Paulo Rocha, Agência Ecclesia

A expressão não se diz nem se escuta… “Indústria” e “paz” são palavras que não se associam e tocam terrenos aparentemente incompatíveis, distantes… A da guerra, a indústria da guerra, essa sim, prolifera, expande-se, cria conflitos para sobreviver e encontra razões para existir. E parece não ter fim…
Sem fomentar otimismos ingénuos, coloquemos no centro da discussão essa outra indústria, a da paz, na tentativa de identificar ambientes onde está presente e pode encontrar laboratórios de expansão. Tanto em pequenas comunidades como no encontro de povos e nações, na globalização a acontecer permanentemente.
O futebol será um exemplo. Sim, o futebol que junta equipas de todas as geografias, como no Mundial 2026 em curso. É certo que se revestiu de grande elitismo, com bilhetes caríssimos, ao alcance de alguns, apenas. São alguns de todo o mundo, os suficientes para alimentar um negócio que dá lucro a um grupo ainda mais restrito. É também uma competição de difícil acesso: acontece em três países, em 16 estádios de outras tantas cidades, sobretudo dos EUA, que determinam todos os preços, da água aos camarotes. Apesar de tudo isso, pode ser uma indústria da paz?
Ver os EUA e o Irão na mesma competição, mesmo que não se defrontem, pelo menos na fase de grupos, não deixa de ser um sinal de que a guerra não tem a última palavra na relação entre os povos.
Claro que existem dificuldades, que obrigaram o Irão a fixar a sua base no México, de onde viajou para os EUA para os vários jogos; existem também situações de exclusão, como a Rússia, das competições da FIFA e da UEFA, desde fevereiro de 2022, por causa de decisões políticas que levaram à invasão da Ucrânia e a confrontos sem fim…
Apesar de tudo, em qualquer latitude, o futebol pode ser gerador de paz, de objetivos comuns, de espírito de equipa, da construção de um bem para todos. Nos jogos de bairro e nas grandes competições, desde que o desporto, a competição sadia, seja o propósito (dispensando-se todas as discussões, nas mesas do café ou nos ecrãs de televisão, e ainda mais nas bolhas digitais embrulhadas em níveis de paixão que nada têm a ver com o desporto).
Neste mês de junho, quando o Mundial 2026 está ao rubro, o Papa Leão XIV quis deixar pistas, talvez “fora da caixa” para muita opinião publicada, que retomam a possibilidade do desporto como uma indústria da paz.
No “Vídeo do Papa”, neste mês de junho, divulgado na Rede Mundial de Oração do Papa, Leão XIV afirma o desporto como “caminho de paz” e “escola de fraternidade”.
“Pedimos-Te que o desporto seja sempre escola de fraternidade e não de rivalidade vazia, espaço de encontro e não de exclusão, caminho de paz e não de violência”, afirma Leão XIV.
“Faz que aqueles que praticam, treinam ou apoiam descubram no desporto uma linguagem universal que aproxima culturas, une povos e semeia respeito, solidariedade e superação pessoal”, acrescenta.
“Pelos valores do desporto” é a proposta de oração do Papa, que agradece o “dom do desporto”, os atletas que “glorificam a Deus com o exercício dos seus corpos”, as “amizades que nascem no campo” e a “alegria de jogar em equipa”.
Leão XIV retoma convicções expressas por ocasião do Jubileu do Desporto, em junho de 2025, quando o apresentou como “caminho para construir a paz, porque é uma escola de respeito e lealdade, que faz crescer a cultura do encontro e a fraternidade”.
Em abril deste ano, na audiência aos atletas dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Milão-Cortina, o Papa sublinhou que na atualidade, marcada por “polarizações, rivalidades e conflitos que desembocam em guerras devastadoras”, o desporto “pode e deve converter-se verdadeiramente num espaço de encontro! Não uma exibição de força, mas um exercício de relação”.
Discurso teórico ou “deriva” espiritual de uma indústria muitas vezes afastada desse desejo de fraternidade e de paz? Talvez… Mas são de excelência os exemplos que, em escolas de formação ou opções estruturais para as sociedades, contrariam tendências de maiorias.
Refiro um: o Plano Nacional de Ética no Desporto (PNED). É coordenado por José Carlos Lima que, aliando a investigação universitária sobre o tema, nomeadamente na Católica, e a realização de colóquios e publicações sob a inspiração de Manuel Sérgio, deixa na sociedade portuguesa a possibilidade da prática desportiva como escola de valores, vida em equipa, encontro entre diferentes e trabalho conjunto pelo mesmo objetivo. Afinal, uma indústria da paz.
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