«Lançou as bases de uma coisa nova que não podemos deixar perder» – Padre Jorge Teixeira da Cunha

Angra do Heroísmo, Açores, 096 jul 2026 (Ecclesia) – As Jornadas da Associação de Teólogos Ibéricos para o Estudo da Moral (ATIEM) refletiram sobre a ‘Teologia Moral do Papa Francisco: azeite e vinho sobre as feridas do mundo’, segunda e terça-feira, em Ponta Delgada, na Diocese de Angra.
“O Papa Francisco, não sendo já o Papa da Igreja, lançou as bases de um crescimento e de uma forma de fazer Teologia Moral e de exprimir as exigências éticas da fé de uma forma absolutamente inovadora”, disse o presidente da ATIEM, citado, esta quarta-feira, pelo portal online ‘Igreja Açores’ da Diocese de Angra.
As Jornadas da Associação de Teólogos Ibéricos para o Estudo da Moral, que se realizam se dois em dois anos, reuniram padres e leigos, teólogos moralistas de Portugal e Espanha, no tema ‘O caminhar da Teologia Moral do Papa Francisco: azeite e vinho sobre as feridas do mundo’, nos dias 6 e 7 de julho, no Centro Pastoral Pio XII, em Ponta Delgada (Açores).
“Nós hoje temos outro mestre e outra forma de estar, mas o Papa Francisco lançou as bases de uma coisa nova que não podemos deixar perder”, acrescentou o padre Jorge Teixeira da Cunha.
As jornadas decorreram em formato de laboratório de reflexão, procuraram identificar os desafios e as perspetivas abertas de Francisco nos seus principais documentos, e convergiram na necessidade de uma Teologia Moral que ultrapasse uma lógica meramente normativa para privilegiar o acompanhamento, o discernimento e a proximidade.
O regresso a uma Igreja samaritana, proposto pelo Papa Francisco, assente numa ética do cuidado, da escuta e da misericórdia, poderá constituir uma resposta concreta às grandes feridas da sociedade e da própria Igreja, renovação que exige que a comunidade cristã tenha como referência o Cristo sofredor, foi a principal conclusão das Jornadas da ATIEM, lê-se no sítio ‘Igreja Açores’.
Para o presidente da Associação de Teólogos Ibéricos a credibilidade da Igreja nunca dependeu do seu poder institucional, mas da identificação com os mais vulneráveis, a missão da Igreja permanece intacta, apesar da crise provocada pelos abusos sexuais, “uma crise de crescimento ético da humanidade”, porque “o Cristo continua a ser salvador, mesmo quando a Igreja é infiel”.

Para o padre Jorge Teixeira da Cunha, a Igreja deve recentrar a sua identidade na discrição do serviço, têm de se “converter à invisibilidade, à força do rosto vivo”, e identificar-se com “Cristo vulnerável”.
“E não do cadáver que muitas vezes aparentamos”, afirmou o professor catedrático da Faculdade de Teologia (UCP), acrescentando que a verdadeira presença da Igreja se manifesta “no rosto do pobre e do vulnerável”.
Segundo o secretário da direção da ATIEM, padre Roberto Noriega, a imagem do azeite e do vinho da Parábola do Bom Samaritano sintetiza a missão da Teologia Moral, primeiro têm “de purificar, depois fortalecer”.
“A primeira coisa que temos de fazer é escutar; Cada pessoa sente a sua dor de maneira diferente e nós temos de nos ajustar a isso; as feridas não se fecham de um dia para o outro”, observou o religioso agostiniano espanhol, que dos principais desafios destacou a polarização social, os maus-tratos às mulheres e às crianças e os abusos.
O padre José Júlio Rocha, Vigário Episcopal para o Clero de Angra, explicou que é necessária “uma viragem copernicana da Eclesiologia e também da Moral”, o trabalho nas jornadas foi indispensável para pensar os desafios da Igreja contemporânea.
“Precisamos mudar de paradigma, porque ainda somos uma Igreja espantosamente clerical”, explicou o sacerdote açoriano, indicando que a sinodalidade promovida pelo Papa Francisco representa um regresso à experiência da Igreja primitiva e à visão do Concílio Vaticano II.

No dia seguinte ao enceramento das Jornadas da ATIEM, estes três teólogos moralistas participaram na mesa redonda ‘Açores: a Igreja no centro do mundo’, esta quarta-feira, no coro alto da igreja de Nossa Senhora da Esperança (Convento da Esperança), abordaram os desafios da Inteligência Artificial(IA) a partir da encíclica Magnífica Humanidade do Papa Leão XIV, e desenvolveram temas como o impacto da IA nas relações pessoais, na conceção do mundo e nos processos de decisão.
CB/OC
