«O trabalhador humano vai sendo cada vez mais descartável, e é essa discussão que ainda não vimos acontecer» – Susana Madureira Martins
Lisboa, 30 abr 2026 (Ecclesia) – A editora de política da Rádio Renascença antecipou hoje “um verão que pode ser quente”, dependendo do aumento do “custo de vida”, numa análise às negociações da legislação laboral, quando as “questões mais sensíveis dificilmente terão uma evolução”.
“Já houve várias cedências de parte a parte, mas o que está mais em causa trata-se de uma flexibilização dos contratos, uma facilidade maior para os despedimentos, e também o famoso banco de horas, que também é um dos fatores de maior discórdia, e maior desentendimento entre os três eixos: sindicatos, o chamado patronato e o governo”, indica Susana Madureira Martins, esta quinta-feira, dia 30 de abril, em entrevista à Agência ECCLESIA.
A editora de política da Rádio Renascença acrescenta estas são as “questões mais sensíveis” da negociação ao ‘Anteprojeto Trabalho XXI’, a proposta de reforma da legislação laboral do executivo português, que foi apresentada em julho de 2025, e que “dificilmente terão uma evolução” na nova reunião da Concertação Social, que está agendada para o dia 7 de maio, a próxima terça-feira.
Susana Madureira Martins observa que “é sempre muito difícil” o equilíbrio entre a dignidade e os direitos dos trabalhadores com a competitividade da economia das empresas, que o governo, os empresários e os sindicatos tentam, “mas sempre com visões diferentes”
“Isso é o desejável, mas o mundo ideal é muito difícil. O desejável é que esse equilíbrio fosse alcançado, mas é pouco crível que venha a acontecer; também é essa dignidade do trabalho que está em causa, porque a dada altura o que se pode ter é o trabalhador, colaborador, como hoje se diz, o colaborador é cada vez mais descartável”, desenvolveu.
O trabalhador humano, observa a jornalista, “vai sendo cada vez mais descartável”, tendo em conta sobretudo as novas discussões sobre a inteligência artificial, sobre as novas tecnologias, sobre a robótica, “e é essa discussão” que ainda não se viu acontecer.
A editora de política da Rádio Renascença realça que o “combate político” passa por vários eixos, até pelo presidente da República, que foi falando disso na campanha eleitoral, mas “o Governo está algo confortável” porque se tudo falhar na concertação social, com os parceiros sociais, “tem o conforto de saber que o Chega está aberto” a negociar e a viabilizar “a proposta ou várias propostas que chegarem por parte do Governo ao Parlamento”.
Susana Madureira Martins afirma que esta “abertura” do partido Chega, mas também da Iniciativa Liberal, são “um balão de oxigênio”, e “dá conforto a Luís Montenegro e a todo o Governo para ter uma proposta mais ao seu jeito”.
O presidente da República já recebeu os parceiros sociais em Belém, e na campanha eleitoral foi “muito assertivo” ao dizer que “vetaria a proposta que lhe chegasse” caso não existisse acordo da UGT, mas, observa a jornalista, “entretanto houve várias alterações à proposta, e António José Seguro tem feito evoluir a sua própria posição”, e tudo depende da proposta que chegar “e das posições das diversas oposições”.
Na véspera do Dia do Trabalhador, a editora de política da Rádio Renascença recorda que o 1.º de Maio “é sempre a plataforma para fazer alguns anúncios de uma luta mais agressiva”, há protestos já anunciados, e “provavelmente uma greve geral”.
“E vamos ter também um verão que pode ser quente, se o custo de vida também aumentar, se os combustíveis tenderem a aumentar, pode haver aí uma tensão social, até antecipando um pouco aquilo que será a discussão para o Orçamento do Estado, que começa no rearranque da sessão legislativa, em setembro”, concluiu, na entrevista no Programa ECCLESIA, transmitido hoje, na RTP2.
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