Afinal…

Octávio Carmo, Agência ECCLESIA

“Afinal, este Papa…”

Perdi a conta às vezes que ouvi a expressão, em tom de maior ou menor admiração, nos últimos dias, quando a viagem de Leão XIV a África se misturou com uma inexplicável série de ataques do presidente dos EUA contra a mensagem do pontífice em favor da paz, do diálogo e do multilateralismo.

O sucessor de Francisco não cedeu. Manteve-se firme nas suas reivindicações e levou-as a terrenos tantas vezes esquecidos, como a região anglófona dos Camarões, epicentro do conflito que há mais de uma década atinge o país. O Papa não deixou de denunciar a corrupção e evocar as feridas do passado colonial (e não só), em países onde os regimes políticos se mantêm no poder há décadas.

Para lá da narrativa mediática de um “pingue-pongue” entre Trump e o primeiro pontífice norte-americano da Igreja Católica, que o próprio Leão XIV fez questão de contrariar, fica uma visita com alertas necessários e desafiantes para quem escuta, no conforto das suas casas: esta economia “mata” e não parece querer mudar; a lógica “extrativista” continua a escravizar o continente africano; os “senhores da guerra” fingem ignorar as consequências das suas decisões sobre os mais frágeis.

Quase um ano depois da sua eleição, o Papa teve a oportunidade de ir ao seu terreno de eleição. Nestes meses, a agenda do Jubileu e a reorganização interna do Vaticano tinham, talvez, criado uma imagem pouco adequada do antigo missionário da Ordem de Santo Agostinho, que muitos ainda estão a descobrir. No meio das multidões em festa, nas periferias mais esquecidas do mundo e até em zonas de conflito, Leão XIV foi mais igual a si próprio do que nunca e deixou claro o seu estilo sereno, mas determinado de liderar. Claro nas palavras, forte nos gestos, feliz nos sentimentos e profundo nas reflexões.

A imagem pública do Papa vai mudar, a partir de agora. Espero que não sejam precisas polémicas estéreis para que as suas palavras tenham o alcance que merecem.

(Os artigos de opinião publicados na secção ‘Opinião’ e ‘Rubricas’ do portal da Agência Ecclesia são da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)

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