Arcebispo de Mérida denuncia situação catastrófica na Venezuela

“Dói ver o povo assim…”

A Venezuela está doente. Muito doente. É um país moribundo que está a desmoronar-se às mãos de um regime prepotente que sequestrou a vida e o futuro de milhões de pessoas. O Cardeal Baltasar Porras, administrador apostólico de Caracas e Arcebispo de Mérida, é uma das vozes mais respeitadas da Igreja venezuelana. Em entrevista à Fundação AIS, este prelado coloca por várias vezes o dedo na ferida e denuncia a situação catastrófica em que se encontra a Venezuela. Falta tudo no país. A começar nos alimentos e a acabar na liberdade. Faltam alimentos, faltam medicamentos, faltam os produtos básicos para o dia-a-dia das populações. Até já faltam os combustíveis, como sinal maior de ironia num país que tem das maiores reservas de crude do planeta. Perante a obstinação de um regime que não escuta o grito de revolta do seu próprio povo, a Igreja Católica assume-se, cada vez mais, como a instituição capaz de dar ainda alguma esperança às pessoas. O Cardeal Baltazar diz mesmo que a Igreja “é a única instituição que permanece intacta”. E isso acontece graças à proximidade que mantém com as pessoas e à coragem de apontar as falhas do regime. “Outros parceiros sociais não falam desta crise por medo, porque o Governo ameaça, encerrou os  média e ataca as empresas.”

 

Sem precedentes

A situação na Venezuela é, de facto, alarmante. A crise económica insinua-se em todos os instantes do quotidiano. Nas lojas falta quase tudo. Nos hospitais vivem-se tempos críticos. As farmácias têm as prateleiras vazias, como a esmagadora maioria dos supermercados. A inflação, a mais elevada no planeta, com valores astronómicos, torna o valor do dinheiro obsoleto. Milhões de pessoas, às vezes famílias inteiras, fogem do país em absoluto desespero. Calcula-se que há 4 milhões de venezuelanos fora do país, essencialmente na Colômbia, Peru, Chile, e Florida, nos Estados Unidos. O Cardeal Porras afirma que tudo isto “é muito triste”.

“Estamos numa situação atípica e sem precedentes, que não é o produto de uma guerra, nem de um conflito bélico, nem de uma catástrofe natural, mas com consequências semelhantes”, descreve o Arcebispo. O retrato é trágico. D. Baltasar Porras traça a radiografia de um país moribundo. E não poupa nas palavras. “O regime político que lidera a Venezuela destruiu o país e gerou um conflito social que está a aumentar. Há também a realidade do exílio de tantos venezuelanos, algo nunca antes conhecido. As pessoas abandonam o país devido à situação económica, às ideias políticas, à perseguição… Não há nenhum tipo de segurança jurídica. Há também falta de emprego e de cuidados de saúde, não sendo possível levar para casa o mínimo para o sustento da família. Os especialistas descrevem este cenário como economia de guerra.”

Perseguição política

O conflito entre o governo de Nicolás Maduro e a oposição tem extremado ainda mais as posições na Venezuela. Para o Cardeal Baltasar Porras é preciso denunciar também a perseguição política aos opositores do regime como um exemplo do descalabro a que se chegou no país. Não é só a economia que está doente. A democracia também. “Preocupa-nos muito o facto de que, neste último ano, desde o fenómeno Guaidó, o número de pessoas presas, torturadas, mortas e desaparecidas tenha vindo a aumentar, e nessas ações não estão envolvidos apenas altos oficiais militares, mas também parte da população”, diz D. Baltasar, acrescentando: “Alguns organismos do Estado são considerados como uma polícia nazi, o que gera medo entre a população”.

Órfãos de afeto

Os ataques do Governo não poupam ninguém. A própria Igreja Católica tem sofrido pressões inaceitáveis. “Há vários anos que sofremos pressões de forma subtil, também ameaças verbais e perseguição às obras de carácter social, como a Cáritas. As paróquias recebem ataques do próprio Governo, dos conselhos comunitários e dos grupos pró-governamentais chamados ‘coletivos’. Por exemplo, em Caracas – explica o administrador apostólico – nas áreas populares, os ‘coletivos’ estão à porta das paróquias a ouvir o que o sacerdote diz na homilia, e se não gostam começam as ameaças.” Perante um cenário assim, que fazer? D. Baltasar Porras reafirma o propósito da Igreja Católica em continuar a acudir às populações. Especialmente os que estão mais fragilizados. “Dói-nos ver o nosso povo assim. Com o fenómeno da emigração, os que ficámos somos órfãos de afeto, porque a família e o ambiente em que vivemos desapareceram.” Por tudo isto, é cada vez mais necessária a ajuda que – sublinha o Cardeal – também é oferecida à própria Igreja através de instituições como a Fundação AIS. “Agradecemos profundamente à AIS, não apenas a ajuda material, mas também a harmonia espiritual que se expressa sobretudo através da oração. Vocês ajudam-nos a continuar presentes e a ajudar as pessoas que mais precisam.”

 

Paulo Aido | www.fundacao-ais.pt 

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