Patrícia Liz comenta a preservação do trabalho humano na era da IA, tema levantado por Leão XIV na primeira encíclica do pontificado
Lisboa, 04 jun 2026 (Ecclesia) – A presidente da Associação Cristã de Empresários e Gestores (ACEGE), Patrícia de Melo Liz, defendeu que o caminho para atenuar o impacto da inteligência artificial (IA) no mercado de trabalho passa pela “sensibilização e orientação às empresas”.
“As empresas precisam. Neste momento estão confusas, estão com receios naturais, estão um pouco perdidas porque fala-se muito [da IA], mas não se encontram ainda soluções muito concretas e ainda se está numa fase exploratória”, afirmou a responsável, em entrevista ao programa 70×7 (RTP2) do próximo domingo.
Falando a propósito da nova encíclica do Papa Leão XIV, “Magnifica Humanitas”, Patrícia Liz considera que esta “é uma altura muito boa para se perceber com estratégia como é que se pode orientar as pessoas a utilizar de forma responsável” esta ferramenta.
“Para isso é necessária muita atenção também das lideranças, perceberem como é que realmente podem abraçar e depois obviamente que uma regulamentação é absolutamente essencial também de forma inteligente por parte dos governos, por parte de entidades públicas que possam ajudar a nível de cada país e a nível mundial a regular minimamente estas matérias”, disse.
No documento publicado a 25 de maio, Leão XIV alerta para as consequências da IA no mundo do trabalho, apelando à proteção de empregos e da dignidade dos trabalhadores.
Patrícia Liz acredita que “a inteligência artificial não vai substituir totalmente o trabalho humano, mas há um processo de transformação natural que tem que acontecer”.
“À luz daquilo também que aconteceu há 135 anos quando foi publicada a ‘Rerum Novarum’ na altura da Revolução Industrial, a transformação teve que acontecer e a inovação e aquilo que a tecnologia nos pode trazer para o futuro é positiva, mas não pode ser abraçada de ânimo leve e não pode ser abraçada a sentirmos já esta ideia que vamos ser substituídos”, destacou.
A responsável sublinha que o lugar da parte humana e a relação entre as pessoas não vai ser tomado pela novas tecnologias.
“Os humanos não podem ser substituídos por robôs, não podem ser substituídos por máquinas. As máquinas têm que servir cada pessoa, têm que servir a comunidade”, frisou.
Questionada sobre como é que a ACEGE se está a preparar para as mudanças causadas pela IA, Patrícia Liz aponta que o rumo é utilizar bem as novas ferramentas sem preguiça, salientando que humanos têm “de ter um sentido crítico muito apurado” e manter os “níveis de criatividade”.
“Hoje, mais do que nunca, devemos manter-nos atentos para que as coisas não se tornem demasiado superficiais, que já o estão em muitos aspetos, mas que a inteligência artificial muitas vezes fala em conceitos genéricos. Pôr de nós próprios em tudo aquilo que recebemos da inteligência artificial é extremamente importante”, indicou.
A entrevistada salienta também o efeitos positivos da IA, que vai permitir melhorar “qualidade de vida” e trabalhar menos horas.
“Isso tem que depois ser levado com perceção de risco sim, mas também com a responsabilidade de cada um não se deixar substituir”, vincou.
A presidente da ACEGE abordou também a importância da formação para “novas profissões”, de algumas que “caíram em desuso” e outras que têm de ser recuperadas: “Há muita escassez de oferta, sobretudo mão de obra e de trabalhos mais ligados àquilo que é realmente absolutamente necessário a parte humana, ao componente humano”.
“A humanidade tem de prevalecer sobre a máquina, acredito que esse caminho poderá ser mais ou menos sinuoso, consoante nós de facto estivermos mais atentos e de forma mais concreta fizermos este caminho”, enfatizou.
A ‘Magnifica Humanitas’. sobre “a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial”, foi assinada simbolicamente a 15 de maio para assinalar o 135.º aniversário da ‘Rerum Novarum’, encíclica de Leão XIII que inaugurou a chamada Doutrina Social da Igreja.
Esta é a 301.ª encíclica na história da Igreja Católica, grau máximo das cartas que um Papa escreve.
LJ/OC
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