No dia de Santo Inácio de Loiola, 31 de julho, publicamos integralmente a entrevista do novo provincial da Companhia de Jesus em Portugal à Agência ECCLESIA, que aponta o «imperativo missionário» e a necessidade de «ir ao encontro de outras realidades» como marcas do mandato que inicia
Agência Ecclesia – No dia da tomada de posse, disse que os jesuítas devem sair dos seus lugares afetivos, existenciais e geográficos. Como concretizar esse seu propósito?
Padre António Valério – Muito obrigado por esta oportunidade de podermos conversar no início desta missão, que abraço com generosidade, como um dom que acolho de Deus e que ponho ao serviço da Companhia e ao serviço da Igreja.
As palavras que disse no início do meu mandato, na Missa de tomada de posse, é este convite a sair de si mesmo. Nos ritmos que temos, nós religiosos, uma ordem religiosa, a Igreja em si, não pode estar fora – e não está fora – do contexto de hoje, da velocidade da informação, das coisas que acontecem. Quando se tem um coração generoso e desejoso de responder às necessidades, a nossa tentação é dizer a tudo que sim e responder a tudo. Mas é preciso sair dessas zonas, de uma forma que seja pensada interiormente, não tanto a partir das instituições, mas sobretudo sentindo o desejo missionário.
Eu creio que a Igreja, com o Papa Francisco, mas já antes, tinha muito esta ideia: a Igreja é enviada em missão para fora de si mesma, já não é um sítio onde as pessoas vêm procurar algo, mas tem de ir ao encontro, onde as pessoas estão. Por isso, sair dos lugares institucionais, dos lugares existenciais, das próprias ideias. Estamos numa mudança de paradigma muito grande e, por isso, é importantíssimo que esta atitude seja a primeira: não é só acolher aqueles que vêm ter comigo, mas dar respostas, ir ao encontro e acolher aqueles que estão lá fora.
AE – Gravámos esta conversa no ambiente dos jesuítas, em Lisboa, onde existe o CUPAV, o Colégio São de Brito, a Casa Provincial… Há uma dimensão física e geográfica que é necessário levar por diante: sair destes espaços?
AV – Claramente! A missão do provincial é uma missão de estar aqui: tem o seu trabalho na Cúria Provincial, na parte mais formal do que é administrar uma província e os jesuítas que lá estão, as comunidades, as obras, as pessoas com quem colaboramos; mas passa mais de metade do ano a visitar as comunidades e as obras, no resto do país.
AE – A conjugar esse verbo acompanhar…
AV – Acompanhar. Isso é o que me tem motivado mais. E, interiormente, tenho trabalhado mais a questão do acompanhar, do animar, do entusiasmar.
Estar envolvido, neste caso em Lisboa, por um colégio e por um centro universitário ajuda muito a dizer que estamos em áreas que sempre foram, mas atualmente ainda ganham uma relevância maior, as fronteiras a que somos enviados: o trabalho com os jovens, o trabalho da interioridade que se faz num centro universitário, a formação, e todas as gestões educativas que têm a ver com formar pessoas para o futuro, um futuro incerto… Nós não sabemos o futuro que nos espera.
AE – É esse o acontecer da mudança de paradigma que falava?
AV – Sim… O Papa Leão, seja na escolha do seu nome, seja agora na primeira encíclica que ele publicou, ele segue… Tal como o Papa Leão XIII foi importantíssimo numa era de grande revolução e de uma mudança de paradigma, na revolução industrial, nós estamos a meio de uma revolução tecnológica na qual ainda não nos conseguimos situar. Aquela encíclica do Papa Leão põe-nos no centro de uma mudança e quer dar-nos algumas coordenadas para nos orientarmos. Por isso, estamos numa mudança de paradigma.
AE – Se olharmos para a Província da Companhia de Jesus em Portugal, vemos colégios, paróquias, obras sociais, centros universitários, centros culturais… São tudo projetos a dinamizar e a fomentar de uma forma quase paralela, ou tem prioridades?
AV – É claro que esses projetos têm de continuar, e continuarão todos, e acho que todos eles são prioridades. Se falarmos do acompanhamento dos jovens, da interioridade, da espiritualidade que é própria da Companhia, do trabalho com os mais pobres… Todos continuam a ser prioridades apostólicas da província. Mas a partir de um dinamismo que deveria ser impresso a partir da profundidade espiritual, da profundidade pastoral, de sabermos quais são os propósitos da maneira como nós fazemos as coisas, e a profundidade intelectual, que não é fazer coisas, mas é pensar, refletir e também transmitir pensamento sobre aquilo que estamos a fazer.
AE – Gostava de referir também as Preferências Apostólicas da congregação, 2019-2029: dar prioridade aos Exercícios Espirituais, estar junto dos pobres, junto dos jovens e cuidar da casa comum. É por aí o seu programa?
AE – O plano apostólico foi feito e está em continuidade. A linha de fundo são estas preferências apostólicas que foram decididas pela Companhia para este período de dez anos, que agora, ao final dos dez anos, serão revistas. Continuam a ser a prioridade dentro da missão da província, no discernimento que vai sendo feito a nível da ação pastoral nas várias obras e comunidades, foi pedido e continua a ser pedido que estas preferências estejam sempre como critério de discernimento sobre o modo de agir, sobre as opções que se fazem no terreno e no dia a dia, na colaboração com os outros.
Creio que todas elas são importantes e estão efetivas! Aquela que é sempre mais difícil de concretizar, é o cuidado da casa comum, que não é um problema só nosso: como é que encaixamos esta prioridade dentro do que é uma mudança de mentalidade? Creio que também tem a ver com a mudança de paradigma: é uma nova ecologia que está à nossa volta, onde a tecnologia está à nossa frente e, por isso, temos de lhe responder. O Papa Leão falava na sua encíclica de uma ecologia da comunicação e da verdade. Cuidar da casa comum não é apenas a questão ecológica num sentido mais estrito, mas são as relações entre as pessoas, relações entre os países, com a criação. Agora, até a relação com a tecnologia, que é muito determinante.
AE – No contexto destas preferências apostólicas, há algumas que são mais notadas, há uma perceção pública maior sobre elas, como o acompanhamento dos jovens, como a proposta dos Exercícios Espirituais. A opção pelos pobres, pelo menos a perceção pública, nem tanto…. Concorda com essa perceção e por que razão acontece, na sua opinião?

AV – É de facto uma perceção que temos, que os jesuítas sempre se marcaram mais pelo acompanhamento espiritual, pelos jovens, pelos dos Exercícios Espirituais e pelas nossas casas de retiro. Depois os colégios, a nossa presença no ensino universitário, na Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais, em Braga, e o projeto da Brotéria, em Lisboa.
Há aqui uma presença cultural, no ensino e na espiritualidade, muito forte. Mas há um mundo muito grande de trabalho social, que se realiza em várias comunidades, em ONGs que estão ligadas à Companhia, não dependem diretamente da Companhia, mas que a Companhia assiste. Depois, também o trabalho que fazemos nas nossas paróquias, com imensos centros sociais, com imensa ajuda à população mais carenciada, que eu creio que não aparece. Tem de haver um esforço de comunicação para que isso possa aparecer, mas é um trabalho muito no terreno e muito focado no atendimento às necessidades que estão a surgir. É algo que tem sido uma prioridade muito grande e é uma coisa que nos motiva: ouvir a realidade também a partir da voz dos mais frágeis, dos mais pequenos, dos mais vulneráveis, em tantas pobrezas que existem, e a pobreza que está é muito evidente. É também um dos desafios que nós temos: dar não apenas um maior destaque, mas também um maior pensamento sobre esta questão.
Elitismo ou qualificação para a missão?
AE – A Companhia de Jesus, os jesuítas em Portugal e os que se vão juntando ao seu redor, na pastoral que fazem, podem ir constituindo uma bolha em torno de uma classe social mais elevada?
AV – Isso seria o que de todo não queria que acontecesse! Sendo os jesuítas enviados às fronteiras, é todo o oposto do conceito de formarmos uma bolha, que não se deve confundir com o que é natural numa comunidade que tem uma espiritualidade, tem um carisma próprio, que haja pessoas que se identificam mais e seguem esse carisma, tal como seguem outros carismas de outros movimentos ou de outras espiritualidades. Mas isso não nos fecha nessa bolha!
A característica da missão, que é genética na Companhia de Jesus, é precisamente o sair, tal como eu referia no início do provincialado, sair da nossa bolha, que seria mais confortável, e dizer: não, não ficamos aqui! A colaboração é essencial, o ouvir o mundo, o ir ao encontro de outras realidades e dialogar com elas provoca-nos, desinstala-nos: é a presença que a Igreja é chamada a ter hoje.
AE – Os jesuítas, quase todos, têm uma formação académica para além da teológica ou filosófica… Isso pode levar a uma determinada elite cultural? Também por isso, pode haver alguma consideração mais elitista acerca da presença dos jesuítas?
AV – Eu creio que se pode entender isso…
AE – Isso é um desafio para os jesuítas?
AV – É um desafio, mas é ao mesmo tempo uma responsabilidade! O ter jesuítas, neste caso sacerdotes ou irmãos, bem preparados em determinadas áreas, é essencial para que a Igreja possa dialogar com realidades sociais, culturais, intelectuais, que precisa de ter pessoas à altura. Hoje os processos que existem a nível do pensamento, da forma como a sociedade se organiza, os modelos empresariais e económicos que existem, são muito complexos e acho que é preciso também seriedade nos nossos processos e pensamento produzido para poder falar de igual para igual. Não numa lógica de elitista, de estudamos muito para ficarmos a saber mais do que os outros, mas é porque, para responder a determinadas fronteiras, precisamos estar qualificados e habilitados para o fazer. A missão está sempre por trás da qualificação que se possa ter.
AE – Vemos noutras congregações, nas dioceses, uma preocupação por ordenar os sacerdotes o mais rapidamente possível, porque há necessidade… Essa não é uma preocupação imediata na Companhia de Jesus, há uma preocupação pela formação o mais completa possível, por experiências em diferentes latitudes e só depois esse passo?
AV – Isso é uma preocupação, e com um custo pessoal…
AE – Mas está a dar frutos…
AV – Sim, que está a dar frutos… Se temos um jesuíta que está em formação e percebemos, quer pela sua formação interior, quer pelos dons que ele vai mostrando ao longo da sua formação, que será muito bom nesta área, vai ser pedido – de forma discernida e ele também tem de sentir esse apelo interior e estar motivado para esta missão – que trabalhe nesta área mais voltada para a reflexão social, filosófica, para a Teologia, para a Economia… São tantas áreas de diálogo possíveis!
Era tão bom que tivéssemos um jesuíta ordenado ao fim de 12 anos, que é o percurso normal, e que pudesse regressar à província porque há muito aqui que fazer… Mas dizemos: não, ficas mais 3, 4, 5 anos a estudar porque, a longo prazo, será o melhor para a nossa missão.
AE – E vemos jesuítas que são químicos, economistas, juristas, artistas… Há esse respeito pelos dons de cada jesuíta. Porquê? É uma forma de valorizar não só a pessoa como a pastoral que ele desenvolve?
AV – Sim… Para poder estar presente nos vários âmbitos: um jesuíta que é artista, tem um diálogo com artistas, que não seria possível chegar a um jesuíta que está mais ligado a assuntos pastorais porque não tem a mesma mundivisão…
AE – É uma estratégia pastoral…
AV – Sim… E o mesmo no Direito: temos especialistas em Direito Internacional que são vozes com autoridade para falar sobre estas questões, sobre a Economia, sobre a Pedagogia. Creio que é muito importante termos pessoas preparadas para isso e que ao mesmo tempo sejam conselheiros internos nossos para dizer: temos este assunto, ajuda-nos a pensar sobre isto. Até para a própria província, é um proveito muito grande.
Desde a Idanha-a-Nova

AE – Padre António Valeiro, falemos um pouco da pessoa que é agora provincial, no início do seu mandato. Vamos até Idanha-a-Nova, a esses primeiros anos de frequência do Seminário da Diocese de Portalegre-Castelo Branco e depois a opção pelos jesuítas. Porquê?
AV – Venho do interior do país… O conhecimento, desde muito pequeno, de uma realidade eclesial que os grandes centros urbanos não estão tão por dentro, a desertificação, e também contacto, desde muito pequeno, com a fé popular, com a devoção, com a vida paroquial. É algo que faz parte das minhas raízes e, por isso, um amor muito grande à Igreja e à prática da devoção e da espiritualidade do povo de Deus, que é algo que é importantíssimo, nestas comunidades.
Esta é base de onde saí! Senti o chamamento ao sacerdócio relativamente cedo. Entrei no seminário médio em Portalegre para fazer os estudos do secundário, e depois, já no ano propedêutico em que iria iniciar a Teologia, fiz um tempo de discernimento e entrei para a Companhia de Jesus.
AE – Sentiu era uma questão vocacional, que deveria responder?
AV – É o modo como Deus também nos vai trabalhando interiormente…
Eu quis ser padre pelo grande exemplo que tive do meu pároco, que foi o pároco que me batizou e ainda lá está. A gente começa a ver estas referências de pastor, de pessoa que cuida, que está presente, e diz: eu gostaria de ser assim. Senti o chamamento ao sacerdócio desde pequeno. Depois, chegou uma altura, já no seminário, em que pensei: estar dedicado a uma comunidade, estar localizado numa diocese, parecia que não era suficiente, sem desprimor nenhum da importância que tem a vocação diocesana. Sobretudo esta ideia: eu estou agora aqui e não faço ideia nenhuma do que vou estar a fazer daqui a dez anos. Isso motivou-me muito no seguimento de Jesus, o estar disponível. Entretanto fui conhecendo a Companhia, através do centro universitário, em Coimbra, e identifiquei-me com a espiritualidade e fiz o meu processo.
AE – Foi ordenado sacerdote depois no Carmelo de Fátima, em 2009. Foram circunstâncias que levaram à ordenação nesse ambiente, porque lá estava uma irmã sua, como superiora do Carmelo de São José, ou há uma aproximação à espiritualidade?
AV – Houve uma conjugação feliz de várias coisas: eu fui o único a ser ordenado nesse ano (a própria dimensão da capela daria para um ordenando, se fossem dois já seria impossível); o fato da minha irmã não poder sair e poder estar lá; e também ter sido o ano sacerdotal. E foi um desejo das carmelitas: a grande missão delas é rezar pelos sacerdotes. O provincial da altura, o padre Nuno Gonçalves, achou bem que fosse lá a ordenação… proporcionou-se.
Os jesuítas, dizemos que somos contemplativos na ação. Faz parte do jesuíta ter o contato com o claustro e, desde a ordenação, tem sido muito importante saber que há pessoas na Igreja dedicadas à oração e que esta oração é extremamente apostólica, é missionária. Tem sido uma inspiração para mim, não apenas a minha irmã, mas a Vida Contemplativa é mesmo uma garantia muito forte da vitalidade da vida religiosa.
A melhor tradição orante na melhor tecnologia
AE – Foi responsável pela Rede Mundial de Oração do Papa, onde atualizou não só linguagens, mas ferramentas que pudessem levar essa experiência de oração a outros espaços e com outras metodologias. Foi para perseguir novos públicos ou por imperativo missionário?
AV – Foi por imperativo missionário! Com o Apostolado de Oração, que agora se chama Rede Mundial de Oração do Papa, foi confiado à Companhia, por Leão XIII, a devoção ao Coração de Jesus e a oração pelas intenções do Papa. Os tempos foram evoluindo e era um movimento que já tinha caído em muitos países e precisava de uma profunda renovação. E foi o padre geral da Companhia, então era o padre Adolfo Nicolás, que pediu ao que era o diretor internacional do Apostolado de Oração para recriar este movimento: não estamos a responder da melhor forma aos desafios do mundo de hoje, isto é uma missão que o Papa confia à Companhia, esta missão tem de ser feita e atualizada.
Tive a graça de poder participar, desde o início, junto com o diretor internacional, com quem colaborei muito de perto, para começarmos a pensar neste processo de recriação, que depois o Papa Francisco foi consolidando até chegar à aprovação da Rede Mundial de Oração do Papa como obra pontifícia. Isso implicou pensar o Apostolado de Oração e a Rede Mundial de Oração em múltiplas vertentes: na sua vertente de proposta espiritual, mas também nas formas de comunicação para chegar a novos públicos. E aí entrou a renovação da imagem, a renovação da tecnologia, das plataformas.
AE – É aí que nasce o Passo-a-Rezar, o Click to Pray, várias formas de chegar junto do público. E que desafio foi esse de juntar a melhor tecnologia à melhor tradição orante da Igreja?
AV – Temos de ver sempre qual é a riqueza da tradição, porque a tradição tem uma riqueza enorme. E se desligarmos dessa tradição, da fonte, propomos uma coisa que não é verdadeira, no seu sentido mais profundo. E, por isso, temos de propor numa linguagem que seja entendível e acessível, sobretudo aos jovens, neste caso das novas tecnologias.
Foi um desafio muito bonito de harmonizar isto: perceber o que é a tradição e como é que ela se traduz em novas linguagens. E foi uma experiência de muita consolação, um processo que durou 10 anos.
Esta profundas transformações levam o seu tempo. Foi muito bonito o trabalho em rede, em conjunto com pessoas de todo o mundo e fazermos equipas nos vários continentes, cada um com o seu contributo. Foi uma experiência eclesial, cultural, de uma dimensão mundial muito, muito consoladora.
AE – Uma experiência que passou também pela Web Summit, em Lisboa. Acredito que tenha sido única: levar conteúdos religiosos a ambientes tecnológicos…
AV – Estar na Web Summit foi uma oportunidade. E termos sido escolhidos até para apresentar, para fazermos um ‘pitch’, para falar sobre a aplicação. E era surpreendente ver o bom acolhimento das pessoas que ali estavam, muitas delas não crentes ou que até nem conheciam a Igreja ou tinham tido contato com a Igreja quando eram muito pequeninos. Diziam: parabéns porque a Igreja Católica está presente num fórum destes. Foi muito confirmador! E é uma forma de aproximação e de surpreender: como é que pessoas ligadas à tecnologia estavam tão desligadas da possibilidade de pensar que a Igreja pudesse estar presente ali. Isso foi uma experiência muito interessante.
AE – Pedia-lhe que analisasse uma possível tensão entre o que é o uso muito individualista de uma aplicação, o Passo-a-Rezar ou o Clirck do Pray, e uma exigência comunitária da vivência da fé. Há uma tensão permanente?
AV – Há sempre um ponto de partida: só pode haver uma relação com Deus se houver condições para a pessoa se encontrar com Ele e, por isso, as condições para uma pedagogia da interioridade. E estas aplicações ajudam a isso.
Há claramente o risco da pessoa ficar fechada ali: gosto, relaciono-me com Deus assim, por isso não preciso da comunidade. Mas as propostas que são feitas, na própria oração, naquilo que se escreve, naquilo que se ouve, são propostas que colocam sempre a questão: sai de ti, tens uma comunidade, tens a Igreja. Há sempre essa preocupação da pessoa não ficar fechada em si própria.
Marca Jesuíta na sinodalidade da Igreja
AE – Falemos da Igreja, em Portugal e no mundo. E começamos pela memória do Papa Francisco: o facto de ser jesuíta trouxe uma vivência eclesial também jesuíta, no sentido da sinodalidade, da participação, do discernimento? Há um carisma jesuíta que foi partilhado com toda a Igreja?
AV – Sim, isso foi muito claro no pontificado do Papa Francisco e ele próprio não tinha pudor de o afirmar, de se referir às suas raízes inacianas e à sua espiritualidade.
O processo de sinodalidade é muito próprio e alimentado pelo discernimento que vem dos Exercícios Espirituais, da proposta de Santo Inácio, que tem uma metodologia própria para o fazer. Daquilo que foi fazendo, seja a nível da Igreja universal, mas que começou nos grupos locais, depois nas paróquias, nas dioceses, até chegar à realização do sínodo, são processos que estão a ser implementados e que partem de um método muito específico, que tem na base a espiritualidade inaciana e os Exercícios Espirituais, que não são uma coisa exclusiva dos jesuítas, mas é um serviço a toda a Igreja.
O Papa Francisco marcou muito o modo da Igreja se pensar como estrutura, a partir da colaboração, do diálogo, da escuta do outro e da realidade, da escuta do Espírito, para tomar a decisão de acordo com aquilo que o Espírito quer para a Igreja e não as nossas ideias ou as nossas projeções ou as nossas estratégias. Deixar o lugar ao Espírito, em vez de ser a estratégia humana, isso é muito importante.
AE – É uma estratégia que é necessário levar por diante neste tempo, diante da tal mudança de paradigma que falava há pouco?
AV – É reunir pessoas diferentes à mesma mesa, ouvi-las… Se houver uma experiência de fé, tem de haver espaço para a interioridade, seja mais pensamento ou verdadeira oração, para que depois, a partir da escuta, se veja… Quando há uma partilha sincera do que cada um sente diante da sua consciência ou diante de Deus – e os processos de discernimento em que tenho participado têm conduzido a isso – há uma experiência de consolação no final: depois de termos partido de perspetivas tão diferentes, estamos todos a chegar à mesma conclusão. Isto é sinal de que o Espírito está a indicar que este é o caminho.
O desafio da unidade na Igreja
AE – Pedia-lhe uma análise ao que vai observando na Igreja Católica, a polarização não só de discursos, mas também em tomadas de posição, seja na Igreja alemã com propostas diferentes para a experiência crente, seja na Fraternidade de São Pio X com a afirmação de ruturas claras. Que caminho é este?
AE – É um caminho muito difícil! E são desafios muito grandes que tem à sua frente.
Acho que aqui o Papa Leão tem sido impressionante nas suas intervenções a apelar à unidade.
É claro que cada um destes contextos está envolvido na sua própria mentalidade e mundivisão e quer responder a necessidades culturais. Se calhar, no caso da Alemanha estas questões são culturalmente quase impostas, e por isso a Igreja tem de reagir.
AE – Mas há linhas que não podem ultrapassar?
AV – Há linhas que não podem ultrapassar. Tal como na Fraternidade de São Pio X, houve uma linha também que não podia ultrapassar.
Há consciência que não se podem ultrapassar estas linhas e há uma garantia da unidade, que é a figura do Papa, que é a tradição da Igreja.
O que é mais perigoso para a Igreja é a divisão interior e a divisão do discurso que polariza, que é o ‘nós’ e o ‘eles’, dentro da Igreja. Isso é uma das coisas mais perigosas na Igreja, que acaba por criar desconfianças, criar ruturas. Isso não é bom exemplo do Evangelho, não é isso que Jesus fez… Quando Jesus incluía as pessoas, também as centrava: o importante é isto, é o Reino, na forma como Ele ia explicando o que era, envolvia as pessoas, sendo que também Ele tinha as suas polarizações, da parte dos fariseus ou da parte dos pagãos. Ele também viveu num mundo de polarizações e centrou-se sempre na unidade.
O esforço que é pedido a estes grupos, a estes movimentos, é pensar não a partir do ‘nós’ e ‘eles’, mas a pensar na comunhão, a partir da comunhão.
AE – Pelo menos, a respeito da fraternidade São Pio X, tal já não aconteceu?
AV – Isso, infelizmente, é o resultado de um processo de autocentramento. É pena que isso tenha acontecido, apesar de já ter havido passos por parte da Igreja para que não viesse a acontecer. Mas decidiram seguir o seu caminho.
AE – E desafia também o papel do próprio Papa Leão XIV que afirma, nas suas intervenções, o pedido da unidade de forma muito clara?
AV – Por isso é muito importante ouvir a voz do Papa como referência e depois, nos contextos culturais e eclesiais locais, poder traduzi-la em ações concretas.
Polarização política
AE – Polarização que também acontece no discurso político, na sociedade, muito em torno de bolhas, nomeadamente no ambiente digital, e com aproveitamento de linguagens religiosas e de pertenças religiosas para justificar essa polarização. Que reação é necessária ter diante desses casos?
AV – Eu creio que é preciso ser muito firme na posição que se tem diante disto: o Evangelho não pode ser instrumentalizado para interesses políticos, que poderão ter também interesses económicos. A Igreja tem de reagir sempre ao demarcar-se dessas posições e dizer: o Evangelho não está a ser situado no seu contexto certo.
A instrumentalização da mensagem do Evangelho ou da fé cristã para estes fins tem de ser muito observada e combatida.
Novos centros do catolicismo
AE – Os jesuítas inauguraram o diálogo com a Ásia, pela presença missionária na Ásia, indo para lá, agora estamos a assistir à chegada de muitos missionários da Ásia, para o contexto europeu. Há aqui uma mudança de centro do catolicismo e de partilha de culturas? Que atitude é necessário promover diante destes movimentos?
AE – Parto de uma experiência, que eu tive a graça de participar, no que chamamos de Congregação de Procuradores, que acontece de tantos em tantos anos, em que se junta um representante de cada província dos jesuítas no mundo.
E ali, na sala, percebeu-se a mudança de geografia, pela quantidade de pessoas que vêm do Oriente e a diminuição das pessoas que vêm do Ocidente, nomeadamente da Europa. E pensar que isto é uma tendência demográfica que se vai acentuar nos próximos anos. Por isso, o centro da Igreja está claramente a passar do hemisfério norte para o hemisfério sul.
Outro aspeto que é muito curioso é que as vocações e as igrejas que nascem nestes países não são países de tradição cristã. Os países onde há mais vocações são os países onde a Igreja é perseguida e, por isso, estas vocações nascem em meios mais pobres, perseguidos, onde a Igreja é uma minoria, o que pode trazer também de muita vitalidade e uma visão muito diferente.
Esta Igreja institucional ocidental tem o seu tempo, a sua importância, as grandes instituições que estão ao serviço da Igreja. Mas há todo este lado que agora está a surgir, que pode ser uma bênção, que criará certamente a sua necessidade de diálogo, porque são paradigmas diferentes, mas há disponibilidade para acolher e para integrar uma nova forma de ver a missão da Igreja.
AE – Um dos temas e dos capítulos da história de cada um, seja como provincial, seja com outra responsabilidade, é resolver problemas que acontecem – e acredito que o padre António Valério também já passou por eles, nomeadamente em comunidades onde esteve. A Igreja Católica em Portugal tem neste momento muito presente essa necessidade de tolerância zero diante dos casos de abuso, seja abuso sexual, sejam outras formas de abuso de menores. De que forma é que integra este tema no seu mandato e que atitude deve ter a Igreja Católica em Portugal para que tolerância zero seja cada vez mais posta em prática?
AV – Isso vem na continuidade – com o padre Miguel Almeida, mas já antes – com o que a Província Portuguesa foi instituindo, com o Serviço de Proteção e Cuidado. A política de tolerância zero é uma linha onde não se toca… Isto implica o acompanhamento das pessoas, o acolhimento das vítimas, e também a formação, e o acompanhamento de quem está a lidar com os mais jovens ou com pessoas vulneráveis. E, no contexto de outras formas de abuso, de consciência, de poder, a própria formação dos quadros de liderança, é um fator a ter muito em conta.
AE – E é um tema a levar por diante de uma forma coletiva, com outras congregações, com toda a Igreja em Portugal?
AV – Sim, tem de ser feito com toda a Igreja em Portugal. É um caminho que está a ser feito e que tem de ganhar mais consistência. Todos têm o seu contributo, todos têm a sua experiência, todos têm essa necessidade. É muito importante que, a partir da experiência de cada um, se construa um caminho comum. E, sobretudo para fora, que passe efetivamente esta ideia que em primeiro lugar está a proteção das vítimas, o seu cuidado, o seu acompanhamento. A Igreja tem de mostrar o rosto da misericórdia e do acolhimento, ao mesmo tempo que reconhece tanto mal causado.
O programa para um mandato
AE – Tem um programa escrito?
AV – Não, ainda não! Espero fazê-lo, dentro de pouco tempo… A própria realidade também nos vai pedindo respostas… Será dentro destas linhas! Tenho propostas, mais para a nossa vida interior enquanto Província Portuguesa, na colaboração que temos com os leigos que fazem parte também do nosso corpo apostólico, e depois no diálogo com as outras instituições da Igreja e com o mundo. Mas há muito trabalho a fazer.
AE – O que é que gostaria de haver cumprido no final do mandato?
AV – Gostaria que a Companhia fosse um exemplo de comunhão, fizesse parte de uma comunhão eclesial e que estivesse ao serviço da Igreja nestes campos de fronteira, ao qual a Companhia é enviada. E que cumpra bem a sua missão, ali.
