmissora da fé é motivo de atenção, pois o bem da família é decisivo para o futuro do mundo e da Igreja. O “Ano Amoris Laetitia”, pedido pelo Papa Francisco nos cinco anos de publicação da Exortação Apostólica A Alegria do Amor, é um desafio para as nossas paróquias e para uma atenção redobrada a todas as famílias que nelas vivam. Não fique nenhuma paróquia sem que seja constituído um pequeno grupo de famílias que esteja atento às outras famílias. Não basta cuidar das famílias, é preciso envolver as famílias.

O serviço, como expressão concreta do dom de si mesmo, não foi para S. José apenas um alto ideal, mas tornou-se regra de vida diária. Ele adaptou-se às várias circunstâncias de vida da família com a atitude de quem não desanima se a vida não lhe corre como queria, mas sim com a disponibilidade de quem vive para servir.

Neste momento, agradecemos a dedicação e o serviço dos sacerdotes que este ano celebram jubileus sacerdotais: o padre Mário de Oliveira Nunes, sessenta anos de ordenação sacerdotal (01-01-1961) e os vinte e cinco anos de ordenação dos padres Albino Valente de Anjos (07-01-1996), incadirnado no nosso presbitério, mas membro da Sociedade Missionária da Boa Nova, Armando Batista da Silva (14-07-2021), membro da Congregação dos Sacerdotes do Sagrado Coração de Jesus e o padre João Carlos de Almeida Carvalho (14-07-2021), incardinado no nosso presbitério.

Hoje não podemos esquecer aqueles que deixaram de estar presentes no nosso convívio, mas que o celebram connosco no regaço de Deus. Os padres Abraão da Costa Lopes (21-07-2020), José Manuel Marques Pereira (18-08-2020), João Gonçalves (08-12-2020), Arménio Pires Dias (18-02-2021) e o Diácono Manuel Pereira Gomes (20-02-2021). Que eles sejam agora nossos intercessores, para que saibamos responder aos desafios que se nos deparam na construção do reino de Deus.

A fidelidade, em S. José, corresponde à laboriosidade calma e constante com que desempenhou a profissão humilde de carpinteiro (cf. Mt 13, 55), pela qual inspirou, não as crónicas da época, mas a vida quotidiana de cada pai, cada trabalhador, cada cristão ao longo dos séculos. A vocação, como a vida, só amadurece através da fidelidade de cada dia.

A fidelidade pedida a cada um de nós exige abrir caminhos novos ao anúncio do Evangelho: dedicar mais tempo à oração e à intimidade com Deus; ter em conta a construção progressiva da identidade cristã, assumida como caminho de santidade; evangelizar o coração da cultura, que é, simultanea-mente, chamamento a deixarmos evangelizar o nosso coração sacerdotal, a nossa vida consagrada e a nossa vocação ministerial.

No final desta celebração será distribuído a cada um dos sacerdotes e diáconos o livro “Chamados a seguir Jesus nos caminhos da vida”, que recolhe as homilias e as reflexões de carácter sacerdotal feitas por mim ao longo destes quase sete anos de exercício de ministério episcopal entre vós. Como referi recentemente, este livro tem uma história. Se não fosse a pandemia que estamos a viver, o ano pastoral de 2020/2021 seria dedicado às vocações de consagração, englobando as vocações sacerdotais, religiosas e outras formas de vida consagrada. Fruto da Covid-19 e a proposta que o Papa Francisco faz a toda a Igreja com o “Ano Amoris laetitia”, tivemos de adiar esta temática. Eu não podia ficar de braços cruzados perante um tema tão relevante para a vida das nossas paróquias e da Diocese, e que urge continuar, porque ele é transversal a toda a pastoral. Se quisermos uma nova cultura vocacional temos de trabalhar mais com os jovens e reforçar a vida comunitária na Diocese, porque não há vocações onde não existe vida comunitária – esta é a melhor base para que haja vocações de consagração. Este livro pode também ajudar na caminhada que estamos a fazer até ao próximo Dia Mundial de Oração pela Santificação dos Sacerdotes, na solenidade do Sagrado Coração de Jesus, e nas conclusões a tomar para a Diocese e para o presbitério, fruto do inquérito que estamos a realizar ao clero.

“Levanta-te, toma o Menino e sua mãe” (Mt 2, 13), diz o anjo a S. José. Imploremos a graça das graças: a nossa conversão e a das nossas comunidades cristãs. Dirijamos-lhe a nossa oração:

 

Salve, guardião do Redentor

e esposo da Virgem Maria!

A vós, Deus confiou o seu Filho;

em vós, Maria depositou a sua confiança;

convosco, Cristo tornou-Se homem.

 

Ó Bem-aventurado José, mostrai-vos pai também para nós

e guiai-nos no caminho da vida.

Alcançai-nos graça, misericórdia e coragem,

e defendei-nos de todo o mal. Amen.

 

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Catedral de Aveiro, 01 de abril de 2021

D. António Manuel Moiteiro Ramos

Bispo de Aveiro

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