Encontro mundial no Vaticano aponta necessidade de acompanhar famílias que passam por dificuldades

Cidade do Vaticano, 12 out 2026 (Ecclesia) – A professora norte-americana Julie Hanlon Rubio alertou hoje no Vaticano que a queda global dos casamentos reflete uma crescente descrença e ansiedade face ao compromisso para toda a vida.
“A maioria diz que gostaria ainda de se casar algum dia, mas não tem a certeza de que isso venha realmente a acontecer”, constatou a investigadora de Ética Social Cristã na Santa Clara University (EUA).
A especialista falava durante os trabalhos do encontro convocado por Leão XIV para debater a aplicação da exortação apostólica ‘Amoris Laetitia’, publicada em 2016 pelo Papa Francisco, após duas assembleias sinodais dedicadas à pastoral familiar.
Perante presidentes das Conferências Episcopais de todo o mundo, Julie Hanlon Rubio referiu que muitos jovens adiam a constituição de família devido a fortes inseguranças sobre a sua própria preparação para a parentalidade ou à dificuldade de encontrarem um “parceiro adequado” numa cultura da perfeição amorosa.
O diagnóstico, apresentado no auditório Paulo VI, reflete “uma profunda descrença de que um bom matrimónio e uma boa parentalidade sejam possíveis”.
“Outros adiam a maternidade apenas para descobrir que a janela para ter e criar filhos já passou”, exemplificou a investigadora, durante a conferência intitulada ‘Nas dificuldades da vida: acompanhar e sustentar’.
A intervenção assumiu que o modelo global está a migrar do antigo “matrimónio institucional”, assente em lógicas económicas rigorosas, para o moderno “matrimónio de companheirismo”, centrado no amor mútuo.
“Os matrimónios de hoje são mais recíprocos e mais gratificantes, mas também mais exigentes, menos fecundos e mais frágeis”, analisou a especialista católica, sublinhando que os casais modernos tendem a ficar perigosamente “isolados nas suas dificuldades”.
A mensagem rejeitou qualquer perspetiva punitiva da Igreja sobre o fracasso das uniões, evocando a sensibilidade do Papa Leão XIV na encíclica ‘Magnifica Humanitas’ e recordando a aposta de Francisco na integração de todas as famílias.
“A fragilidade humana não é um problema a resolver, mas um elemento fundamental da nossa humanidade que deve ser integrado”, defendeu a docente norte-americana.
Das Filipinas, o cardeal Pablo Virgilio Siongco David apresentou uma reflexão sobre a experiência humana vivida nas comunidades mais desfavorecidas da sua Diocese de Kalookan.
“Algumas famílias tinham medo até de fazer o luto publicamente, porque a associação com alguém suspeito de consumir drogas podia, por si só, colocá-las sob suspeita”, revelou o responsável católico, ao falar sobre o trauma coletivo da violência urbana e das execuções ilegais de toxicodependentes nas Filipinas.
A comunicação precisou que a Igreja teve de substituir os seus projetos estruturais por uma resposta evangélica de presença básica nas margens das estradas e vielas das cidades mais afetadas.
“Uma família frágil precisa de mais do que conselhos pastorais; precisa de uma comunidade que possa ajudar a carregar aquilo que já não consegue carregar sozinha”, justificou o cardeal filipino.
A sessão matinar foi inaugurada por D. Kevin Farrell, prefeito do Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida (Santa Sé), que pediu aos bispos uma “conversa sincera e isenta de controvérsias sobre a complexidade familiar”, convidando-os a manter o rumo da “pastoral da misericórdia”.
Os trabalhos inaugurados a 7 de outubro, por Leão XIV, decorrem até quarta-feira, no Vaticano, com a presença de D. Virgílio Antunes, presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP).
OC
| A exortação apostólica sobre a Família ‘Amoris laetitia’ (A Alegria do Amor), com data de 19 de março de 2016, recolhe as propostas de duas assembleias do Sínodo dos Bispos (2014 e 2015) e dos inquéritos feitos previamente aos católicos de todo o mundo.
Ao longo de nove capítulos, em mais de 300 pontos, Francisco dedica a sua atenção à situação atual das famílias e os seus numerosos desafios, desde o fenómeno migratório à “ideologia de género”; da cultura do “provisório” à mentalidade “antinatalidade”, passando pelos dramas do abuso de menores. A exortação apresenta um olhar positivo sobre a família e o matrimónio, face ao individualismo que se limita a procurar “a satisfação das aspirações pessoais”. Nesse sentido, propõe uma pastoral “positiva, acolhedora” e defende um caminho de “discernimento” para os católicos divorciados que voltaram a casar civilmente, sublinhando que não existe uma solução única para estas situações. Em 2021, Francisco promoveu um ano especial dedicado à Pastoral Familiar. Em Portugal, várias dioceses publicaram documentos sobre a aplicação das propostas para a pastoral familiar, nomeadamente no que respeita ao capítulo VIII da ‘Amoris Laetitia’, que aborda o acesso aos sacramentos de divorciados em nova união.
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