Até quando vamos contar vítimas?

Leonor João, Agência ECCLESIA

É uma epidemia e, infelizmente, os números indicam que não abranda. Falo da violência doméstica, que nas últimas semanas voltou a ganhar espaço mediático com a divulgação de crimes que deixam qualquer um inquieto e mostram que este se mantém um problema estrutural, sem respostas eficazes e, muitas vezes, presente na casa ao lado, sem que nada o fizesse prever (ou não).

‘Pai e filha morreram após caírem de um prédio’. A notícia era anunciada desta forma na televisão. A pouco e pouco, mais dados começaram a surgir. O homem, com antecedentes de violência doméstica, tinha saltado com a menor de quatro anos do oitavo andar, depois de uma discussão com a mãe da criança. O caso aconteceu dias depois do homicídio de uma menina de oito anos perpetrado pela madrasta, levantando questões sobre a proteção de menores em risco.

Foi uma semana particularmente sombria para as crianças em Portugal, que foram vítimas de quem as deveria cuidar, amar e proteger. Ao invés disso, foram usadas como arma de arremesso para ferir o outro. Aquele que deveria ser um período de alegria, brincadeiras, descobertas e aprendizagem – a infância – é, por outro lado, para muitos, um tempo de terror, maus-tratos, sofrimento e medo, que deixa marcas profundas (nem sempre físicas) para a vida.

Basta lembrar o caso do bombeiro de Machico, na Madeira, que foi filmado a agredir a mulher à frente do filho menor, gerando forte contestação pública. “Por favor, não, pai”. As súplicas do rapaz de nove anos que chorava enquanto tentava proteger a mãe desencadearam a partilha de histórias de abusos por parte de vários utilizadores das redes sociais, mostrando que o trauma permanece.

Desde o início do ano, quatro crianças morreram em contexto de violência doméstica em Portugal. Ainda sem entrar no segundo semestre, 2026 já igualou o registo de 2022 como o mais mortal para menores, neste âmbito, desde 2019, segundo o Jornal de Notícias. As estatísticas assustam, revoltam, fazem soar os alarmes e deveriam não só obrigar a refletir sobre o que está a falhar, mas a agir para travar este flagelo que destrói vidas.

Quantos destes casos estavam sinalizados e acabaram com o mesmo desfecho trágico? Que sinais foram dados e ninguém reparou? Quantas vítimas sofreram em silêncio à espera de apoio? É urgente quebrar o ciclo de violência e tomar medidas para evitar novas tragédias. Estamos a falhar enquanto sociedade quando não protegemos os mais frágeis.

(Os artigos de opinião publicados na secção ‘Opinião’ e ‘Rubricas’ do portal da Agência Ecclesia são da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)

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