António Estanqueiro, Professor e Formador

Na existência humana, conhecemos os milagres da bondade. Mas também sofremos os danos da maldade e da estupidez, que podem transformar a nossa vida num inferno.
Maldade e estupidez são características humanas distintas. No essencial, a maldade é uma falha ética, enquanto a estupidez é uma falha de reflexão crítica. Qual destas forças será mais perigosa? Poderemos combatê-las e melhorar a convivência social?
Forças destrutivas
A maldade manifesta-se em escolhas livres, conscientes e voluntárias, com intenção de fazer mal ao próximo. Quem age com maldade, motivado pelo egoísmo, prejudica os outros em benefício próprio.
Nos atos de maldade, os seres humanos menosprezam a ética e procuram deliberadamente tirar proveito dos danos (físicos, psicológicos, materiais ou morais) que causam aos outros. É o que acontece, por exemplo, na mentira, no roubo e no abuso de poder. Uns ganham e outros perdem.
Diferente é a estupidez, que se manifesta quando alguém, de forma imprevisível e irracional, causa prejuízos aos outros sem qualquer benefício para si mesmo.
Habitualmente, os comportamentos estúpidos, mais ou menos graves, revelam cegueira intelectual ou ausência de pensamento crítico. Quem age com estupidez, fechado na bolha das suas certezas, não tem consciência do mal que faz aos outros e a si mesmo. Ninguém ganha.
Na prática, nem sempre conseguimos distinguir claramente maldade de estupidez. Em caso de dúvida, é prudente não atribuir à maldade intencional comportamentos agressivos que podem ser fruto da ignorância, da incompetência ou da estupidez.
Ao longo da história da humanidade, muitos pensadores refletiram sobre o fenómeno da estupidez individual e coletiva. Existem dezenas de teorias, destacando-se a de Dietrich Bonhoeffer (1906-1945), teólogo alemão, membro da resistência antinazi, e a de Carlo Cipolla (1922-2000), historiador italiano que escreveu As Leis Fundamentais da Estupidez Humana.
A maioria dos autores concorda que a estupidez, mesmo sem intenção maldosa, é uma força destrutiva que produz danos na vida pessoal e social. Traz perdas de tempo, dinheiro e saúde. Espalha ódio e violência. Muitas vezes, é mais perigosa do que a maldade.
Disse o cientista Albert Einstein (1879-1955): “Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana.” De facto, apesar do progresso científico e tecnológico, a estupidez pode manifestar-se em qualquer pessoa, sem distinção de origem, sexo, nível de escolaridade, estatuto social, opção política ou crença religiosa. Ninguém escapa. Não há vacina. E quanto mais poder tiver uma pessoa, maior será o impacto da sua estupidez.
Nas relações humanas, é incorreto usar rótulos como “estúpido” ou “pessoa estúpida” para definir alguém, pois a complexidade do ser humano não se pode reduzir a uma única dimensão. Afinal, em determinadas circunstâncias, todos nós tomamos decisões irracionais e cometemos erros estúpidos.
Caminhos da mudança
É possível combater a maldade através da inteligência e da ética. Sem descurar o papel dos tribunais na punição legal dos crimes, precisamos de investir na educação em valores para prevenir comportamentos egoístas e violentos. O verdadeiro desafio reside em vencer o mal com o bem.
Infelizmente, pouco se pode fazer contra a estupidez alheia. Quando uma pessoa está desorientada no nevoeiro da insensatez, não aceita factos nem argumentos que contrariem as suas crenças ou os seus preconceitos e tende a repetir erros sem medir os prejuízos. Embora mereça respeito como ser humano, o mais saudável é afastar-se da sua companhia para evitar conflitos estéreis.
Não podemos mudar a atitude de quem se recusa a ver a realidade. Mas podemos transformar-nos a nós mesmos e reduzir o nível da nossa própria estupidez, agindo com mais inteligência cognitiva, emocional e social. Deste modo, exercemos uma influência positiva sobre os outros.
A mudança que traz benefícios para todos assenta na educação e passa por diversos caminhos de sabedoria, entre os quais se distinguem cinco: o autoconhecimento, o autocontrolo, o espírito crítico, a responsabilidade e o diálogo.
1. Autoconhecimento. A sabedoria começa no autoconhecimento. É fundamental conhecer a verdade sobre nós mesmos, descobrir quem somos realmente, tomar consciência das nossas capacidades e limitações. Conscientes da imperfeição e libertos da arrogância, tornamo-nos mais tolerantes e mais disponíveis para aprender.
2. Autocontrolo. Esta competência permite-nos gerir as emoções básicas, em especial o medo e a raiva. É um erro agir impulsivamente, sem ponderar as possíveis consequências das escolhas que fazemos. A tomada de decisões sensatas exige equilíbrio entre razão e emoção.
3. Espírito crítico. Uma pessoa reflexiva e crítica é capaz de analisar informações, avaliar argumentos e distinguir o verdadeiro do falso. Quem pensa por si mesmo, com autonomia e lucidez, questiona o uso excessivo das tecnologias e resiste melhor à pressão da maioria ou à manipulação de líderes autoritários.
4. Responsabilidade. Sempre que erramos, devemos reconhecer o mal que fizemos e assumir a responsabilidade pelas nossas escolhas, em vez de inventar justificações. Uma pessoa responsável reflete sobre as suas práticas, pede desculpa, repara os danos causados e, com humildade, aprende com os seus erros.
5. Diálogo. Nos conflitos humanos, o recurso à violência para impor aos outros os nossos pontos de vista é uma atitude estúpida. A atitude inteligente está na abertura ao diálogo construtivo. Dialogando com empatia e respeito, partilhamos ideias, negociamos acordos e fortalecemos relações. Todos ganham.
António Estanqueiro
Professor e Formador
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